O Caminho Para As Borboletas
     Adriane Galisteu
     Para voc,
Beco, onde quer
  que voc esteja
       Agradecimentos

        Com o perigo de estar esquecendo alguns nomes muito queridos, mas com a desculpa
prvia do meu momento, quero carinhosamente citar minha profunda gratido por:
         Luiza Konder de Almeida Braga, doutor Antnio Carlos de Almeida Braga, Joana e
Maria Braga; Birgit e Christian Schues; Betise Assumpo, Galvo Bueno, Reginaldo Leme; Maria
Jos Magalhes Pinto, doutor Marcos Magalhes Pinto, Bebel, Marquinhos, Maria Rita, Maria
Cristina, Joo e Francisco Magalhes Pinto; Angie e Fernando Belo, Dbora e Michael Mello,
Cristina e Joo Reino, embaixador Jos Aparecido de Oliveira e embaixatriz Leonor Aparecido de
Oliveira, Karin Villenbaun e Roberto Irineu Marinho, Sylvia e Paulo Maluf, Walter Moreira Salles
Jr., Ricardo Salgado Jr., Cndida, Felipa, Sofia, Candidinha, Carol e Salvador Correia de S,
Fernanda Pires da Silva, Rubens e Rubinho Barrichello, Geraldo Rodrigues Jnior, Jaime e
Adriana Britto; Romeu Ferreira Leite, Ina Sglinari, Maria Cristina Formaggio, Cristina (Guru) e
todas as pessoas da Elite; Rosa e Rui Hiroshiro, Miriam Dutra; Koarig e Harutium Hakimian,
Paulo, Luciana, Arthur e Pedro Hakimian; os amigos de Sintra, Maria e Fernando Leite (o incrvel
Fernando 24 Horas, como o chamava o Bco), Adelaide Ferraz, Maria de Jesus Souza, Oscar e
Ruth; os amigos de Angra, Maria Augusta, Mateus e Xana; o pessoal da fazenda Guariroba,
Sebastiana, Alosio, Rosalina, Neide, Padula e senhor Frota; Cammy e Ruy Carvalho, Bebel e
Fausto Costa, Marcelo Guedes Namour, Nadia (Mammiss) e Oscar Guerra (Pappiss), Ingrid
Oldenburg, Sandro (Limelight), Mariza e Luciano Figliola, Kalu, doutor Xande Nunes, Cynthia
de Almeida, Nizan Guanaes, Mai Mariutti, famlia Fittipaldi, Filly e Marcos Gava, Adriana,
Ozano, Marquinhos e Daniel Gava, ngela Malta, Yolanda, Rita e Pedro Queiroz Pereira, Csar,
Bel Oliveira; e, sem exceo, todas as pessoas que me escreveram; tia Irene, tio Antnio, vov,
Beto, Fn e um agradecimento muito especial, de todo o corao, para Nirlando Beiro.
        Mezinha, obrigado.
       PREFCIO

         Este livro  resultado de trinta horas de depoimentos, gravados em Sintra, Portugal. E de
um mergulho num ba repleto de cartas, bilhetes, papis rascunhados, agendas profusamente
anotadas - sim, Adriane Galisteu ainda conserva aquela doce mania de transformar suas agendas
em dirios teen, engordados com recortes e fotografias e recheados de divagaes.
            Como editor, tentei ser absolutamente fiel a sua narrativa. As mesmas palavras. O
mesmo tom de voz - dolorido e emocionado, como vocs iro ver. Conservar o olhar diante do
mundo que se abriu para aquela menina que saiu de uma tarde de trabalho num autdromo - a
propsito, ela no gostava de automobilismo - para uma vida de princesa ao lado do prncipe das
pistas.
           Duas ou trs coisas me emocionam particularmente neste livro. Primeiro, a candura
juvenil de quem, nos melhores e nos piores momentos desta love story, sempre se perguntava,
perplexa: por que eu? Creio que at hoje Adriane Galisteu no sabe responder a essa pergunta.
            H, depois, um detalhezinho que pode parecer superficial, mas que me deu a
verdadeira dimenso do que ela viveu nesses ltimos meses vertiginosos de sua vida. Repassando
as fitas das entrevistas, percebi que muitas vezes Adriane Galisteu se refere a seu namorado no
presente. Ayrton , Ayrton faz, Ayrton quer. Inconscientemente, ela continua a se debater contra
a realidade injusta, cruel e dramtica da morte do amado.
            Essa resistncia se manifestou de outra forma, mais explcita. Adriane Galisteu foi
deixando o final para o final - quero dizer, a morte, o desfecho inesperado, a tragdia, o funeral, a
perda definitiva, a incerteza sobre o futuro. Quando, enfim, se decidiu a falar, pediu para gravar
sozinha, sem a presena do entrevistador. Com certeza, por pudor - o pudor de ter um
espectador para as suas lgrimas.
           Conhecia Adriane Galisteu tanto quanto vocs a conhecem antes de ingressar nestas
pginas. De fotos, das imagens de seu sentido luto no velrio e no enterro do heri de todos ns.
Agora, posso dizer que a conheo. Por isso, eu a respeito. Por isso, admiro seu carter e sua fora
e respeito sua dor.
         NIRLANDO BEIRO
       CAMINHO DAS BORBOLETAS

         - Ai, que bom! Ele vai voltar mais cedo para casa. Foi um relmpago na minha cabea -
um pensamento egosta, com certeza estpido, talvez inconseqente. Mas, por um segundo, tive
este flash de esperana: ele arrancaria luvas e capacete, sairia do carro carregando aquela cara de
garoto ofendido to familiar por ocasio das derrotas, se recomporia, fugiria s carreiras do
autdromo e das entrevistas, j encontraria o comandante Mahonney esperando por ele no
aeroporto, com a turbina ligada, e em questo de horas estaria se jogando nos meus braos, em
outro pas, em nossa casa, no Algarve, em Portugal.
            O impacto do carro no muro ganhava bis e mais bis na tev. Curva Tamburello, o
nome do lugar, repisavam os comentaristas. Era uma tomada a distncia - e a distncia o que dava
para ver era a lateral direita do Williams azul razoavelmente amassada, uma roda perdida, nada
que sugerisse alguma coisa mais grave do que batidas parecidas com aquelas das quais ele j tinha
se livrado, so e salvo. Outra imagem da tev mostrava com clareza o momento em que o
Williams se desgarrou da pista, em alta velocidade, e sumiu do campo de viso da cmera
acoplada ao carro que o seguia, o do alemo Schumacher.
            Dei um salto do sof, ainda segurando o prato do almoo na mo - franguinho diet,
legumes, para manter a forma. Minha nica companhia, naquele casaro enorme, era Juraci, a
caseira. Expectativa: mas por que demorava tanto o socorro? Bandeiras amarelas agitavam-se nas
proximidades, mas ningum acudia o piloto acidentado. As cmeras da televiso italiana, mal
localizadas, tambm pareciam manter um distante desinteresse pelo que tinha acontecido.
            Minutos de espera - na verdade, me pareceram horas. Minha taxa de adrenalina foi
subindo, mas confesso que no me desesperei de cara. Tinha certeza de v-lo, de repente,
desatando o cinto de segurana e saltando, lpido, para fora daquela carcaa meio estropiada,
capacete verde-amarelo debaixo do brao, enfezado, a caminho dos boxes.
            Nada. O primeiro carro de socorro enfim se aproxima. Nada. A narrativa do locutor
da televiso inglesa comea a dar sinais de ansiedade. Nada. Eu s gritava: - Mas o que eles esto
esperando?
            Perdi a fome. Colei os olhos no telo, enquanto o helicptero com um cinegrafista a
bordo tentava, enfim, buscar uma imagem mais prxima. A coisa tinha sido pior do que eu
imaginara. Mas eu nunca teria imaginado o pior - e ainda me recusava a imaginar.
               - Deve ter quebrado os braos, ou uma perna - comentei, no sei mais se para mim
mesma ou em voz alta. Buscava a nica explicao possvel, um consolo, para a cena inesperada.
O Bco que eu conhecia tinha pavor de se machucar. Era cair de um jet-ski, em Angra, ou
escorregar na quadra de tnis, em Sintra, para ele parar tudo, checar msculos e articulaes,
pedir uma massagem rapidinha - meticuloso em seu preparo invejvel, ele no tinha a menor
vontade ou vocao para entrar em contato fsico com a dor.
         - Sai do carro, sai - tinha mpetos de gritar, e gritava. Ele no saa. Pensei: desmaiou. Mas
o ligeiro movimento de cabea, meio para a esquerda, que a cmera captou, deu fora a minha
teoria: ele pedia ajuda, implorava para que o retirassem dali. O amontoado de gente sobre ele, as
frestas de imagem mostradas em meio ao atendimento, a aflitiva movimentao dos paramdicos,
os comentrios nervosos dos locutores foram desenhando na minha alma, lenta, lentssima,
muito lentamente, o painel do pnico. Eu continuava de p, na sala de tev, imvel, em silncio,
quando comeou a me subir do estmago, ou de um lugar qualquer situado entre o estmago e o
esfago, uma coisa esquisita, entre um grito e um soluo. Vi os ps dele. Sem movimento. Era a
revelao fatal. Sou expert na linguagem dos ps. Eles me dizem tudo. O que os ps dele me
diziam, naquela hora, era a mais terrvel de todas as coisas. Soltei meu desespero, pranto, berro,
medo, inconformidade - mas ainda um qu de esperana, por que no? A, pela reao em torno,
 que percebi que j no estava sozinha naquela sala, que a Juraci berrava, que os vizinhos tinham
acorrido, que ces latiam assustados, que o telefone tocava. Uma sinfonia fnebre se instalava na
casa em que eu, na minha santa ingenuidade, pensava v-lo chegar aquela noite, mais cedo, com
aquele sorriso lindo, pronto para um reencontro que j demorava quase um ms.
        Jamais passou pela minha cabea a idia de que o palco onde ele foi trs vezes rei poderia
ser  mesmo de sua morte. Nunca se pensou que Ayrton Sena morreria numa pista de corrida.
Nem eu nem ningum. Ele vivia do risco da velocidade extrema, mas o seu talento incomparvel
parecia ter eliminado, da cabea de todos os seus adeptos do mundo inteiro, essa sinistra
possibilidade. Ele at que talvez pudesse pensar. Mas essa era a natureza de seu trabalho - que ele
conhecia melhor do que ningum.
        Depositaram o corpo dele, inerte, sobre a pista de mola - e eu continuava ignorando a
hiptese do pior. Uma mancha vermelha no cho, da cor do sangue, me apavorou. Mas uma alma
piedosa me enganou:
        - No  nada, no.  uma espuma nova que esto usando, contra incndio.
        Acreditei. Mas um telefonema me chamava  razo. De Sintra, da quinta onde mora com
seu marido, o banqueiro Antnio Carlos de Almeida Braga, e com Joana e Maria, suas duas filhas
adolescentes, minha amiga Luiza exibia uma voz preocupada:
        - Braga ligou de mola.  grave.  gravssimo. Voc tem de ir pra l imediatamente.
        - Luiza, vem comigo, por favor. No me deixe sozinha. Ela, ento, alugaria um jatinho em
Lisboa. At o Faro, meia hora. De l, direto para Bolonha. Pedi para a Clara, uma amiga de l e
decoradora da casa, que me fizesse uma maleta de mo, imaginando dois, trs dias de estada ao
lado dele, num hospital qualquer. Esqueci a televiso, as imagens repetidas, apaguei da memria o
rosto assustado daquela improvisada platia que apareceu na casa da Quinta do Lago e tentei me
fixar na idia do encontro prximo, ainda que doloroso. Machucado que estivesse, eu queria
peg-lo. Tocar seu peito. Acariciar seus ps. Sonhava com o contato fsico, pele na pele. Queria
sussurrar-lhe ao ouvido coisas bonitas e encorajadoras.
        Notcias entram e saem, desencontradas, assim como os visitantes. Lus, amigo da casa,
vem dizer que, no rdio, informam que Senna recobrou a conscincia. No  to desesperador
assim. Agora,  minha me ao telefone, do Brasil:
        - Filha, que coisa que aconteceu!? - Ela est chorando. Tento consolar:
        - No, me. Acabou de dar uma notcia de que ele voltou...
        - Dri, cai na real - disse minha me. - S um milagre. Senti algum me dar um copo de
gua e colocar uma plula na minha boca. Com certeza um calmante. Esparramada sobre o sof,
chorando muito, os intestinos em ebulio, tive a idia de ligar para a me dele, que estava na
fazenda de Tatu:
        - Zaza, Zaza... - Eu no tinha muito o que dizer. - Fala, menina.
        - Acabou de dar aqui uma notcia de que ele recobrou os sentidos, ele vai ficar bom.
        - Estou pegando um avio s 14h30 para Bolonha - ela me avisou.
        - Ento a gente se encontra l.
        No aeroporto do Algarve, a tarde comeava a cair. Teramos trs horas at Bolonha,
anunciou o piloto, to logo desembarcou. Luiza estava muito nervosa, mas argumentava:
        - Ele  forte, Adriane, ele  um touro.
        - Mais notcias do Braga? - eu quis saber. - Nada - disse ela. - Mas  muito grave.
        Aquele ombro maternal, ou fraterno, sei l, ajudava a tornar as coisas menos difceis. O
comandante levou o jatinho at a cabeceira da pista e pediu autorizao para decolagem.
Demorou um, dois minutos. Estranho. Desacelerou e comeou a refazer o caminho de volta:
        - No tenho autorizao da torre. H um chamado para dona Luiza, ou para dona
Adriane.
        Quando a porta do jatinho se abriu e Luiza e eu descemos, senti que toda e qualquer
palavra tinha perdido a razo de ser. Os funcionrios do aeroporto, os carregadores de bagagem,
os turistas, os amigos que tinham me dado carona, os visitantes de cara fechada - eu diria at as
pedras, os bichos vadios, as primeiras estrelas do cu, o claro da lua nascente, as fachadas das
casas, os estalos da noite, tudo, rigorosamente tudo, e todos, rigorosamente todos, me davam, em
seu silncio aterrador, a notcia definitiva. Eu tremia dos ps  cabea.
         Luiza voltou plida. Sentou do meu lado. Pegou na minha mo:
         - Adriane... - quis se controlar.
         - Luiza, s no me fala que ele morreu. - Ele morreu.
         Abraou-me soluando. De outra sala do aeroporto, veio a musiquinha: ttt... Aquela da
Globo, que a SIC, em Portugal, tinha adotado. O fundo musical de tantas vitrias dele. Seria uma
alucinao ou eu ouvi mesmo? Eu estava surda, muda, cega, prostrada. Na sala de comando do
aeroporto, fiquei paralisada como uma esttua. Chorava sem parar - chorvamos sem parar, a Lu
e eu. Algum me contou depois que vivemos ali uns quarenta minutos de absoluto desespero.
         - Vamos pra casa - me abraou, enfim, a Luiza. - No h mais nada a fazer.
         -Vou preparar o jantar para ele. O combinado  busc-lo s 20h30 no aeroporto, no foi
isso, Lus?
         Lus, amigo da casa e do Bco, no respondia. Juraci, a caseira do Algarve, entrou em
delrio. Lgrimas grossas rolavam do seu rosto, palavras confusas enrolavam-se na lngua spera
de quem tinha tomado algum medicamento forte, mas seu desespero no batia com o que ela
falava, meio desconjuntado:
         - Sei que o Bco vem pro jantar, no vem? Tnhamos combinado aquela galinha grelhada,
com legumes no vapor... Voc fez a sobremesa de nata, no fez, Dri? O meu menino, o meu
menino...
         Eu, logo eu, fraquinha como estava, me irritei com aquilo:
         - Ele no vem, no, Juraci. O Bco est morto.
         - Lus, fala a verdade pra mim - ela o sacudia. - Ele no morreu, morreu?
         Sei l o que o Lus fez para convencer a Juraci. Como todas as pessoas que trabalhavam
para o Ayrton, a caseira do Algarve tambm o tratava como um filho. Aquilo que ela exprimia era
uma autntica aflio de me. De minha parte, entreguei os pontos: estiquei-me na cama e fiquei
horas ali, entorpecida, sem nenhuma reao. Luiza achava melhor desistir de Bolonha, irmos
juntas para a casa dela em Sintra. Entre um telefonema e outro para o Braga, que velava o heri
morto, ela me deu um tempinho para me refazer. Pedi ajuda a Clara, uma amiga da famlia, a
decoradora daquela bela casa do Algarve que eu no veria mais - e o que eu pedia a Clara, naquele
momento, j tinha o som de um adeus.
         - Junta o que eu trouxe do Brasil. A malona, tudo.
         Os trs volumes que eu tinha acabado de desfazer menos de 24 horas antes, com toda
uma equipagem para passar cinco meses de temporada europia ao lado dele. A temporada
acabou antes de comear.
         Mais um favorzinho, pedi: atrs da porta do banheiro nosso, tem l um short e uma sweat
shirt dele, que eu tinha usado naquela manh, enquanto corria. Naqueles dias em So Paulo,
percebi que seria capaz de acompanhar o Bco na sua corrida matinal em torno do condomnio
do Algarve. Um progresso e tanto. Calo Sweater ainda estavam suarentos. Queria lev-los
comigo. A Clara sentiu que a hora era de despedida: - Mais nada de lembrana? - perguntou.
         Tinha, sim: uma visita solitria ao gramado,  piscina,  Lua, ao silncio da rua, ao
escritrio onde o fax emudecera, s fotos dele, aos trofus de uma carreira brusca e
incompreensivelmente interrompida. Vi o som, tremendo aparelho que ele trouxe da Sua. Por
curiosidade, quis saber qual teria sido o ltimo CD que ele ouviu na vida. Phil Collins - tudo a
ver. Isso, eu tinha direito de partilhar com ele. Guardei o CD. Caminhei, com minhas lgrimas,
em torno da casa.
         Uma escurido baixou sobre mim. Senti que minhas pernas no reagiam ao comando do
meu crebro. Meus braos, meu corpo - estava tudo amortecido. Fui despejada, por assim dizer,
dentro de um automvel e da noite que se seguiu, eu s me lembro de que a Luiza guiava, e
chorava, que o carro trepidava por uma estrada que tanto podia dar no infinito quanto na Lua,
que os rudos calaram, que o mundo parou, que meus pensamentos chegaram prximo daquilo
que os budistas devem chamar de grau zero de percepo. Era como se estivesse dopada. No sei
quanto durou a viagem do Algarve a Sintra. Passava da meia-noite. Despertei  vista daquela que
todos chamavam de "Casa do Ayrton". Bati de cara na realidade:
         - No posso acreditar, Luiza. Ele no me deixou. Ele no fez isso comigo. Ele sabe que
no pode fazer. Sabe que no tem por que me deixar aqui sozinha. Sabe que  muito especial para
mim.
         - Eu sei, eu sei - ela chorava e me consolava. - Ento, no me pe naquele quarto.
         O nosso quarto, eu queria dizer. Luiza, solcita:
         - No, Adriane, voc vai dormir na casa grande, aqui em cima, bem ao meu lado. Mas
nem assim: tudo me fazia lembr-lo. Ainda outro dia, tnhamos jantado naquela sala. Tnhamos
rido, conversado, feito planos com nossos adorveis anfitries. Minha cabea rodava. Agora que
eu topava de frente com a tragdia, fazia questo de encar-la. Ayrton me disse, uma vez: "Dri, o
fraco no vai a lugar nenhum". A propsito de no sei o qu, qualquer bobagem. Mas o
pensamento me voltou exatamente quela hora e eu me sentia era fraca, completamente fraca.
Tomei uma deciso:
         - Luiza, quero assistir a tudo sobre o acidente, tudo. - Tem certeza?
         - Absoluta. Me d o telefone da SIC, da televiso. Vou ligar e pedir para que eles me
mandem os vdeos da corrida.
         - Fao isso por voc.
         O telefone no parava, quela hora da madrugada. Luiza ia dispensando, um por um:
         - Respeitem a menina. Por favor.
         A tev repetia e repetia a carnificina que tinha sido mola. Vi e revi o acidente do Ayrton.
Tentava compreender o incompreensvel, explicar o inexplicvel. Passei a noite em claro, feito
assombrao. A Luiza velou minha dor. Tentou me acomodar para um ligeiro descanso, umas
horinhas de sono. Foi intil. Como eu estava absolutamente fora de controle, passo a narrar o
que escreveu uma gentil reprter de um jornal brasileiro, por conta prpria,  claro:
         - Ela (no caso, eu) vagava de camisola pela casa sombria, como um zumbi, e gritava,
amparando a cabea com as mos: "Ayrton, Ayrton".
         Camisola? Casa sombria? Berros na madrugada? Nem foras para isso eu tinha.
         Pela tela de uma tev, eu experimentei a irrealidade da perda brusca de meu prncipe
encantado, de meu amor, da razo de minha vida. Dos abismos de minha precria conscincia, eu
tentava me apegar a qualquer coisa que fosse, para escapar  impresso de estar vivendo um
pesadelo. Insisti: queria ir a Bolonha. Aquilo mesmo que eu buscava em vida, queria agora na
morte: o toque nos plos do peito, os ps, o rosto, a mscara fria da morte. S vendo, para
acreditar. Essa idia de pluft, tchau, no me conformava.
            - Estou indo, Braga - eu implorava quele que tinha sido o paizo do Ayrton e, agora,
tinha de manter a frieza para zelar da triste realidade da burocracia, da papelada, da autpsia, do
embarque do corpo.
            - No vem. Ningum entra na morgue - ele desconversava. - Tem cinco mil pessoas se
acotovelando l fora. Soube depois que Joseph, o fiel massagista do Ayrton, entrou. Que Gerhard
Berger, o parceiro definitivo, tambm. Celso, diretor do escritrio em So Paulo, assinou o
reconhecimento. Leonardo, no - algum lhe sugeriu que o rosto do irmo estava deformado
demais pela batida. De fato, num telefonema posterior, o Syd Walkins, mdico de planto da
Frmula 1, contou que Senna no tinha como sobreviver quando ele lhe retirou o capacete, ainda
na pista de mola. O sangue esguichou. Perdeu quatro litros de sangue na pista. A traqueotomia
feita ainda no asfalto era uma desesperada tentativa de faz-lo respirar, engasgado em sua prpria
massa enceflica. Massagem cardaca, tudo isso era jogo de cena. S um idiota poderia acreditar
na chance de ele estar vivo. Senna morreu na pista. Mas o circo no podia parar.
         Pode parecer mrbido, mas fiquei sabendo que um fotgrafo da revista italiana
AutoSprint estava na curva do acidente e fizera a foto do campeo em seu frio repouso. Liguei de
Portugal para a revista. Apresentei-me: era a namorada do Ayrton, queria uma cpia da foto. Na
minha aflio extrema, exigia o nico atestado concreto de sua morte. O resto era a fumaa de
um pesadelo que me perseguia.
        Estava s portas da loucura. No acreditava em nada, no via nada, no sentia nada. Devo
a Luiza o meu precrio mas salvador vnculo com a lucidez, naquele acolhimento amoroso e
solidrio de Sintra.
        Hoje, dispenso o testemunho medonho da foto. Tenho ao meu redor, ainda em Sintra, o
rosto puro, inteiro e singelo do meu heri, reproduzido em dezenas de fotos e psteres. Tenho
meus sonhos cotidianos, em que a viso do meu amado  ntida e, talvez confirmando o meu
fetiche, os ps quase sempre aparecem. Sonhei com ele todos os dias seguintes - em Portugal, na
fazenda de Campinas, em So Paulo, no Rio. Nunca eram sonhos apavorantes, mas nem sempre
eu conseguia roubar daquele personagem fugidio, como  da natureza dos personagens dos
sonhos, um beijo e um abrao.
        Tenho hoje a companhia impiedosa dos meus fantasmas, dos meus medos, da minha
solido, das minhas lgrimas - mas recompensa-me, de manh, a chegada do carteiro, com todas
aquelas cartas, remetidas dos mais remotos cantos do mundo, que vm, s vezes muito
cerimoniosas, pedir licena a mim, a namorada, la fiance, la nobia, o direito de compartilhar a
enorme saudade dele. Teve dias em que chegaram duzentas cartas, at mais. Ora, que o amor de
vocs seja um blsamo para a minha alma ferida.
        Uma noite dessas, eu me detive numa frase, escrita por uma dessas amigas que nem
conheo: "A eternidade no cabe em nossas frgeis concepes de espao e tempo".
        Poderia ser um salmo da Bblia, a palavra anotada pela mo divina no livro sagrado que,
assim como ele fazia, s vsperas de corrida, leio hoje todas as noites, em busca de uma
compreenso que ultrapasse o meu desespero. Estou fraca. Mas sinto que no estou sozinha.
        "A viva vai se dirigir  imprensa." Entendam como quiserem entender essa frase, com
direito ao sarcasmo que ela possa ter. Pois imprensa e sarcasmo costumam - que me desculpem
alguns jornalistas de respeito e compaixo - andar de mos dadas. Eu ia dar uma coletiva, na casa
dos Braga, sobre aquilo em que eu me recusava a acreditar. No tinha jeito. Era segunda-feira, eu
no dormira um minuto, mas a Quinta da Penalva corria o risco de ser invadida por um enxame
de reprteres, fotgrafos e cinegrafistas de todo o mundo. No domingo, Ayrton tinha sido a
vtima. Agora, era minha vez.
        Pedi a Luiza:
        - No tenho nem condies de escolher uma roupa para vestir.
        Ela foi ao armrio dela e me emprestou uma. A coletiva saiu meio aos solavancos, eu
ligada no automtico, mas como no me lembrar da senhora que me aoitava com uma nica e
insistente pergunta:
          - Voc tem bilhete de volta para o Brasil? Quem vai lhe pagar a passagem?
        No estava em condies de captar o sentido do dramalho mexicano que ela queria
promover,  minha custa. Na verdade, no sei de onde tirei tanta fora e tanta serenidade. No
me esqueci, ao final, de fazer um pedido a Miriam Dutra, correspondente da TV Globo:
        - Me mande todas as fitas, todos os vdeos que voc tiver sobre o acidente.
        Mandou na tera-feira, depois de mais uma noite em que s tive insnia, pnico e
recordaes. Eu me debrucei no sof e vi, revi, parei quadro a quadro, fiz slow motion, usei
todos os recursos do telo em busca de uma nica expresso do rosto do Ayrton, naquela frao
de segundo da escapada e do choque. Fita por fita, detalhe por detalhe. Quinhentas vezes, e nada
para explicar.
        Ele teve tempo de pensar?
        De incio, minha impresso era de que ele tinha virado contra a curva - como se
fosse bater de propsito. No podia ser. Luiza e Joana, a filha dela, eventualmente me
acompanhavam na minha investigao obcecada. No via sinal de breque, nem de derrapagem (a
resposta estava na caixa preta do Williams, analisada depois: ele tirou completamente o p do
acelerador, a direo estava virada no sentido contrrio, de quem tentava desesperadamente
desviar do muro, e ele pisou no freio no ponto mximo, 4G, como dizem os experts). Queria
saber, naqueles quatro dias posteriores que pareceram quatro anos: foi falha do carro ou o piloto
forou a barra? Queria me conscientizar, embora no houvesse nada a fazer.
          Flashback de uma conversa nossa, antiga e eu diria mesmo rara, a respeito do perigo
numa corrida:
          - Dri, quando eu vou bater o carro, eu sei que vou bater - Bco me disse uma vez. - No
fico cego. Tem piloto que diz que apaga tudo, mas eu sinto o que vai acontecer.
          Ele deve ter assistido, portanto, com aquela sua clareza de mente,  cena final. Pensei:
queria ser um neurnio dele para compartilhar esse fio de conscincia, sentir o que se passou, na
cabea dele naquele minsculo momento. Queria estar com ele no apenas naquela hora, queria
estar com ele - s isso. Pensei em morrer. Queria que me matassem. Perdi completamente o
medo da morte. Aproximava-me daquelas ameias que separam o gramado da quinta do Braga das
pedras do abismo, l embaixo, e pensava em me atirar. No me conformava: no, ele no. Ele
tinha 34 anos, era inteligente, vitorioso, um corao desse tamanho, um ser humano daquele
jeito... Por que no eu? Passaram-se quatro meses, daquele dia a este aqui, em que registro minhas
memrias, e no me sinto bem em lugar algum. Disfaro, tento reagir. Mas tudo foi por gua
abaixo. No quero tirar de ningum, da famlia, dos amigos, dos fs, o direito  dor. Mas o que
perdi era o que eu tinha de mais importante na minha vida. No  pouco.
              Eu tive 405 dias de Ayrton Senna para mim. Os pais dele o tiveram por 34 anos. Se eu
estava daquele jeito, imagina eles. No era uma questo de aritmtica, mas de justia e de piedade.
Todos aqueles dias tentei desesperadamente estar junto da Zaza, me, do seu Milton, o pai, dos
irmos, Viviane e Lo. Ligava para a famlia. A empregada da fazenda atendia:
          - Dona Neide, como est? - perguntava eu, com certa formalidade.
          - Ela foi medicada, est deitada - resumia a Ednia.
          - E o senhor Milton?
          - Tambm medicado e dormindo.
          Liguei vrias vezes, sempre era a mesma coisa. Queria estar prxima, fosse como fosse.
Impossvel. At que um dia perguntei:
          - E quem mais est a?
          - O Cristiano e o Jacir.
          Dois amigos do Ayrton (Jacir era o Gordinho, como o chamavam; Cristiano tinha o
apelido de Criminoso, por causa de um acidente em Angra, brincadeira deles). Dois amigos
nossos, pensei.
          - Deixa eu falar com eles - pedi.
          - Eles no esto aqui agora.
          - Pede ento para eles me ligarem, no Braga, em Portugal - falei, com naturalidade.
          Nada, nenhum telefonema, silncio total. Comecei a estranhar: talvez eu seja uma
lembrana muito viva do Ayrton, uma imagem fortemente ligada  dele, eles queiram evitar.
          Luiza me desencorajava:
          - Pra de ligar pra l, Adriane.
          No dia seguinte, ainda tentei o Lalli (Flvio Lalli, marido da Viviane). Deixei recado. Ele
me ligou.
          - Como est todo mundo, Lalli? - perguntei, inocentemente.
          - P, Adriane, como est todo mundo?! Todo mundo est um horror!
          Ele estava nervoso, agitado, mas eu insisti:
          - Fala qualquer coisa. Da Zaza, do senhor Milton, da Viviane... Qualquer coisa...
          Ele me contou que a situao estava difcil, mesmo para ele, impossvel estabelecer
qualquer conversa com os pais.
          Totalmente por impulso, eu me decidi:
          - J sei. Vou para a j, ficar com eles.
          Lalli foi reticente:
        - A gente no sabe ainda o que fazer. Talvez leve a Zaza e o senhor Milton de volta para
a fazenda, talvez no...
        No dia seguinte, quarta-feira, passei a ligar para a fazenda de Tatu. Estavam todos l. E a
mesma histria: medicados, sedados, ningum podia atender. Braga, sim, l de Bolonha, dava
notcias de cinco em cinco minutos. O corpo s seria liberado aps a autpsia. Norma italiana.
Parece que a Viviane, em nome da famlia, tinha tentado evitar, com o argumento "J mataram
uma vez, querem matar duas". Pacincia. Percebendo que eu estava ansiosa e meio xarope, Luiza
soube que a Juraci estava voltando para o Brasil, aquela noite, e me perguntou se eu no queria
acompanh-la:
        - De jeito nenhum, eu vim com ele, vou com ele. E com vocs.
        Minha sorte foi que o Braga apareceu, finalmente. Sorte minha, azar dele - que, modo,
exausto, arrebentado em mil caquinhos fsica e emocionalmente, ainda teve de se submeter ao
meu detalhado interrogatrio:
        - Qual era o estado de nimo do Bco antes da prova?
        - Excelente, timo humor. Fomos juntos para a pista. Conversou muito com o Nick
Lauda. At com o Prost ele brincou. E me falou de voc.
        - Mas, os outros, como estava todo mundo?
        - O clima da Frmula 1 naquele dia estava pesado admitiu o Braga, do alto de seus anos
e anos de janela. - Mas voc sabe como : o piloto est l, o que ele tem de fazer  correr.
        Comentei com o Braga a longa conversa que o Bco e eu tnhamos tido, na madrugada de
sbado, depois da morte do austraco Roland Ratzenbergen De seu desnimo, de seu choro
convulsivo:
        - Sei de tudo, garotinha.
        E de muito mais. Senna tinha no Braga um amigo do peito. Os dois estiveram juntos,
poucos dias antes, 20 de abril, em Paris, noite em que a Seleo Brasileira disputou uma partida
com o Paris Saint-Germain, o time do Ra. Senna foi convidado a dar o chute inicial. Em pleno
Parc des Princes. Os franceses aplaudiram em delrio. Tanto que ele, com o Braga, esticou depois
do jogo - coisa rara na vida dele - at o La Coupole, feliz de ter sido festejado por um pblico que
em princpio ele julgava pertencer, de corpo e alma, ao seu rival Alain Prost.
        Braga conhecia o Bco e sabia o que se passava no fundo de seu corao. O dolo  um
alvo fcil para a intriga, o veneno, a inveja, o medo dos que gravitam em torno dele, a insegurana
de quem tenta inutilmente control-lo. Braga sabia que Ayrton estava sob presso - e que
a Benetton e Michael Schumacher no eram as nicas coisas do mundo a atormentarem seu
sono. Mas sabia da integridade do amigo, da fora de sua determinao e da sinceridade de seus
sentimentos.
        Posto o que, encerrado o interrogatrio, ele me botou sob sua generosa asa:
        - Vamos nos arrumar para viajar amanh para o Brasil, e voc vai desembarcar conosco,
garotinha.
        Voc pode aprender muitas coisas, de uma hora para outra - para o bem ou para o mal.
At nunca mais ver, inocncia! Naquele momento, eu gostaria de j ter em mos a frase que uma
amiga desconhecida, porm amiga, me mandou depois, numa carta afetuosa: "Sossega, meu
corao: j enfrentaste coisa pior do que isso".
        Citao de um poeta grego, no me lembro mais quem. Se esta frase atravessou tantos
sculos,  porque ela traz a essncia de uma sabedoria. Isso mesmo: o pior, para mim, tinha sido
a perda definitiva do meu amado. Os tormentos posteriores, o enterro, a despedida, at mesmo
as incompreenses, eu cheguei disposta a enfrentar sem o menor medo.
        Morte. A ironia cruel  que ele estava, mais do que nunca, comprometido com a vida. A
lenta cena da preparao de Ayrton Senna, em mola, repisada pela televiso ao som de uma
msica suave, como se ele prenunciasse o desastre, no  nada disso. Eu vi, revi, aposto com
vocs. A cena representava reflexo, sim; temor, talvez; responsabilidade, com certeza. Mas est
a o Nuno Cobra para me lembrar aquele ltimo momento em que estivemos os trs juntos,
maro de 1994, na pista da Universidade de So Paulo.
        - A vida est passando a sua frente - disse-lhe Nuno, filosfico. - Pega ela, pega ela.
        Nuno tinha sido testemunha de um momento em que Senna esteve por um fio: a
espetacular seqncia de capotagens no GP do Mxico, na perigosssima curva da Peraltada, em
que o McLaren acabou emborcado na proteo de brita, Ayrton tambm de cabea para
baixo. Levantou-se, tirou a poeira do macaco e fingiu que nada tinha acontecido. O intelectual
disfarado em preparador fsico, que em dez anos fez de um Ayrton Senna menino raqutico um
homem de msculo e postura rijos, ouviu Nigel Mansell, que vinha na cola de Ayrton naquele
dia, comentar:
        - O cara deu cinco piruetas no ar, mais cinco na terra. S um milagre explica.
        Lembre-se de que Mansell no era dos espritos mais esclarecidos da terra. Mas, por tudo
e por todas, se havia algum por perto que conhecia as fronteiras do perigo, esse algum era o
prprio Ayrton. O assunto, alis, tirava seu humor. Certa noite, no restaurante Rodeio,
contrariando o seu hbito de no comer carne vermelha e de dormir cedo, ele, eu e um grande
amigo, o Marquinhos Magalhes Pinto, camos na armadilha de sentar perto de uma daquelas
mesas s de homens j devidamente alterados pela bebida. O ritual do reconhecimento era
ameno: olhares tmidos, sussurros, de vez em quando a ousadia de um aceno de cabea e s
depois o autgrafo. Mas, nessa noite, um deles exagerou:
        - P, cara, trezentos quilmetros por hora! Voc no sabe que pode morrer?
        Sorriso amarelo o dele. Mas o sujeito estava naquele meio-termo entre o alma-de-ouro e o
chato-meloso:
        - Pra com isso, Ayrton! A gente o adora. Voc  um cara maravilhoso, um triatleta. Pra
de se expor, pra.... Frmula 1  uma mquina mortfera.
        O maitre previu o desfecho, mas foi tarde. Bco, de p, se indignava:
        - Mas isso  assunto para falar aqui? Me respeite, por favor. Estou jantando...
        A morte era um assunto que ele guardava no segredo de seu cofre ntimo. A morte era a
fatalidade, o erro, o acidente, o gratuito - estou hoje convencida de que, na cabea dele, no tinha
nada a ver, por exemplo, com o desempenho e a velocidade. Passamos por poucas e boas, em
Angra, naquele helicptero que ele guiava meio amalucado. Uma vez, foi a porta do meu lado,
co-piloto, que abriu, bem na hora em que passvamos entre os dois cocorutos dos morros que
formam a cidade. Ventou, o helicptero deu de banda, ele gritava "fecha, fecha", eu puxava, mas
a porta resistia ao vento. Ele me ajudou e pousamos em Portogallo empapados de suor. Pior
ainda foi aquele sbado em que ele absolutamente tinha de voltar a So Paulo e as nuvens negras
desceram sobre o litoral como naquelas tardes de outras tragdias ilustres.
          Soube depois que ele consultou seu piloto em So Paulo:
          - No vem que no d - aconselhou nosso bom Nelson.
        - Mas tenho de ir.
        E foi. Pior: comigo. No se enxergavam cinco metros  frente da perigosa serra do Mar,
entre Parati, Ubatuba e Caraguatatuba. Nuvens espessas e negras. Ele por assim dizer engatou
uma primeira - jogou tudo. Se passasse, timo: se no passasse, a ver. O helicptero ganhou
altitude, ganhou altitude, foi subindo at que clac, um estranho barulho e um mergulho para
baixo. Ele ficou lvido. Agarrou-se no controle e trouxe o aparelho at muito perto do mar,
enquanto eu, sem tempo sequer de invocar minha santa padroeira, s lembrava, em silncio,
daquele acidente recente:
        - Ulysses, no. Ulysses, no.
        Ele disfarou bem. Voando baixo, explorou as brechas desenhadas entre as nuvens e
acabou atravessando, sem sobressalto, em direo a So Paulo, porto seguro. Desligou as hlices
e teve a reao mais natural de quem tinha passado por um aperto daqueles:
        - Me espera aqui que vou fazer pipi.
        Na verdade, o campeo quase tinha feito nas calas. Eu tambm.
        Ol me chamo Adriane Galisteu, tenho 21 anos e sou modelo - sou? Era? Ainda vou ser?
S o futuro dir. Nasci e cresci na Lapa, um bairro de classe mdia para baixa de So Paulo,
estudei em escola pblica, tenho me, irmo casado, um adorvel av materno de 80 anos, um
Fiat Uno 1993 e uma histria que gostaria de contar. H de parecer, a alguns, um conto de fadas
- e a mim mesma me ocorre muitas vezes, depois que tudo aconteceu, a pergunta persistente se
este mundo em que ns vivemos no  s um sonho, se o que chamamos de realidade no  uma
sombra projetada numa parede. Disseram-me que algum muito importante j pensou assim, mas
acho que faltei  aula, naquele dia. No sou mstica, no vejo duendes, mas posso passar horas de
noites de insnia - insnia  uma das novidades que os vertiginosos ltimos meses de minha vida
me introduziram - lendo a Bblia. J disputei concursos de beleza, mas nunca li O Pequeno
Prncipe. Gosto de Paulo Coelho e, no momento em que remexo nos arquivos de minha
memria, aqui e agora, enevoada pela bruma da serra de Sintra, em Portugal, planejo refazer o
caminho de Santiago de Compostela - aquele do Dirio do Mago.
        Perdi aos 15 anos meu pai, um espanhol da Castela, mal entrado nos 50, numa noite em
que eu disse que ia com uma amiga para o Guaruj e fui com um namorado para Aruj. Freud
explica, talvez - mas no consola o meu arrependimento boboca e infantil. Fiquei sabendo
que meu pai, que j tivera um problema cardaco, chegou andando ao hospital e saiu no dia
seguinte num caixo lacrado, com toda a famlia desesperadamente  minha procura. Imaginem
meu trauma. Desde ento, minha me sabe rigorosamente tudo o que se passa em minha
vida. No sei mentir. Meu relato pode ser emoldurado de dureza, tristeza, decepo, alegria,
iluso, arrependimento, franqueza, imprecises, rancor, exagero, mas a verdade, fiquem certos,
ser preservada como um tesouro to precioso como aquele de que vai falar esta histria: o amor.
        Mes contam coisas exageradas dos filhos, mas desta eu me recordo: aos 9 anos, me
descobri bonita. Ganhei um biquni novo dela e to apetitosa me senti - ser apetitosa palavra do
vocabulrio de uma menina de 9 anos? - que vesti a pea de baixo, fiquei me apreciando no
espelho, horas a fio. De repente, simulei um mergulho. Queria apreciar a perfeio do meu corpo
em todos os ngulos. O espelho se espatifou em mil pedaos e as escoriaes generalizadas
tiveram de adiar meu show aqutico por alguns dias.
        Encanei:
        - Me, quero aparecer na televiso.
        (Imaginem, aps a morte do Ayrton, tive de dizer no a pessoas gentis e influentes que
me convidaram para ser atriz numa das novelas da Globo. Mas agradeo seu gesto de amizade,
Roberto Irineu.)
        Minha me argumentou que no seria fcil, mas, como sempre, foi  luta. Por intermdio
de uma vizinha que tinha uma filha adolescente no teatro, juntou endereos de agncias e me
produziu um book. Ainda me lembro do nome da fotgrafa: Teresa Pinheiro. Fotos sem muita
produo nem maquiagem, em preto-e-branco. Dali, procuramos uma agncia especializada em
crianas, a Pritty, que ainda existe, em So Caetano. Meu pai tinha sido dono de uma grfica que
chegou a ter duzentos empregados. Passara sua parte e se aposentara. Tnhamos uma vida
normal, sem carncias e sem luxos. No era tanto o dinheiro que me movia. Era o sonho de ficar
famosa.
        Casting para o primeiro comercial. Aprovada. Vocs vo perceber uma predestinao a.
Sabem quem era o anunciante? O McDonald's. Que abria sua loja da Avenida Rebouas com
Henrique Schaumann. Eu tinha de dizer aquilo:
        - Dois hambrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e po com gergelim.
        A frmula do Big Mac. A campanha era essa: quem cantasse rapidinho, sem errar, no
balco da nova loja, levava de graa. O sanduche era timo, mas a vida de artista uma dureza, eu
percebi. Filmamos e refilmamos um milho de vezes. Praticamente passamos, mame e eu, dois
dias e duas noites no McDonald's.
         Minha me, sempre ao lado - mas sem aquela atitude chata de me de miss. Entregava o
cach para ela, ela o administrava. A eu deslanchei: outros filmes, passarela, desfiles - com a
ajuda de um coregrafo amigo, Joacir Dallas, eu praticamente reaprendi a andar. Teatro, nem
pensar - supus que no tinha talento. Mas teria, por vrios anos, uma outra inesperada experincia
de palco. Via msica. Ateno, Chacrinha, Gugu, Trapalhes, Silvio Santos, Xou da Xuxa, Srgio
Mallandro, Bolinha - aqui vou eu.
         Um sucesso, a novela Chispita, na TVS. S que era mexicana. Marco Antnio Glvo, um
produtor que trabalhava l, percebeu a chance de um LP do tipo trilha, em portugus. Fez o
casting, a msica estava pronta - era s dublar. Tinha de ter cara e ginga, voz era o de menos.
Acabou a novela, acabou o conjunto. Estava com 11 anos. Aos 12, dei um estiro - virei uma
mulher. Meu primeiro suti foi da Monizac, uma campanha que foi um estouro e bem sugestiva
do que se passava comigo. "Menina ou mulher?", dizia o anncio. Continuava o trabalho de
modelo, logo iria para a Jet-Set, enfim uma agncia de porte. Mas a msica me chamou de volta:
um conjunto de quatro garotas - Dbora, Kalu, Cinthia e eu -, com melodias aucaradas que
lembravam os anos 60. O nome, escolhido pela empresria Amlia Romo, no poderia ser mais
adequado: Meia Soquete. Tem muita gente da minha idade que ainda se lembra do nosso estilo
Lolita.
         Dos 13 anos em diante, vivi um turbilho de muito trabalho, muita viagem, muita
experincia inesperada - como cantar ao ar livre para milhares e milhares de pessoas em Tucuru,
no Par. A msica no era meu barato, assim como as drogas, o lcool e a badalao nunca
foram. Mas tnhamos gravadora de prestgio - primeiro a RGE, depois a Som Livre. Chegamos a
ganhar mais de um disco de ouro e isso d orgulho a qualquer um. Era dona de uma voz
afinadinha, mas no palco vivi situaes de desastre, como o show em que desabei como uma
abbora, quando a gente se dava as mos numa roda. As viagens constantes disputavam com as
aulas, nas quais eu dormia de cansao, e com o ano letivo. No terceiro colegial, finalmente,
a escola perdeu. Alis, eu perdi - o ano. Antes, j havia perdido meu pai e minha vontade de
cantar.
         Uma sndrome de pnico, ou pelo menos um srio sintoma disso, quase me enlouqueceu,
pouco tempo antes de conhecer o Ayrton. Estava num lugar qualquer e, de repente, o corao
disparava, as mos comeavam a suar, perdia o equilbrio, chegava a desmaiar. Fiz exames, tomei
tudo o que me indicaram, de antidepressivos a simpatias, conversei com outras pessoas - nada.
Um dia, a caminho de casa, dirigindo o carro, meus joelhos tremiam como chocalhos. Vi uma
igreja e entrei. No meu pnico, rezei por mais de meia hora - em voz alta, quase aos gritos:
         - Meu Deus, me d foras.
         Eu no freqentava igreja, no era mstica, menos ainda esotrica, mas mantinha em mim
uma reserva de f. Ela me ajudaria naquilo - e depois. Nesta idade de 21 anos em que muitos mal
comeam a vida, j passei por quase tudo. Tive o sucesso mas provei da parte dura da realidade.
Aprendi muito - inclusive no curto tempo em que tive de ensinar. Sim, isso mesmo: tambm dei
aula, para o 1 Grau, naquele ano em que fui reprovada. Queria o diploma e passei para o curso
de magistrio - o normal. Entrava na sala e havia um menino sempre dormindo. Tentava mant-
lo acordado e nada. Um dia, chamei-o para conversar.
         - Sabe o que , tia? - explicou. - Lavo carro quando saio da escola e  noite entrego pizza.
         Era um garoto de 10 anos e levava para casa o po de cada dia. Que ele dormisse o
quanto quisesse. Depois, foi uma menina cujos cabelos tinham sido tomados por piolhos. Quis
ajud-la:
         - Vou avisar a sua me.
         - Que me? - respondeu, candidamente.
         Para a missa de trinta dias da morte do Ayrton, que assisti no Rio, no aconchego da
famlia Magalhes Pinto, ganhei de dona Maria Jos uma consoladora Bblia. Pouco antes,
recebera um livro e uma dedicatria encorajante, presentes das irms Marilda, Marecilda e
Marilene, de Curitiba. O ttulo me deixou curiosa - Quando Coisas Ruins Acontecem s Pessoas
Boas. Obra de um judeu americano chamado Harold S. Kushner, com prefcio do rabino Henry
Sobel. Traz toda uma reflexo filosfica profunda, a partir da perplexidade de Kushner, na poca
um jovem estudante de teologia, com a mensagem do Livro de J e a essncia do sofrimento
humano.
        Evidente que tinha tudo  ver com o momento que eu vivia e o resultado foi que
mergulhei no livro. Eu tinha me perguntado muitas vezes: por que Deus tirou o Bco de mim?
Por que ele haveria de morrer fazendo aquilo que mais sabia fazer? Por que naquele momento
to especial para ns dois? Por que Deus permite que uma criana contraia um cncer? Por que
Deus deixa imperar o mal? O livro prope a idia de que Deus  um mistrio que a mente
humana no pode alcanar. A divindade, como Ela for chamada: Jeov, Buda, Maom, Oxal,
qualquer que seja o nome de seu Deus. Portanto, Deus no  dos males do mundo, assim como
no tem a ver com a nossa felicidade. O que acontece sobre a Terra  resultado das leis da
natureza: nascer, crescer, morrer.
          O senhor Kushner est a uma distncia enorme do meu invencvel sentimento de
perda, mas me ajudou, sem saber, a dar um pouco de ordem aos meus desesperados
porqus, porqus e porqus. Sem fatalismo, mas tambm sem resignao. Amm.
        Vida de modelo  assim - testes, aerbica, testes, musculao, testes, alguns convites que
podem ser aceitos, mais testes, propostas que devem ser recusadas, testes... Eis que, l, perdida
numa pgina qualquer de minha agenda, escondida no emaranhado de coisas a fazer, contas a
pagar, telefonemas a dar, est rabiscada, sem destaque, aquela anotao que iria mudar o rumo de
minha vida:
        "15 de maro - Teste na Elite. Quatro da tarde".
        Pode ser que vocs no acreditem em destino. Mas vo perceber que eu tenho de
acreditar - ainda que esse destino possa vir a ser, de repente, cruel, muito cruel.
        Na verdade, eu quase no fui ao encontro dele, o destino. Quando Karen, a booker da
minha agncia, me ligou, alguns dias antes, eu quis recusar. Ela me explicou: recepcionista no
Grande Prmio Brasil, "uma grana bem legal". Mas, sinceramente, aquela palavra - recepcionista -
no me soou bem. No que eu j no tivesse feito trabalho desse tipo, no  isso. Nada de
preconceito.  que eu estava vivendo um timo momento profissional - e me sentia em
condies de escolher o meu trabalho. De mais a mais, no tinha a menor intimidade com a
Frmula 1. Achava que era um mundo fechado, masculino demais. Jamais trocaria o cheiro de
meu perfume Roma, da Laura Biaggiot, pelo da gasolina.
        Automobilismo, at aquele dia, era to distante de mim quanto rgbi ou beisebol. Tinha
visto uma nica prova, ao vivo - em 1989, no Estoril, em Portugal, mais por farra, com um grupo
de amigos, aproveitando a folga numa bateria de fotos de moda. Na televiso, no tinha
muita pacincia: via a largada, as primeiras voltas e, dependendo do resultado, as ltimas. Eu
estaria mentindo se dissesse que era uma f de Ayrton Senna. Nunca fui f de ningum. As
meninas da minha rua lambiam o asfalto pelos Menudos, por exemplo. Eu, no - ao contrrio de
minha av hngara, que torcia pelo Ayrton e no perdia jogo do Palmeiras na tev, nunca entrei
nessa de ter dolo. Na Frmula 1, confesso que no mximo tinha certa simpatia pelo Nigel
Mansell - quer dizer, por ele ser um cara engraado, meio maluco e trapalho. Adorava quando
ele se metia em alguma briga com aquele nosso garoto Senna. Alis, Mansell ganhou em Estoril
naquele ano e eu vibrei.
        Voltando a maro de 1993. Karen insistiu muito para que eu aceitasse o convite da Shell.
Seriam s dez modelos, meninas bonitas e conhecidas, para ficarem na sala vip, sem essa de
desfilar pelas arquibancadas, sem confraternizao com a galera, coisa sria. Citou o nome de
duas ou trs que eu conhecia - a Nara Pinto, a Patrcia Teixeira, a Laura Gutierrez... Tudo bem,
vamos ver como . Nem perguntei pelo dinheiro.
        Na hora marcada, mais uma tramia do destino: tinha de vestir mai. Ameacei uma meia-
volta: "Estou fora".
          Mas os trs diretores da Shell que estavam l imploraram: "No  o que voc est
pensando..:" O uniforme da prova era curtinho, s isso. Perguntei sobre o que teria de fazer no
Autdromo de Interlagos, eles me perguntaram sobre minha carreira - e, sem mais, um deles me
surpreendeu:
          - Voc est aprovada.
          Mil dlares por quatro dias de trabalho, de quinta a domingo, era tudo o que eu esperava
ganhar, naquele fim de semana de GP Brasil. Jamais passou pela minha cabea que eu iria ganhar
o amor de minha vida.
          Quinta-feira, 18 de maro, coletiva de imprensa com os pilotos da McLaren, que a Shell
patrocinava. Eu fora - tinha agendado um trabalho anterior. Mas, s seis da manh de sexta, l
estava eu, a bordo de um txi e de muitos bocejos, a caminho da Elite, ponto de encontro para
Interlagos. No autdromo, tivemos um mobral rapidinho de Frmula 1. Para que ns, modelos,
no ficssemos ali apenas com nossos rostinhos - e corpinhos - bonitos, eles nos introduziram na
linguagem do circo: cockpit, pitwalk, pitlane...
          Sbado, de novo. Madrugada, segundo treino oficial. Os motores voltam a roncar. O
Dudu, da Shell, vem, de repente, com a bomba: dali a alguns minutos, sabe quem  que
iria visitar, em pessoa, o hospitality center da Shell? Isso mesmo - ele, Ayrton Senna. Frenesi nas
meninas, disparada para o banheiro - cada uma delas, descabeladas, correndo em busca do
espelho e de um providencial retoque na maquiagem. Todas, menos eu - tudo bem, no era o
caso de esnobar nosso tricampeo do mundo. Simplesmente, eu no o conhecia. At aquele dia,
ele no era meu dolo. Passaria a ser - para toda a eternidade.
          Ele chegou. Uma cena que iria rever infinitas vezes: uma multido compacta, ansiosa, e,
navegando no meio daquele mar, o solitrio bonezinho do Banco Nacional, anunciando a
aproximao do dolo. Empurra-empurra, confuso, quase histeria - e ele, sem perder a calma, o
timing e o comando da situao, saa cumprimentando as pessoas, enquanto saciava seus
olhinhos curiosos e vivos com a busca de alguma novidade. Eu no sa do lugar. Observava,
apenas - afinal, estava ali a trabalho, no a passeio. Ele subiu num pequeno palanque e comeou a
dizer algumas palavras. Senti que ele me olhou. Mas era para mim ou para a Nara, que estava
atrs de mim? Ou teria sido um olhar vago, para um ponto indefinido e qualquer que acolhesse a
timidez dele?
          Novo alvoroo: caminhada pelos boxes. A cada uma das meninas correspondiam dez
convidados. Todas querendo se escalar para a McLaren. Eu, me fazendo de modesta: "Para mim,
tanto faz". Knockdown: ganho exatamente a McLaren. A caminhada me provoca um sentimento
de compaixo para com aquele moo, cara de menino, que fica zanzando pelo boxe, visivelmente
tenso pela responsabilidade de disputar um Grand Prix em casa - e ele, ali, indefeso em meio ao
assdio dos fs e dos pedidos de autgrafo, sem desfrutar da mais remota privacidade. Dura  a
vida de um Ayrton Senna, pensei comigo mesma. Sua expresso carregada confirmava minha
apreenso.
          - Olhou pra voc - provocou a Nara.
          - Foi pra voc - devolvi.
          Pra mim, pra voc.
          Era o domingo da corrida e houve esse novo passeio pelos boxes, com os convidados,
entre o warm up e a largada. Dia comprido para mim. s cinco da manh j estava acordada, s
6h30 desembarcava no autdromo. Trabalho difcil: muita gente, muita correria. Mas houve o tal
pitwalk, como de praxe, e, nas vizinhanas do boxe da McLaren, um gordinho simptico, de cara
bonitinha, me abordou:
          - Sou o assessor para assuntos particulares do Ayrton Senna - apresentou-se. - Ele me
pediu pra pegar o seu telefone.
          Achei que era gaiatice, mas dei. O da minha casa, o do trabalho. Incrdula, vi aproximar-
se um senhor, que repetiu:
          - D o fax tambm.
         Eu, silenciosa.
         -  isso mesmo, garotinha. O cara est parado em voc.
         (Guardo no ba de minhas melhores lembranas a primeira vez em que o ouvi
pronunciar a palavra garotinha. Eu amo o Braga, doutor Braga, o Braguinha, o Bragota; eu amo
ouvi-lo dizer garotinha, eu amo a Luiza, mulher dele, eu amo a Joana e a Maria, as duas filhas do
casal, tenho uma gratido que jamais poderei exprimir em palavras. O outro, o tal "assessor para
assuntos particulares" do Ayrton, era, eu logo ficaria sabendo, o Jacir, ou Jaa, amigo de longa
data do Bco, que tinha, e s ele tinha, autoridade para cham-lo, sem represlia, pelo apelido de
Baleia.)
         Logo notei que "o assessor" se encarregou eficientemente de colher outros telefones das
meninas da Elite e desencanei. Ficou apenas a expectativa de uma nova visita do piloto,
anunciada pelos diretores da Shell - e uma nova, aflita, corrida ao banheiro, batom, maquiagem,
uma geral nas meninas. Eu apenas esperei. Nara ainda brincou comigo:
         - Est se fazendo de difcil, boneca?
         - Olha, ele at que me atrai - respondi, moleque.
         - Voc reparou naquela bundinha?
         Estvamos nos divertindo. E olha l de novo aquele bonezinho azul do Banco Nacional
aproximando-se, engolfado no mar de tietes. Dessa vez, ele ficou um pouco mais. Meio
encabulado, subiu ao palco e falou sobre o que esperava da corrida. D pra vencer, disse, sem
aparentar muita convico. "No posso garantir que vou ganhar, mas  o que eu mais quero",
despistou. Ns, as dez meninas da Elite, com nossos macacezinhos que deixavam boa parte das
pernas de fora, ficamos bem diante do palco, como se formssemos um cordo de segurana
entre ele e a platia de convidados. Estacionei na frente dele, olhando para cima, fila do gargarejo.
Ele falou pausadamente, remoendo cada palavra que pronunciava. Falava e olhava para baixo.
Quer dizer: olhava para mim. Ser? Coincidncia.  sada, entre cotoveladas e pedidos de
autgrafo, a, sim, uma olhada ntida e um largo e lindo sorriso para mim. Para mim? Olho para
trs e eis que vejo, de novo, a Nara - aquele um metro e setenta e muitos centmetros de pura
beleza morena. Ento  isso: o negcio dele, definitivamente,  a Nara.
         -  com voc - eu entrego os pontos. - Ele gosta  de louras - brinca Nara.
         Mas alguma coisa tinha tocado em mim. Meu desinteresse pela corrida transformou-se, de
repente, numa enorme ansiedade. Sinal de largada e eu, como todo mundo, passo a me revezar
entre a televiso e a amurada do hospitality center. S tenho olhos para o carro vermelho e
branco da McLaren. Descubro-me torcendo freneticamente por ele. Alain Prost na frente. Um
milagre: uma nuvem negra, nica em todo o cu de So Paulo, sobrevoa o autdromo. Caa a
chuvarada. Prost roda e sai da corrida. A torcida vem abaixo.
         A chuva pra. Ayrton Senna  o vencedor.
         Tempo de comemorao: os diretores da Shell anunciam uma festa-surpresa em
homenagem ao campeo. Depois das dez da noite, no Limelight, uma boate da moda em So
 Paulo. Todas as modelos esto convidadas, alis, convocadas a comparecer. Arrastando-me de
cansao, sonho com minha caminha, para retemperar as energias gastas no trabalho e na
surpreendente ansiedade que tomou conta de mim durante a prova.
         No gosto de boate, nem tenho sado  noite. Mas ligo no automtico: tenho de ir. No
iria me arrepender. A noite ainda me traria muitas surpresas - ou, pelo menos, uma. Aquela pela
qual, ainda que meio inconscientemente, eu comeava a me interessar.
         Ele deu uma de Cinderela s avessas: ao som das doze badaladas, apareceu. O Limelight
regurgitava de gente, msica e dana,  espera da estrela da tarde e do convidado da noite - o
campeo. O sorriso dos garons abria a passagem que o empurra-empurra dos tietes insistia em
bloquear. Medi minha impacincia, senti o drama e consultei o staff da Shell: iria cumprimentar o
Ayrton e me retirar estrategicamente. Eu vestia jeans, miniblusa preta - o calor estava diablico -
, usava um sapato de plataforma preto, nenhum trao de maquiagem. Era a prpria working girl.
Uma bandana vermelha no pescoo foi o mximo de futilidade que me permiti.
        No que busquei, de novo, com o olhar, nosso convidado, eis que j o vejo muito bem
instalado num camarote, sendo abraado por outro heri nacional - Pel. Mais o tal gordinho da
corrida e o irmo dele, Leonardo, que eu conhecia de fotografia e de histrias, muitas contadas
pelas modelos da Elite. E todo esse belo quadro emoldurado por pelo menos duas dezenas de
mulheres bem bonitas e aparentemente bem disponveis. Suspirei de alvio: diante daquilo, estava
dispensada de qualquer figurao.
        Antes de sair, quis apenas cumprir o protocolo. Abri caminho com os cotovelos at o
camarote e fui dar meu al. Mas o prprio Ayrton pediu ao segurana para dar passagem. Segurei
na mo dele para um rpido parabns. Senti que ele estava eufrico com tudo aquilo - a vitria, a
comemorao, o paparico. Ele manteve a minha mo na dele. Eu desconversei:
        - Voc foi o mximo. Estou aqui em nome da Shell...
        Nada de soltar minha mo. S para, de repente, pegar uma taa de champanhe e me
oferecer:
        - Comemore comigo.
        - Obrigada, mas no bebo - disse.
        - Mas  um dia especial. Eu ganhei. No bebe nadinha?
        - Nadinha, desculpa.
        - Ento, fica aqui com a gente.
        - Mais uma vez, desculpa. Mas eu no estou gostando desse clima de camarote nmero 1.
        Senti uma certa decepo no rosto dele, mas fiquei firme. S me permiti um escorrego
mais pessoal, antes de virar as costas:
        - De qualquer modo, voc tem meu telefone...
        O gordinho amigo do Ayrton, o tal "assessor", ainda quis me segurar pelo brao:
        - Espera a, a gente vai dar um churrasco em Angra, no fim de semana, no quer ir?
        Escapei com o clssico "a gente se fala".
        Levei comigo aquela mistura de sentimento que vai desde "p, ele me tocou" at o "isso 
tudo um grande absurdo". Mas absurdo mesmo foi quando, s nove da manh do dia seguinte, a
empregada veio me chamar, para o desespero de quem odeia ser despertada cedinho:
        - Telefone.  um tal de Ayrton.
        Aquele gordinho folgado - pensei, imaginando ouvir a voz do tal "assessor". Fui
malcriada:
        - E a?
        A voz serena e doce que ouvi foi uma ducha na minha irritao:
        - A gente vai dar uma churrascada em Angra. Voc no quer ir?
        Vacilei. Disse que tinha muito trabalho pela frente, precisava de um tempo para
responder. Pela primeira vez tomei contato com o estilo daquele que, no por acaso, era o rei da
velocidade.
        - Agora... O que voc vai fazer agora?
        - Agora? Tenho um teste para um comercial.
        Teste para um comercial.  a desculpa mais manjada no mundo das modelos. S que, no
caso, era a mais pura verdade. Eu diria at: uma irnica verdade. Teste para um comercial da
Arisco - para figurar ao lado de ningum menos do que Nelson Piquet. At eu, at as pedras
sabiam que Piquet era o maior inimigo de Ayrton Senna. Preferi guardar esse segredo dele.
        Ele no desistiu:
        - Ento, depois do teste, me liga.
        E me deu aquele telefone direto que faria o fascnio de tantas fs e de tantos jornalistas.
Celebrei, l no estdio, as virtudes do molho Tarantella, senti que agradei e no resisti  idia do
prometido telefonema. No sei bem qual era a minha inteno, mas, por via das dvidas, comprei
quinze fichas de telefone e me dirigi para o orelho mais prximo. Nervosa, porque no sabia
nem com que nome cham-lo. Ayrton? Ayrton Senna? Quase desliguei quando a secretria sacou
do "quem gostaria?"
         - Adriane... - respondi, desenxabida, me culpando pela certeza de que ele jamais viria ao
telefone.
         Veio, interessado:
         - E o teste, como foi?
         - Legal, fui bem, eu acho.
         - Mas que teste  esse?
         Pensei: me pegou. Ou quase:
         - Sou modelo da Elite...  um comercial de tev... - desviei.
         Cara minucioso, esse:
         - Mas que comercial?
         - Com seu amigo Nelson Piquet - entreguei (se o conhecesse naquele momento como
vim a conhec-lo depois, nem por brincadeira mencionaria o tal nome).
         Ele engoliu seco, silenciou por um minuto e mudou de assunto:
         - Mas e a churrascada em Angra, voc vem?
         Senti que no daria para despistar mais. No nervosismo, escapei para o horscopo:
         - Escuta, de que signo voc ?
         - Do nada - ele brincou. - Sou de ries.
         - Eu tambm - comemorei.
         - Sou meio tmido, voc me entende, no ?
         - Tmida e confusa, eu...
         - Meio difcil dizer as coisas... Mas queria convid-la... - Entendo... Mas, me desculpa: no
o conheo.
         - Como no me conhece?! - ele reagiu, com mpeto ariano. - Todo mundo me conhece.
         - De matria de jornal, de entrevista na tev... Mas, como homem, como pessoa, no o
conheo. No tenho a menor idia de quem voc .
         Cabea dura de ariano:
         - Ento, vai ter hoje uma boa chance de conhecer. Estou dando um jantar s nove da
noite no The Place. Voc est convidada.
         Sei l, nem registrei. Chovia em So Paulo, deu aquela preguia, ainda estava cansada das
emoes do GP - enfim, no apareci. Na manh seguinte, j estava estacionada no meu lugar
habitual na Elite, ali na regio da Avenida Faria Lima, quando olhei para a janela e tive um
sobressalto:
         - T alucinando! - pensei comigo mesma.
         O que eu via, na porta da agncia, era um Honda negro, reluzente de to novinho, e
dentro dele, pilotando, quem, quem? Ayrton Senna. Como eu jamais bebo, menos ainda quela
hora da manh, me assustei: delrio, loucura. Aquele cara estava me fazendo mal.
         Logo, logo, notei que tinha domnio perfeito de minhas faculdades mentais. A acelerao
que fez o carro - zzzuuuummmmmmmm - sumir na esquina reforava a idia de que era mesmo
ele, em pessoa, e no um fantasma. De mais a mais, era inconfundivelmente de felicidade o
sorriso que exibia no rosto a Daniela, uma das meninas da Elite - que eu acabara de ver
desembarcando do carro.
         Daniela estava radiante:
         - Vocs viram quem acabou de me deixar aqui na porta?
         - No, no. Quem? - a mulherada, curiosa, aglomerou.
         - O Ayrton Senna. Meu novo namorado.
         - Hummm... (dvida, cime e jeito de pedir "conta mais!")
         - Pode acreditar. Ele  o mximo. Estou apaixonada.
         Eu, com os meus botes: ela foi ao jantar que eu no fui.
         A moa no era das mais discretas. Diante daquela platia alvoroada, contou detalhes da
noite ntima. Massagens nos ps, nas mos, no pescoo. E por a vai. Mincias das quais eu
gravei, sei l por que, um detalhezinho:
         - Gente, ele at botou pasta de dente na minha escova. (No nosso primeiro encontro, quis
fazer a mesma coisa comigo. Reagi na base do "essa eu j manjo, cara".)
         Loira de olho azul. Mulherao lindo. Gacha, a Daniela. O carinha tinha bom gosto. E,
de repente, estava todo mundo comentando que ia haver uma churrascada em Angra. Relaxei:
ento,  uma festa. O convite  geral. Peguei o telefone e disquei para ele.
         - P, garotinha, voc no apareceu - repreendeu, carinhosamente. - E a Angra, voc vem
ou vai furar outra vez?
         Tentei desconversar, louca, porm, para dizer sim:
         - No deu pra ir. Sobre Angra, eu j disse que preciso conhec-lo melhor.
         Contra-ataque arisco, o dele:
         - Estou querendo ir amanh. Por que, antes disso, voc no passa pelo meu apartamento
e a gente conversa?
         Fiquei de posse daquele valioso tesouro. Escrito num pedacinho de papel, o endereo -
Rua Paraguai, 64, dcimo stimo andar. Prdio de tijolinho, ele me explicou. O nico da rua.
Disse como chegar l.
         A aventura me atraa e me repelia. Eu, que durmo como uma teenager, tive sobressaltos
aquela noite, remoendo as idias mais estapafrdias e regressando sempre para o mesmo ponto
de interrogao:
         - Mas por que eu?
         (Agora que tudo passou,  a mesma pergunta que volta, impiedosa.)
         No sabia aonde aquilo ia chegar. Mas foi alguma coisa alm de curiosidade feminina que
me empurrou at o apartamento dele, no final da manh seguinte, quinta-feira, 10 de abril - foi
alguma coisa que no sei bem o que . Ele me esperava com naturalidade e aquela carinha de
menino indefeso. Cala creme social, de preguinhas. Sem camisa - trax rijo. Os ps descalos
deslizando pelo carpete alto, daqueles em que fica impossvel encontrar a tarracha de um brinco.
Tudo muito respeitoso: ele se sentou numa poltrona a uma distncia razovel - bem razovel, eu
me recordo - do sof de couro onde me instalei. Na sua mo, um copo de vitamina C
efervescente.
         Meu olhar de mulher passeou rapidamente pelo apartamento, que ele dividia com o
irmo, Lo - flat tpico de solteiro, mas com mveis de qualidade e um toque de muito bom
gosto na decorao.
         - E a?
         Ele se sentia to inibido quanto eu. Dava para cortar o ar com uma faca. Ele tomou a
tmida iniciativa de quebrar o gelo:
         - Muito prazer. Eu me chamo Ayrton Senna da Silva. Tenho 33 anos, no tenho
namorada...
         - Como no? Eu conheo sua namorada!
         A perplexidade dele parecia sincera:
         - Eu?
         - Voc, sim.
         - Mas quem  ela?
         - A Daniela (dei o nome completo).
         - Como ela , hein?
         Por uma frao de segundo, achei que estava diante de um cafajeste clssico. Descrevi:
loira, olho azul, alta...
         - Ento  esse o nome dela? Ah, os efeitos perversos da bebida. Logo eu que no bebo,
penitenciava-se ele. Mas de vez em quando acontece, de pura euforia. Ele foi enumerando: ao
final do GP do Japo, em 1990, quando se sagrou bicampeo do mundo, um porre dos diabos;
agora, naquelas comemoraes do GP do Brasil, dias atrs... Ele podia contar nos dedos as
situaes em que perdera o controle.
         Conversamos uma hora e meia. Em nenhum momento, eu enxergava naquele ser
humano descalo, que tomava vitamina C, o mitolgico personagem de macaco e capacete que
enfeitiava os fs do automobilismo do mundo inteiro. Para mim, era um momento especial e
imprevisto. Falamos de tudo. De corrida, um pouquinho. De vida, trabalho e sentimento, muito.
Eu queria saber dele, mas ele tambm queria saber de mim - e ouviu, com a maior pacincia. At
reparou na minha blusa, "linda" - rosashocking, de manga comprida, embora fizesse um calor
africano l fora. Voltou, enfim, ao assunto Angra: iam muitas pessoas, seria uma festa, nada de
formalidades.
         - No sou do tipo de arrancar pedao - brincou.
         Na verdade, eu j estava decidida. Deixara a mala, prontinha, prontinha, no meu carro.
Guardei o carro na garagem do prdio, entrei no Honda negro que eu tanto tinha invejado a
distncia, antes, e segui em frente. Naquele fim de semana prolongado, eu, Adriane Galisteu,
modelo, 19 aninhos, iria experimentar o doce prazer ambicionado por milhares e milhares de
mulheres de todo o planeta. O Ayrton Senna homem ia se apresentar, por inteiro, a mim. Numa
noite de cu estrelado, como recomendaria um conto de fadas.
         Tive quatro namorados em meus 21 anos. Sinto muito decepcionar aqueles que imaginam
a vida de modelo como uma fatigante liquidao de cama e mesa. Se h conselho que j posso dar
a algum, em minha pouca idade,  o de no se deixar levar pelas aparncias. Por exemplo: beleza
e glamour podem servir de fachada a uma inconsolvel solido.
         Quando conheci o Ayrton, estava vivendo os ltimos momentos de uma relao em crise.
No  voc quem determina quando a paixo se vai - a coisa simplesmente acontece. Tive poucos
amores, mas de cada um deles guardo um sentimento bom, de calor e respeito - e isso vale
especialmente para o Csar, com quem dividi por um ano inteiro casa e o dia-a-dia at que as tais
incompatibilidades de gnio se manifestaram. Foi bom enquanto durou. E foi timo que a vida
tenha me dado o alento de trocar os espinhos de uma separao pelo buqu de um novo amor
amor que, acontea o que vier a acontecer na minha vida, estar gravado como aqueles coraes
trespassados por setas que voc v nos troncos das rvores dos parques municipais.
         Angra, l vou eu. Pela primeira vez, eu saa de casa a passeio, no a trabalho. Na minha
confuso momentnea, embaralhava-se a crise conjugal com delrios profissionais - ir para Hong
Kong, por exemplo, de onde um amigo meu, tambm modelo, Srgio Finetto, me acenava com
perspectivas de um mercado em expanso. Dei at um passo concreto: indicada pela Elite, posei
para a Playboy. No Guaruj - uma marina e um barco maravilhosos. O cach pagaria a passagem
e os primeiros tempos de adaptao no Oriente. Cheguei a comentar com o Ayrton, a caminho
do heliporto. A reviravolta que aquela viagem nem bem iniciada produziria na minha vida
impediu que as fotos de Playboy fossem publicadas.
         O helicptero esperava por ns no heliporto do prdio de escritrios dos Senna, no
bairro de Santana. Como eu sinceramente queria desanuviar, na viagem, sem nenhuma outra
inteno alm disso, foi um alvio perceber que j esperavam por ns Norio Koike, um
incansvel japons freqentador do circo da Frmula 1 mas que acabou fotgrafo particular do
Ayrton, e duas meninas da Elite, duas outras Danielas, ou congneres - a Daniela Carvalho e a
Danielle Aguiar. Alvio para mim, choque para elas, que no esperavam me ver ali, chegando com
o dolo.
         Primeira viagem de helicptero, e logo com quem. Ele levava ao p da letra a palavra
piloto. Carro, helicptero, avio, lancha, jet-ski - tinha a mania de estar sempre no comando das
operaes. Norio, ao lado dele. Ns trs atrs.
         Eu, sem graa, me contorcendo para no roer as unhas de ansiedade e condenada a servir
de Cristo dele:
         - No se preocupe, no. Eu tive uma aulinha de direo antes de a gente vir pra c.
         Tentei me distrair dividindo minha ateno com a paisagem e minha curiosidade com o
Norio. Como modelo, eu estava acostumada a filmes e a equipamento fotogrfico, mas o japons
extrapolava. Pendurava-se de incontveis mquinas e lentes, pequenas, mdias, grandes, zooms,
teleobjetivas, grandes-angulares, etc. Carregava uma caixa com quinhentos filmes - isso mesmo,
quinhentos. Fiquei sabendo que, com aquela desconfiana que tinha da imprensa, Ayrton s se
deixava fotografar pelo Norio.
        Sob o sol magnfico de Angra, um oriental da cor do tomate era visto, clique, clique,
perseguindo, empapado de suor, o seu cobiado alvo. Depois, revelava pessoalmente os filmes,
colocava cromo por cromo nas cartelas e destinava todo o material ao patro - o qual, minucioso,
cauteloso com sua imagem, selecionava dali meia dzia de fotos, nunca mais do que isso. Norio
tinha no sangue aquela elegante discrio que caracteriza sua gente. S falava ingls - pouco e,
penso eu, propositalmente mal. Tenho certeza de que ele entendia tudo o que ns dizamos em
portugus. De vez em quando, eu surpreendia um brilho maroto em seus olhinhos vivos e
inteligentes. Ele tratava de despistar.
        Ali no helicptero, entre nervosa e ansiosa, observando o japons Norio, eu comeava a
tomar contato com uma parte importante da vida de Ayrton Senna: aquele clubinho fechado, o
Clube dos Amigos do Bco. Uma dezena de pessoas, por a, que tinha acesso  resguardada senha
dessa intimidade: o apelido de famlia. Gente como o Gordinho, que eu tinha conhecido na pista,
o Cristiano, o Jnior, companheiros de rua da Zona Norte de So Paulo.
        Aquela coisa: diga com quem andas e eu te direi quem s. Se aqueles dias em Angra foram
a chance de conhecer a intimidade do maravilhoso ser humano Ayrton Senna, muito desse
conhecimento foi revelado pelo contato travado com os amigos dele. Pois a vitria do GP do
Brasil abriu a temporada de festas. Maria e Mateus, os encantadores caseiros, paixo do Bco (que
eu acabaria por assumir tambm como minha paixo), estavam eufricos. Mas recepo
barulhenta mesmo, com direito a muito rabinho balanado e pulinhos de alegria, quem propiciou
ao helicptero foi a Quinda. Alegria logo transformada em agressiva ciumeira, ao notar que seu
heri chegava acompanhado de trs mocinhas bonitinhas:
        - Liga no - tranqilizou o piloto, enquanto descia o helicptero sobre o gramado daquele
condomnio na praia de Portogallo. - Ela  muito possessiva.
        Despudorada, a Quinda se jogou nos braos do Bco. Agarrei minha mala e fui me
refugiar dentro de casa, deixando atrs de mim o som de rosnados ameaadores. Pensei comigo
mesma:
        - Concorrer com essa a, no vai ser fcil.
        Quem no conhece Angra num dia de sol no tem idia o que  a experincia mais
prxima do paraso na Terra. Bco e eu teramos, mais tarde, a oportunidade de uma inesquecvel
viagem a Bora-Bora, com clima de lua-de-mel e cenografia pintada pelo Gauguin, mas Angra
continuar tendo a precedncia sobre todos os lugares no meu lbum ntimo.
        Em noites atribuladas, reproduzo mentalmente a arquitetura sbria do casaro, o barulho
das ondas que vinham morrer aos ps de nossa janela, a exploso das estrelas no cu, as
gargalhadas dos convidados, o ronco dos motores dos jet-skis e das lanchas, o vo nervoso do
helicptero, os latidos apaixonados da Quinda - e, na contraluz do luar que banhava nosso ninho
de amor, aquele rosto esculpido por um artista, as feies delicadas, os olhos midos de carinho,
a boca sempre ameaando um sorriso lindamente tmido ou, sei l, timidamente lindo.
        Ele recrutou todos os elementos, e mais alguns, para compor o cenrio de nossa primeira
noite de amor - que, na verdade, foi a ltima noite de todas as que passei naquele meu
maravilhoso fim de semana em Angra. Sou capaz de jurar que Bco chamou os grilos,
encomendou o pio das aves noturnas, solicitou a presena das ondas, convidou a Lua e todas as
estrelas do zodaco para servirem de testemunha daquele momento mgico. Orquestra e
iluminao, som e luz - a natureza de Angra, em festa, colheu os primeiros sussurros de dois
enamorados.
        No estava nos meus planos, mas aconteceu, na pureza de um encontro no programado.
Senti,  claro, que ele me dedicou, desde nossa chegada, as suas melhores atenes. Eu o
observava. Vi que ele tambm me observava. Nem bem tnhamos chegado, mal refeitos de um
almoo principesco - a portuguesa Maria  uma cozinheira de mo cheia -, ele foi me buscar na
praia onde eu tinha esticado minha canga para tomar sol, a uma estratgica distncia da indcil e
ainda rancorosa Quinda - uma schnauzer preta fantica por calcanhares e que, soube depois,
deixara uma irm, a Mouse, na casa em que nasceu, no Algarve, em Portugal. Ayrton tomou-me
pelas mos e me convidou para o mar.
        - Acabei de comer - hesitei.
        Sempre ouvi histrias ttricas de congesto, essas coisas. Ele me gozou:
        - Est com medo de morrer, ?
        - Sei l.
        Sem prestar muita ateno, foi l dentro buscar um enorme colcho de ar, to grande que
cabiam nele as duas Danielas, ele, eu - e a Quinda. Todos para o mar. Mas, desconfiada de ter
como companheira de viagem a melindrada cachorrinha, eu no tirei os olhos dela. De repente,
sinto um safano e caio n'gua, tchbum. Meus olhos abrem-se, aps o mergulho sem querer,
sobre duas expresses de genuna felicidade: a da Quinda, que abana o rabo, radiante em sua
silenciosa vingana, e a do meu anfitrio, que gargalha:
        - Morreu? No morreu.
        E, de repente, tambm se joga:
        - Vou morrer com voc!
        Da praia, Norio disparava seus cliques incansveis. Uma multido aportou por l,  noite.
Gente para ficar, gente s de passagem. O proverbial estilo recatado de Ayrton no economizava
gentileza quando se tratava de receber os amigos. O QG da animao era o salo de jogos, que
ficava num plano um pouco mais alto em relao ao casaro principal. Sinuca, pebolim, pingue-
pongue, um telo magnfico, com videolaser, sofs to aconchegantes como colo de me, mesas
para a gente escorar o p - muito conforto numa atmosfera de descontrao praiana. Eu cheguei
num vestidinho branco, tnis branco, cabelo molhado do banho, cara limpa. Estava queimada de
sol. Estava feliz e me sentia bonita. Fazia tempo que eu no me dava o direito de viver
impunemente, de um jeito to leve, to gostoso, esse sentimento.
        - Voc toma o qu? - ele se achegou, gentil. - No bebo nada. Coca-Cola, talvez.
        - Eu a acompanho.
        No s na bebida. Foi me conduzindo pelo salo, apresentando-me um a um de seus
amigos. "Meu irmo, Leonardo" - e ele me estendeu a mo. "Esse aqui  o Jaa" - e eu, meio sem
graa, "j conheo". Galera animadinha, divertida. Jogamos pebolim, eu e ele. Vi que no era
meu esporte. Ele se divertia  minha custa. Vamos danar, vamos danar. Danamos. Horas a fio.
Carinho nos gestos e nas palavras. Beijinho de tchau. At amanh.
        Tnhamos um passeio de lancha programado para o Saco do Cu. gua calma, cu azul,
montanha verde - s de olhar e de sentir voc j  abenoado pelo criador dessas maravilhas.
Ayrton, todo speedy. Desamarra a lancha, entra na lancha, acelera a lancha. A, pra. Mergulha.
Volta  lancha. Desembarca o jet-ski. Monta no jet-ski. Acelera o jetski. Some na linha do
horizonte, ou atrs de uma ilha prxima. Regressa a mil por hora. Convida-me para uma volta:
        - Quer pilotar?
        - No, no sou do ramo.
        Ele dirige, eu sinto o contato do corpo dele. Piloto, ele . Acelera o jet-ski, faz uma curva
fechada e levanta na crista do mar uma onda inesperada. Medrosa, eu:
        - Vai devagar, por favor!
        Intil apelo, quando voc est falando com um Ayrton Senna.
        O tempo ali no significava jamais um desperdcio - era uma soma. Sol, mar, carinho. Eu
senti que a cada minuto a temperatura entre ns crescia. Entre ns, quer dizer: confesso que
tambm comeava a gostar daquilo. Desceu a noite, comemos rapidamente e mais um sarau de
dana, vdeo e jogos ia comear. Eu, toda relax, me vi sentada num sof, tomando a invarivel
Coca-Cola e vendo e ouvindo o Genesis no telo. O Genesis era uma das bandas favoritas dele; a
Coca-Cola era o meu hit do corao. Ele acabaria por me converter, mais tarde, ao credo musical
dele; eu no consegui convert-lo a minha bebidinha.
         (Naquela poca, eu era do tipo connaisseur. Degustava Coca-Cola como se fosse um
vinho raro e precioso, ao natural, s vezes sem gelo, para no comprometer o paladar. Coca coca,
coca clssica - nada de diet, essas coisas. No almoo, um litro;  noite, outro; e mais uma latinha
aqui, no lanche, outra antes de deitar... Ele conseguiu curar essa minha obsesso. Um dia, me
perguntou, meio enciumado: " disso que voc mais gosta na vida, no ?" Eu lhe confessei que
tinha outra coisa da qual eu gostava mais. E desde ento passei a cham-lo de Big Coke.)
         Eu ali, com minha Coca-Cola, e ele se achegando. "Gosto muito do Genesis" - como
quem puxa conversa. Em tudo da vida, em msica tambm, ele gostava de umas poucas coisas.
Mas de todo corao. Genesis, Phil Collins, Roxette, Tina Turner, Fred Mercury. "E voc?" -
perguntou. Eu estava embevecida com o telo e com a msica.
         Nunca tinha visto um videolaser. "Bonito, bonito", repetia eu, meio idiota. Muitos dos
convidados estavam fora da sala - ou passeando, ou na piscina -, o que permitia uma certa
intimidade, com aquela msica ao fundo.
           Ele se sentou a meu lado. Um brilho iluminava seu rosto bronzeado e seu sorriso
adolescente. Senti pela primeira vez o calor de uma aproximao - real, espontnea. Ele tinha a
bvia dificuldade em dar o primeiro passo. Eu, mesmo querendo muito, nunca dou o primeiro
passo. Mas entre ns havia algo mais: uma conversa longa, um olhar, um toque. Ele tentou me
beijar. Eu me esquivei - bateu na trave. Fomos salvos, os dois, em nossa timidez, pela chegada da
galera ruidosa e alvoroada.
         - E a, Nono, vamos jogar?
         Era o Criminoso, azucrinando.
         Escapei para o banheiro, mas ouvi, atravs da porta, uma conversa do Gordinho com o
Ayrton:
         - Nada?
         - Nada - a entonao do Ayrton era chocha.
         - Mas voc no pode se queixar. Sua agenda est lotada, no est?
         Antes que eu ouvisse a resposta dele, abri a porta e passei entre os dois. Um sinal de alerta
piscou na minha cabea: tudo contra, nada a favor. Afinal, ele era o Ayrton Senna. E quem era
eu?
         Ainda com um sorriso amarelo, ele me seguiu. No esperou que eu me sentasse de novo.
De p, ele me beijou. O primeiro beijo. Um beijo de verdade. E mais um, outro, outro mais.
Beijos, beijos e beijos. Parece que a noite estacionara em cima de nossas cabeas - tudo parou: a
noite, o tempo, os rudos, o mar, o vento. Beijos e carcias. No mais do que isso. "Fique sabendo
que isso, para mim,  muito srio", interrompi. "Pra mim tambm", disse ele. Os convidados e o
sono puseram um ponto final no nosso primeiro momento de paixo explcita.
         Constrangimento absoluto na manh seguinte - constrangimento e dvida. Aquela
histria de agenda lotada me incomodava. No estava a fim de ser apenas mais uma aventura de
vero. L mesmo, ele tinha outras meninas disponveis, pensei comigo. Tomei uma distncia
proposital. Juntei-me  moada. Mas no tinha como no observ-lo, de esguelha. E, toda vez
que eu olhava, l estavam os olhos dele, mais meigos do que gulosos, cravados em mim.
         Desconcertada, eu no sabia nem como me dirigir a ele. Ayrton? Soava estranho, nenhum
de seus amigos o chamava assim (minha me, quando me chamava de "Adriane"  porque vinha
bronca certa). Senna? Institucional demais. Senna era o piloto campeo, no aquele menino lindo
que pouco a pouco se revelava para mim. Bco? Era o apelido da famlia, dos amigos de infncia.
Eu ainda no me sentia assim to ntima. Ficou meio ridculo, mas o que fiz, aquele dia, e
continuei fazendo, nos seguintes, era ir at ele e pux-lo pela camisa, ou pelo brao, assim sem
jeito:
         - , olha aqui...
         O sol e o calor nos brindaram, naquele sbado, com um dia apotetico, desses
recomendados a coraes de repente enamorados. O que me lembro dele so imagens, gestos,
sons que nem sempre se encaixam coerentemente. Vejo-o ainda agora acelerando a lancha Joanna
II (comprada, como a casa de Angra, do Braguinha, que a batizou com o nome de uma de suas
filhas, hoje minha amiga), com Tina Turner esgoelando furiosamente no toca-fitas, enquanto a
Quinda, esbaforida, tenta estabelecer, com seus latidos, uma competio. Cabelos ao vento, sol
de rachar, cu sem uma nica nuvem. Um dia de encomenda - aquele que seria o meu ltimo dia
ali. Domingo - j tinha avisado a todos - eu teria de embarcar de volta para So Paulo, onde um
compromisso profissional me esperava.
         Eu passava por um perodo de grande confuso na minha vida. Aquele dia magnfico em
Angra, o sol, o mar, o cenrio, as pessoas, tudo aquilo me fazia esquecer passado, presente,
futuro. Vivia o momento - era o que importava. Escorrendo de suor, branquelo que s ele, de
short e carregado de mquinas, Norio fotografava sem parar. Ouvi um clique quando, no final da
tarde, na lancha, voltando do Saco do Cu, Ayrton me surpreendeu com uma prolongada carcia
no cabelo - e, logo, um beijo.  possvel que, sensvel que , Norio tenha retratado tambm a
felicidade que minha alma buscava inutilmente esconder.
         A temida Quinda nos esperava no per, abanando o rabo. Aproximou-se de mim, quase
rebolando, e lambeu minha mo, carinhosa. Foi a primeira a entender.
         Sabe quando ele arriscava tudo, numa daquelas ultrapassagens impossveis? Pois foi assim
comigo:
         - Voc est num quarto sozinha, com duas camas - comeou. - Vou ter de mud-la.
         Despistei:
         - Tudo bem, durmo na sala.
         - Probleminha: a sala tambm est ocupada - continuou. - Alis, no sei se  um problema
ou uma soluo.
         - Onde  que eu fico? - me fiz de boba.
         - Eu lhe mostro.
         Subiu comigo at meu quarto - eu envergonhadssima daquela baguna de praia, roupa
jogada aqui e ali - e pegou as malas. Abriu uma porta e apresentou:
         -  o meu quarto. Agora tambm  o seu. Fique  vontade.
         Tentei prestar ateno em alguma coisa, alm da minha prpria estranheza, e me detive
no closet, onde brilhavam, branquinhos, uns quarenta, cinqenta pares de tnis. Sapatos. Cintos -
centenas. E roupa, muita roupa. Arrumadinha, passadinha, dobradinha. Ele tinha o suficiente
para morar naquela casa o ano inteiro.
         - Sou meio manaco - disse ele, sem graa diante do meu espanto.
         Reparei at num duende, pousado numa mesinha. Eu o peguei e observei. Fantico por
arrumao, ele me tomou das mos e o colocou no lugar (tempos depois, a me dele me pediu
para jogar fora o duende; joguei; sei l, talvez no devesse ter jogado).
         - Tambm tenho minhas manias - disse eu.
         - Quais?
         - Cremes e perfumes.
         - Pois ento venha c ver uma coisa - ele me puxou pela mo at o seu banheiro.
         S em Angra, ele tinha mais creminhos e perfumes que eu jamais tinha tido em toda a
minha vida. Bom, pelo menos j havia entre ns alguma coisa em comum, alm do Genesis e da
Quinda. Dali a poucas horas, estaramos repartindo algo muito mais importante.
         O amor fluiu natural - sem pressa, gostoso e espontneo. Sem falso moralismo: dormir no
quarto dele no significava, para mim, obrigatoriamente, uma noite de sexo e intimidade. Havia
um clima, uma aproximao, um desejo. Mas eu teria pudor de embarcar numa aventura pela
aventura - e, no dia seguinte, literalmente, tchau e at mais. Dormir com um mito, um dolo, uma
celebridade internacional. Um homem que produzia manchetes no mundo inteiro. De mais a
mais, eu tinha adorado aquele paraso e queria voltar l, namorada ou amiga, o que fosse.
         Televiso ligada. Eu, metida num pijamo quase blindado. Cama king-size - chance de
rolar para o lado, em fuga estratgica. Beijinhos, carinhos, "at amanh". No tive tempo de
contar at cinco - com aquele meu sono juvenil, despenquei. Sei l quanto tempo depois - a vaga
recordao de uma claridade me vem aos olhos -, levei um cutuco.
         - No estou entendendo nada - disse ele, acendendo a luz e se apoiando no travesseiro. -
O que voc quer? Quer casar comigo? Tem uma igrejinha aqui na praia da Jipia,  s juntar as
testemunhas e ir l.
         Continuou a falar: a dizer que era tudo muito especial, que existia uma magia entre ns,
que isso no era sentimento que ele tivesse assim, assim, em qualquer momento, que ele, por
muitas razes, tinha sido uma muralha emocional, mas que eu, em apenas dois dias, tinha feito
um furo nessa muralha.
         Falava e acariciava o meu p.
         - Ah, o p no! - eu pensava. Chegou ao ponto fraco, ao calcanhar-de-aquiles.
         De repente, me beijou os ps, com enorme delicadeza.
         - Voc  a primeira mulher, de trs anos pra c, que me provoca esse desejo. De beijar os
ps, no s. De beijar o corpo inteiro.
         Queria guardar esse momento s para mim - e para ele. As estrelas piscavam, em quente
cumplicidade. Quando acordei, j sol alto, depois que tudo aconteceu, eu estiquei meu brao para
o lado, tateando onde ele deveria estar, e no havia ningum. Pnico. Parania do tipo "t vendo?
Ele j se encheu". Corri  procura dele. Descobri-o no per, sem camisa, descalo, olhando para o
infinito, assobiando uns acordezinhos que nem chegavam a compor uma msica. Um tralal, s
isso. Ele parecia feliz. Eu estava feliz, imensamente feliz.
         Sa dali, no comeo da tarde, no helicptero dele at o aeroporto de Angra. De l, peguei
o avio. Tinha um desfile em So Paulo. No importava o que aconteceria a partir dali. Importava
o que tinha acontecido.
         Angra passou a ser minha casa - nossa casa. Compartilhei com ele vrios lares. Moramos
juntos no apartamento da Rua Paraguai, em So Paulo. Dividimos, certas noites, quarto e cama
na casa dos pais dele, no Pacaembu, onde a Zaza me acolhia como uma filha e dava colo a muitas
das minhas ingnuas confidncias de menina de 20 anos. Estivemos juntos no apartamento de
Mnaco, antes do GP de 1993. Viajamos pela Europa e pelo Oriente. Freqentamos por longos
perodos a fazenda Dois Lagos, em Tatu, no interior de So Paulo, com toda a famlia, senhor
Milton, a Zaza - ela j no me perdoaria a formalidade de um "dona Neide" -, o Leozinho, a
Viviane, o marido dela, Lalli, os sobrinhos Bia, Paulinha e Bruno, o Fbio Machado, primo como
se fosse um irmo, com a mulher, Nice, e os filhos Fbio, Fabiana e Fbia. Em Portugal, vivemos
na casa do Algarve assim como passamos momentos inesquecveis nesta quinta de Sintra,
neste anexo que passar  posteridade como "Casa do Ayrton" - aqui onde hoje cada detalhe me
d conta de sua ausncia, no silncio de nosso quarto fechado, isso mesmo, trancado a sete
chaves, j que eu, covarde, nunca mais quis olhar o cenrio de to doloridas recordaes.
         Confesso: dia desses, entrei, no por valentia e sim por pura emoo. Na noite da final da
Copa, o Brasil vencendo mas nos fazendo sofrer at o ltimo momento naquela agonia dos
pnaltis. Uma amiga me trouxe um vdeo em que os craques brasileiros dedicavam a vitria ao
Ayrton. Cumpriram com a palavra. Abri a porta e desabei num choro incontrolvel. Era o melhor
lugar para comemorar um tetracampeonato que, afinal, era tambm dele.
         Ayrton era um cigano caseiro. Pode parecer uma contradio, mas digo cigano por ofcio,
caseiro por opo. Obrigado a ser cigano pela vida profissional, no perdia o hbito de ser
metdico, deixando  mo, em cada lugar onde pousava, suas roupas arrumadinhas, seus pares de
tnis, suas camisas impecveis, seus cintos - centenas de cintos -, suas restritas predilees
musicais, seus hbitos alimentares, suas manias.
         Mas se algum pede para eu contar qual era a nossa casa, o nosso lugar, o que me vem
automaticamente  cabea  aquele deck de Angra, a varanda, a piscina, os jet-skis (eram seis,
pelas minhas contas), a zoeira dos camaradas, as visitas dos amigos, as confidncias com minha
amiga Maria, as caminhadas com a Xana, filha dela, a comida deslumbrante que punha em risco
meu regime, a simpatia e o cuidado extremo do Mateus, arteso de mo cheia, as duas lanchas, o
sol, o calor, a impenitente Quinda mergulhando na gua atrs de algum desavisado que se
aproximasse, o pr-do-sol de aquarela, a Lua, as estrelas, a mais perfeita configurao do paraso.
        Angra, sim - porque era ali que eu tinha um Bco s meu, a milhas e milhas de distncia
da instituio mitolgica Ayrton Senna da Silva. Sem egosmo: era ali tambm que ele se tinha s
para si mesmo, homem, amigo, moleque, palhao, inquieto, preguioso, esperto, bobo, frgil, mas
forte naquilo em que era verdadeiramente fundamental para um ser humano ser forte. Imaginem
um tricampeo do mundo, reverenciado como um semideus, descendo para o caf da manh
com aquela cara amarfanhada de sono, s de calo e chinelo, sem camisa, barba por fazer,
brigando com o amigo que lhe rouba a torrada com requeijo, ou, depois, no almoo, com o
cotovelo esquerdo apoiado na mesa enquanto a mo direita, armada de um garfo e operando
como se fosse uma p, escavava um prato de talharim com muito molho de tomate - al dente,
exigia ele. Ele era, tambm na hora de comer, o rei da massa.
        - O Nuno manda comer pasta, para recuperar energia - tentava desculpar ele a sua
voracidade, convocando o distante testemunho de seu histrico amigo e preparador fsico.
        (Fiquei sabendo que, de fato, um piloto como ele perde de trs a quatro quilos numa
prova. Tagliatelle nele!)
        Angra era isso: ele brincando, ele rindo, ele correndo, ele danando, ele jogando, ele
ouvindo msica, ele amando - ele, todo sentimento, afetuoso, relax, terno, brando, to  vontade
que conseguia at dormir um sono juvenil, com uma aurola de paz emoldurando seu rosto, coisa
impensvel nos dias em que vestia o macaco do Senna piloto ou nos ambientes em que botava, a
contragosto, o figurino do Senna businessman.
        Um refgio, um exlio - de repente, ele me catava em So Paulo, acionava as hlices do
helicptero e l amos ns, a ss, para uma escapadela que podia durar apenas um dia, ou mesmo
algumas horas. A magia do paraso soprava para longe quando a presso das provas, dos
resultados e das decepes subia o termmetro de nossa ansiedade. Angra tinha um poder
curativo sobre ele. Angra, grau zero de adrenalina.
        Numa dessas fugas estratgicas, a dois, fomos de jet ski at a praia dos Macacos.
Caminhamos de mos dadas, acobertados pela natureza selvagem. Foi sempre assim o nosso
amor: algumas palavras essenciais e muito silncio. Os gestos, os toques, os olhares tinham a
equivalncia carinhosa de um dicionrio de verbetes romnticos. Ele continuou a caminhar,
enquanto eu me esticava numa canga preta, com estampas de Bali. Ele parou e veio deitar-se a
meu lado. Espremidinhos naquele pedao de pano, sem trocar palavras, adormecemos. Se algum
passasse por perto no haveria de acreditar que um sono plcido embalava, numa tarde de sol, o
tricampeo de velocidade - um homem sobressaltado pela obrigao do desempenho e da vitria.
Ele dormiu, eu dormi - duas, trs horas. Quando despertamos, Vnus j brilhava e a noite
comeava a dominar o cu.
        Ele abriu o olho:
        - Viajei... Voc me fez viajar, com seu peso-pena em cima de mim.
        Pode haver imagem mais bonita para guardar na memria? Dias atrs, fui  praia no
Estoril, com minha me. Levei comigo, por acaso, a canga indonsia. No tive coragem de estic-
la na areia. Enrolei-a como se fosse um travesseiro, recostei minha cabea e torci, de olhos
fechados, para que o sono viesse - trazendo de volta aquele momento encantado de Angra, a
esperana de que a realidade fosse o pesadelo e que o sonho virasse verdade. Em vo. Chorei.
Minha me chorou comigo.
        Houve outra vez em que ele me mostrou um poema em forma de orao, guardado,
dobradinho, na sua carteira. Tinha o ttulo Pegadas na Areia. E tinha uma histria. Contou que
passava por um momento difcil da vida - pessoal, emocional, profissional. Estava em Angra e
saiu sozinho para correr numa praia deserta, pilotando o helicptero. Sozinho, no - a Quinda o
acompanhava. Desceram, ele calou o tnis e foi correr. Quinda, discretssima, ficou sentada na
areia, observando o mar. O silncio era absoluto - ele s ouvia os seus prprios passos no piso
duro da praia. Foi correndo at o canto da praia e voltou. Viu as marcas de seus ps na areia -
nada mais do que aquilo indicava a presena de algum tipo de vida naquela imensido. Foi um
momento mgico - de revelao. Ele refletiu sobre sua solido. Ela lhe doa no peito, lhe parecia
enorme. Mas, pensou, aquelas suas pegadas na praia eram uma migalha na amplido do universo.
Ele se sentiu vivo, e minsculo, diante do mistrio da criao. Levantou vo no helicptero e
ficou sobrevoando a trilha na areia.
        Infinitas so as maneiras de Deus se revelar aos homens. Para o Bco, bastaram umas
marcas de areia, num dia de sol, na vasta solido de Angra dos Reis.

        PEGADAS NA AREIA
        Uma noite eu tive um sonho...
        Sonhei que estava na praia com o Senhor e, atravs do cu, passavam cenas da minha
vida! Para cada cena que passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia.
        Quando a ltima cena da minha vida passou diante de ns, olhei para trs, para as
pegadas na areia, e notei que, muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de
pegadas na areia. Notei, tambm, que isso aconteceu nos momentos mais difceis e angustiantes
da minha vida.
        Isso aborreceu-me, deveras. Perguntei, ento, ao Senhor.
        "Senhor, tu me disseste que, uma vez que eu resolvi te seguir, tu andarias sempre comigo,
todo o caminho, mas notei que, durante as maiores tribulaes do meu viver, havia, na areia dos
caminhos da minha vida, apenas um par de pegadas. No compreendo por que, nas horas em que
eu mais precisava de ti, tu me deixaste ".
        O Senhor me respondeu:
        "Meu precioso filho: eu te amo e jamais te deixaria nas horas de tua prova e do teu
sofrimento! Quando viste na areia apenas um par de pegadas, foi exatamente a que eu te
carreguei nos braos".

        Ao deixar Angra, naquele domingo de vero e do primeiro encontro, minha alma era um
gro de areia. Depois daqueles quatro dias de idlio, ia voltar a minha praia. Trampo duro. Duas
da tarde, desfile da griffe Australian Downsound, no AeroAnta - que eu tinha de coordenar.
Estilo som reggae, moada parafinada, meninas de penugens douradas nas pernas, cales
rasgadinhos de lado, camisetas estampadas, pranchas que sonhavam com os tubos do Hawaii
(pronunciava-se, na tribo, Rauai). At o dia em que voei para Angra, essa era, de certo modo, a
minha tribo. Agora que eu voava de volta, sentia que no pertencia mais a ela.
        Os quarenta e pouco minutos de viagem no King Air dele, um avio azul e branco que
ficava permanentemente estacionado no aeroporto de Angra, me pareceram milhares de horas.
Olhava da janela, aflita:
        - Ser que verei isso de novo? Numa traduo mais verdadeira: - Ser que verei ele de
novo?
        A tal histria da agenda lotada me atormentava. Mas outros pensamentos vinham em meu
socorro, esperanosos, e eu me apegava a eles: a insistncia dele para que eu ficasse at quarta-
feira; os momentos de carinho vividos intensamente; ele me levando de helicptero at o
aeroporto e se despedindo com um prolongado beijo. As certezas brigavam, porm, com as
dvidas e eu me debatia com aquele burocrtico "a gente se v" que ele me disse, como
despedida. "A gente se v", eu remoa. "Ele no teria uma frase menos bvia para dizer?" O avio
rompia a serra do Mar e eu j no olhava para nada, tomada pelo pnico de ter vivido apenas o
sonho de uma noite de vero. Mas, a, me lembrava daquela tarde em que ele me seqestrou para
um passeio de jet-ski e foi se distanciando de todos, da lancha, dos convidados, at que a gente
aportou numa praia deserta e ele, depois de me roubar um beijo, avanou:
        - Tem duas coisas que eu ainda quero na vida. Uma delas  fazer amor na praia. A outra...
(pensei assim: correr na Ferrari, ser dono de uma escuderia, morar em Portugal) ...a outra -
continuou ele -  fazer amor na praia com voc.
         No rolou naquele dia. Mas, se eram as duas coisas que queria mesmo fazer na vida, ns
as realizamos juntos.
         No me arrependo de nada que fiz. Arrependo-me de coisas que no fiz. Como no ter
me jogado ao pescoo dele, depois da primeira madrugada de amor, cobrir seu rosto de beijos e
dizer, com todas as letras, o que se passava no meu corao:
         - Voc me acendeu. Voc  o homem da minha vida. Por pudor, por medo do ridculo,
receosa de desmoronar o encanto, eu me contive. Mas nem preciso dizer como So Paulo e o
trabalho me encontraram. A cabea era uma massaroca. "Se eu pudesse voltar atrs, no faria de
novo" - era a culpa que chegava. "Foi lindo, por que me culpar?" - eu me absolvia no tribunal de
minha conscincia. Felizmente, tenho uma pessoa de absoluta confiana, a quem nunca tive
vergonha de consultar sobre meus segredos, todos eles. Liguei para minha me - isso mesmo,
minha me, scia de todas as agruras e felicidades de minha vida, desde sempre, desde criancinha.
Ela quase teve um chilique. Perguntei:
         - Ele vai me ligar?
         - Vai, minha filha. Vai.
         A voz dela, ainda que surpresa, no era de quem consolava uma filha ansiosa e confusa.
Era a voz do conhecimento e da razo.
         Passei a segunda-feira em planto telefnico. Nada. Corri para pedir colo a minha me.
Ela insistiu: "Vai telefonar". Tera-feira - espera.
         Telefonou. Meio tmido:
         - Perdeu um festo.
         - Ah, ? - eu, travadona.
         - Tem mais: voc esqueceu seu relgio. Pensei comigo: Freud explica.
         - Aqui pra ns, relgio horrvel, hein? Pesado, meio masculino... Achei que era de algum
amigo meu - provocou.
         Modelito surfista: relgio de mergulho. Mas eu gostava. Sugeri que ele entregasse para a
dupla Daniela-Danielle, com quem eu acabaria me encontrando na agncia. Encontrei-as, na
quarta-feira, mas nada de relgio.
         - Ele quer entregar pessoalmente - disseram as duas. - E olha, no falou de outra coisa a
no ser de voc.
         Tive que me conter para no sair, em plena Elite, dando socos no ar, como um jogador
de futebol aps o gol. Mas meus olhos devem ter me denunciado quando elas contaram a reao
dele, quando o Gordinho sacaneou:
         - Voc ficou amarrado na loura, cara! Eu tambm.
         Ayrton fechou a cara:
         - No brinca com isso, no.
         Meu entusiasmo me fez jogar para o alto todos os compromissos do dia. Sa para
comprar roupa - queria ficar bonitinha para ele. Corri para o colo da mame - para saborear com
ela as novidades. Voltei para casa, irrequieta - e o telefone tocou, com um convite: jantar com
ele, aquela noite, para poder me devolver o que eu tinha esquecido. Lembro-me de ter devorado,
heresia suprema para uma modelo, um beirute daqueles gigantes do Frevinho. Fast food, sei l
quais eram as intenes dele. As minhas eram claras: s pensava em estar ao lado dele. Levou-me
logo para sua casa. Papo vai, papo vem, queria porque queria que eu passasse a noite l. No
fiquei. Ele relutou, mas compreendeu. No escondi dele um detalhe da minha vida pessoal - fao
questo de ser leal em tudo, em termos de relacionamento. Mas uma urgncia me pressionava.
Com ou sem Ayrton Senna (essa mstica ainda me apavorava), era hora de pr um ponto final
nos dramas e vaivns do meu passado amoroso.
         Fiz minha trouxa e comecei a me mudar - gradualmente, de forma a no produzir feridas
e mgoas, mas com convico, a cada momento que se seguia a uma daquelas tpicas discusses
que no levam a nada. Estiquei um colcho na casa de minha madrinha - ela e meu tio me
acolheram com enorme carinho. Para agravar, os imprevistos externos: notinhas da imprensa,
falando da "amiga secreta de Ayrton Senna" e ilustradas com fotos de Angra.
        Fomos ns, meninas da Elite, distribuir ovinhos de Pscoa na Avenida Paulista, uma
promoo pr-Pscoa da Amor aos Pedaos. Fotgrafos e reprteres nos cercam. De repente,
uma jornalista mais atilada d o alarme:
        - Mas voc no  a namorada do Ayrton?
        No dia seguinte, esta coelhinha que vos fala estava na primeira pgina de todos os jornais.
Fato consumado, captulo novo na histria de minha vida.
         Pra os jornais, eu era a nova "loira misteriosa" na vida de Ayrton Senna. No tinha a
menor idia do que vinha a ser diferencial e achava que suspenso era quando o diretor da escola
proibia um aluno mais atrevidinho de assistir s aulas por alguns dias. Mas me importava saber
daquela adorvel criana de 33 anos que, ao me ver lev-la at a escada do avio, para a viagem
at Donington, o GP da Inglaterra, a ser disputado no domingo seguinte, ainda tinha olhos para
meu vestido branco, de flores pretas:
        - Nossa, como voc est bonita! - ele me cortejou, antes do beijo de despedida.
        Eu no me ligava no s das pistas - perdo, no tinha me ligado at aquele dia. Pois, no
domingo de Pscoa, 11 de abril, eis-me colada na telinha, unindo minha torcida  da minha av
fanzoca, roendo as unhas, chutando a mesinha de centro - e, depois, festejando aos berros, com o
Brasil inteiro, a vitria do meu Ayrton, depois de arriscadssimas ultrapassagens na chuva. Senti
que era o Bco, no pdio, brincalho como nunca, abraando aquele que eu descobri semanas
depois ser o J Ramirez, chefe da escuderia McLaren, dando um banho de champanhe no
Giorgio Ascanelli, engenheiro-projetista, que seria rival no ano seguinte mas no deixou de ser
amigo at os ltimos dias. Cheguei a pensar, com egosmo:
        - Quem sabe eu no tenho a ver tambm com um pouco da felicidade dele?
        Giorgio Ascanelli era o irmo de Senna no mundo da graxa e dos parafusos. Tinham uma
enorme confiana recproca. Com ele cometi uma gafe enorme. s vsperas do GP da Austrlia,
o ltimo da temporada 1993, fomos jantar - Bco, ele e eu. Restaurante italiano, clima
mediterrneo. Bco foi gentil:
        - Voc prefere que a gente fale ingls ou italiano? - Ingls, disse eu.
        - Mas voc s sabe "I am". Italiano voc adivinha. Ayrton falava um italiano perfeito e a
conversa fluiu, enquanto eu saa na captura de uns raros sons que me botassem dentro da
conversa. Mas era uma conversa tcnica e eu desencanei. Percebi a repetio da palavra
"Domenica", "Domenica", e arrisquei:
        - Domenica  a sua mulher, Giorgio?
        Giorgio gargalhou, Ayrton coou a cabea. Mas eu no deixei cair:
        - T vendo? Se fosse em ingls, eu saberia que sunday  domingo e no sorvete.
        O domingo seguinte ao do encontro em Angra, 18 de abril, seria meu aniversrio, 20
anos, data redonda. No tinha a menor idia de onde andaria, naquela dia, o homem que
preenchia os meus pensamentos, os meus minutos, os meus sonhos. Mas, naquela mesma noite
do GP da Inglaterra, uma voz triunfante me encontrava na casa de minha me:
        - Gostou?
        - Maravilha - respondi, surpresa.
        - Estou ligando para desejar boa Pscoa.
        Se at aquele momento eu no sabia se a vitria dele tinha a ver comigo, agora no podia
duvidar. Eu me soltei: - Estou morrendo de saudade.
        - Volto amanh pra v-la. Tambm estou com muita saudade.
        Dia seguinte da corrida, final da tarde, nova ligao:
        - Desculpa, no deu para ir.
        S pensava no domingo, no meu aniversrio, mas no quis adiantar nenhuma pergunta:
        - Pena...
        Silncio do outro lado da linha. E uma gargalhada:
        - Sua boba. Estou aqui no escritrio. Trabalhando. Mas com uma enorme vontade de v-
la. Vamos para Angra amanh?
        Meu primeiro contato com o clssico conflito entre prazer e dever. Tinha uma vida
profissional a zelar e contas a pagar. Tinha um homem maravilhoso me convidando para um
mergulho no paraso. Pedi um tempo at quarta, para acertar minha agenda. Vibrei ao saber que o
tal comercial da Arisco, com Nelson Piquet, tinha danado - a agncia queria uma morena.
Discreto que era, Ayrton vibrou do seu jeito. Mas havia um teste para um anncio do drope
Halls, bom dinheiro, trs mil dlares, locao no Caribe, o tipo da esbrnia que faria a cobia de
uma modelo. Mas eu no sabia mais se era uma. As pginas de minha agenda esto cobertas de
balezinhos vazios, pensamentos sem palavras, como nos gibis - representando tanto minhas
dvidas quanto coisas que, por mais que pensasse, eu deveria calar. A nica certeza se
chamava amor.
        O prazer triunfou. Angra, a Quinda, as guloseimas da Maria, litros e litros de Coca-Cola e
o afeto do dono da casa. No banco traseiro do carro que nos levou ao helicptero, notei um
pacotinho quadrado, embrulhado para presente. O pacotinho sumiu, para reaparecer, um dia, em
cima do meu travesseiro - um perfume Samsara. Ele acertou. O travesseiro, diga-se, ficava na
cama dele - agora, j sem nenhum subterfgio, na nossa cama. De surpresa, ele preparou uma
linda festa de aniversrio para mim, de sbado para domingo. Os amigos foram, apareceu o
Leonardo com sua nova namorada, a Sonaly, uma meninona de 1,80 metro tambm da Elite, os
ilhus de Angra aportaram seus barcos, elegantssimos. Bco me apresentou, um a um. Era meu
namorado. Embora tenha hoje 21 anos, sou da poca em que se dizia assim: meu namorado.
        O melhor presente que recebi, naquele dia, naquela noite, alm do perfume francs, alm
do relgio Tag Heuer que ele me deu, com uma picada de ironia, alm do bolo com velas da
Maria, alm do banho de piscina de roupa e tudo, provocado pelos amigos - passaporte oficial de
meu ingresso na turma -, foi a certeza de um amor que desabrochava, sem medo e sem limite.
Ns dois tnhamos futuro, pensei. A festa enluarada em Angra atropelou minha cautela. Estava
to eufrica que pensava: nada, mas nada mesmo, iria interromper nossa felicidade.
        A Adriane Galisteu modelo, profissional da beleza, andava meio avoada, esquecia os
compromissos, a cabea no ar. Tomava grandes broncas da Ina, diretora da Elite e grande amiga.
Mas eu no deixava de ter meus lampejos de responsabilidade. O comercial do Halls tinha sado:
cinco dias no Caribe, embarque j naquela tera-feira, 20 de abril, dois dias depois do meu
aniversrio. Sabe como faz um namorado tpico? Ele pergunta: como  o filme? Quem vai com
voc? Onde vo ficar todos? Pois : o Bco perguntou, igualzinho. E decretou:
        - Levo voc no aeroporto. Odeio aeroporto, mas vou com voc.
        No queria deixar dvida. No tinha mais o menor receio em se expor numa situao
daquelas. E imaginem vocs a cena de um atleta consagrado mundialmente, reconhecido e
saudado por uma a uma das pessoas ali no saguo de Cumbica, carregando pessoalmente a mala
da mocinha ao lado. Dirigiu-se ao balco da companhia e fez o check in, diante do olhar
embevecido dos funcionrios.
        Mas um deles estranhou:
        - Aruba? O vo s sai daqui  uma da manh.
        A booker da Elite tinha me falado dez horas. Outra coisa no combinava: era um vo da
Transbrasil, tinham me informado. O balco da Transbrasil desconhecia qualquer vo para
Aruba. Bco era descoladssimo em situaes enroladas: despachou a mala e props um jantar de
despedida. Chamou um txi e, para pasmo do motorista, perguntou se ele conhecia um
restaurante simptico ali por perto. O pasmo do motorista no era nada diante da reao do dono
do restaurante e da mulher dele. No era possvel acreditar que, quela hora da noite, numa
insossa tera-feira, sem aviso e sem fanfarras, alojasse ali numa de suas mesinhas de madeira e
toalhas quadriculadas, o legendrio campeo.
        Ele adora essas situaes.  como se se visse de novo, menino da Vila Maria, sonhando
com o magnnimo fil com batata frita do boteco da esquina. Fizemos nosso pedido: fil com
batata frita. Mesmo descontando a circunstncia, o puro encanto que envolvia aquele encontro
romntico num cantinho obscuro de Guarulhos, juro que foi dos melhores que eu comi na vida.
         Voltamos sem pressa, mas o alto-falante do aeroporto estava ligeiramente histrico:
         - Ateno, senhorita Adriane Galisteu. A senhora est sendo aguardada no balco da
companhia... (No me lembro bem, s sei que no era a Transbrasil.) Esta  a ltima chamada.
         Como naqueles filmes de aeroporto, um homem e uma mulher saram em disparada at a
outra ala. A equipe de filmagens, nervosa, arquitetava as mais maliciosas interpretaes para
nosso ingnuo atraso. Pura distrao minha, tpica daqueles dias de emoes nada brandas. Quem
disse que era Aruba? Era: Bahamas.
         Mas cad a mala? Estar, a essa hora, a caminho de Aruba?
         - Esquece a mala, que eu me viro - acalmou-me Ayrton, senhor da situao.
         Novo check in, em velocidade de Frmula l. Nova trombada: Bahamas com escala em
Miami. Falta o visto de entrada nos Estados Unidos. O diretor do comercial se descabelou:
meteu-se no tubo do avio, na base do "deu, deu, no deu, no deu". Mas, como aqueles reis que
curavam tudo, Ayrton Senna me ps no vo e recomendou  produtora, que, essa sim, ainda me
esperara:
         - Cuida dela, t? Por mim.
         No teve um gesto de impacincia diante daquela namorada trapalhona. Demos um
beijo amoroso e ele foi tragado pelo mundaru que j se formava, indcil, em torno -
implorando um toque no brao, um autgrafo para o filhinho, uma palavrinha de ateno em
troca da invarivel introduo "desculpa, mas sou seu f..." Ayrton Senna  um rapaz reservado,
s vezes at "macambzio" - era essa a expresso com que Nuno Cobra, seu treinador, pegava no
seu p. Mas, justia se faa: eu jamais o vi economizar simpatia e gentileza com seus nem sempre
recatados fs. Por essas e por outras  que ele  um ser humano to especial.
         Fiquei de castigo no avio, na escala em Miami. Mas a chegada me impressionou.
Bahamas  um lugar lindo, de guas cristalinas, pessoas charmosssimas, hotis deslumbrantes,
como o Cristal Palace, em que nos hospedamos, e restaurantes divinos, como o Piccadilly, que
virou nosso point. Mas estvamos ali a trabalho, no a passeio - e trabalho que exigia a mais
infinita pacincia. Subamos num veleiro e samos sacudindo pelo mar. Eu, escolada, prevendo o
inevitvel enjo, sabia do truque de pregar um esparadrapo especial atrs da orelha. Mas faltava
vento e passvamos horas  deriva. No posso, porm, me queixar do resultado - o filme saiu
deslumbrante.
         Difcil foi, no domingo, descobrir uma televiso nas Bahamas que pegasse a corrida de
Frmula 1, a segunda da temporada europia - GP de San Marino, em mola (ah, a dor que esse
nome me traz hoje, a vontade de risc-lo do meu mapa). Nas Bahamas, s se quer saber de
Frmula Indy. Depois de muito peregrinar, instalei-me diante de uma parablica, com a Piera e a
Juliana Soares - que ficavam me atazanando:
         - Ttt... (O fundo musical da Globo.)
         Ele no terminou a prova, como no terminaria a do ano seguinte. At ento, as nossas
conversas sobre automobilismo eram igual a zero. Mas eu podia sentir o que ele sentia. Disposta
a lhe dar um consolo, liguei para a secretria dele, em So Paulo, e avisei que queria falar com ele.
Era uma hora da manh quando o telefone tocou. A Piera, que dormia comigo no quarto,
atendeu:
         - Alfredo?  voc, Alfredo?
         Pela resposta, ela deu um pulo da cama:
         - Ah, desculpa.  voc, Ayrton?
         E me passou o telefone:
         - Mas que diabo de Alfredo  esse? - ele queria saber, com aquele tom brincalho de
quem esconde um ciumezinho.
         - Alfredo?  o caseiro da Piera. Ela est esperando uma chamada.
        Falamos uma hora e meia. No disse uma palavra sobre a prova. Disse mil palavras sobre
saudade, pressa de voltar, planos de me encontrar. Imaginem: eu estava num paraso mas s
pensava no meu amor. Vontade de voltar rpido, rpido. E, de fato, dois dias depois nos
encontramos no apartamento dele, da Paraguai, dispostos a recuperar o tempo perdido naquela
semana de separao. Estvamos em clima total de namorados e, para isso, nada melhor do que
o escurinho de um cinema. Ele escolheu: Dustin Hoffman, paixo total do meu moo. Filme:
 Heri por Acidente.
        Meia dzia de espectadores, no Cal Center - maravilha para um filme a dois. A sada,
esperava por ns o inferno. Ayrton  dono de uma pacincia oriental para com os fs mais
ansiosos. Mas no tolera o jeito trfego e insolente de uma certa imprensa. Fomos, de repente,
sitiados. Ouvimos o primeiro clique - e ele segurou com fora minha mo. Outro flash. Ele quis
dialogar:
        - Olha, eu vim aqui em busca de tranqilidade. Podemos ir todos embora agora, no
podemos?
        Enquanto ele argumentava, novo flash. E a perigosa aproximao de um rapazinho, de
bloco e Bic na mo, trazendo na ponta da lngua aquele veneno que s as cascavis e alguns
jornalistas conseguem destilar:
        - Essa histria da gravidez da Marcella Prado... Afinal, a filha  sua ou no ?
        Tipo da pergunta elegante para um sujeito que tinha uma namorada ao lado. Pela primeira
vez, pressenti que ele ia dar vazo ao seu pedao Incrvel Hulk:
        - Pergunte ao seu pai. - E, antes que o reprter puxasse o argumento " meu trabalho", j
levou um safano que o derrubou. Ao fotgrafo, ele lascou um tapa na orelha que at hoje deve
lhe soar como um telefone ocupado. Arrancou-lhe a mquina e a arremessou contra o vidro do
cinema. Juntou gente e eu no sabia o que fazer. Segurei-lhe na mo, gelada, que tremia, e tentei
arrast-lo. Mas ele estava transtornado. Voltou atrs sobre seus passos:
        - Me d o filme.
        Fotgrafo e reprter gaguejavam. Passaram-lhe um rolo, que ele puxou e exps 
claridade. Arremessou contra uma cesta de lixo. Caminhamos para a porta e ele ameaou voltar:
        - Cachorro! Tenho certeza de que o filme  outro. Era outro.
        Um homem capaz de percorrer uma pista tortuosa a 350 quilmetros por hora caminhou
at o carro com o rosto respingado de lgrimas, e ele chorava, chorava, at seu apartamento -
chorava de raiva, chorava pela impossibilidade de ser um mero mortal como os outros, chorava
com a indelicadeza daqueles que fazem de uma profisso bonita um ofcio de abutres, chorava
por ser indefeso, chorava por me expor, chorava pelo controle perdido, arrependido de entrar no
jogo dos achacadores de novidades. Mais de uma vez eu o vi chorar. Nunca de medo. Sempre
de raiva. Ele se metia nas brigas e, depois, se envergonhava. Mas, num mundo de m-f, a lei dos
punhos acaba tendo de se impor, s vezes. Chorei com ele. Percebi, ali, que j vivia plenamente a
vida dele.
        Hoje entendo mais do que nunca. No dia seguinte ao tetra do Brasil, fui festejar com um
grupo de amigos na Praa Lus de Cames, em Cascais, aqui pertinho de onde me hospedei.
Ningum tanto como eu torceu e se contorceu pela vitria. Num vdeo gravado pela Globo, os
futuros tetracampees dedicavam a Copa a Senna. Eu festejei. Uma jornalista rancorosa, com
quem eu j tinha tido um bate-boca, me chamou de "viva alegre". Um jornal carioca que j foi
srio reproduziu, sem me ouvir. Enfim, mais uma lio de bom jornalismo e de integridade de
carter. s tantas, dizia a reportagem que eu usava um short cavado e mostrava uma felicidade
excessiva.
        A abaixo-assinada "viva alegre" usava jeans e casaco de moletom. Era tarde da noite e o
vero de Sintra tem seus momentos de Alasca. E, aos 21 anos, sinto-me dona do direito de me
vestir como quiser. As aparncias nem sempre exprimem o que se passa nas profundezas do
esprito. Se tem coisa que exijo, hoje,  que respeitem a minha dor.
        Ele escolheu a dedo o lugar para me introduzir nos bastidores da Frmula 1. Um
principado. Onde ele era, fazia tempo, o verdadeiro prncipe. Convidava-me para ser, por uma
semana, sua princesa. Pode parecer engraado que eu, aos 20 anos, surpresa com aquela
homenagem carregada do mais nobre simbolismo, tenha pedido um tempo para "consultar a
mame".
        - Pedir licena a sua me? - ele ficou perplexo.
        - No  moralismo, no - tive de explicar. -  que sempre conto tudo a ela. E confio no
seu sexto sentido: quando diz no, sei que  melhor no.
        Viagem inesquecvel: regada a sangue, glamour e amor, muito amor. Deixa que eu conto.
        17 de maio, uma segunda-feira, l estava eu, no aeroporto, malas prontas - obrigada, me,
pela ajuda -, razoavelmente ansiosa com a perspectiva de competir com as prolas, as tiaras, os
diamantes, os vestidos assinados com que eu haveria de cruzar, nos priplos de Mnaco e Monte
Carlo. Tinha dado um reforo no figurino, para a ocasio. Mas meu estilo era Forum, Zoomp,
Viva a Vida, Bicho da Seda - compatvel com minha idade, identificado com meu gosto. Relaxei:
vou ser o que eu sou. Por via das dvidas, pensei: j que me faltam jias, vou compensar nos
creminhos. E embalei todos. Pois foi sentar no avio e pedir  aeromoa uma Coca-Cola para o
Bco me adular com aquele empurro de segurana que poderia me faltar:
        - Voc sabe do que eu mais gosto em voc?  desse seu jeito garoto de quem est
sempre curtindo a novidade. Ele odiava a rotina das viagens areas. Cumpria um ritual
automtico, meio blas: retirava da pasta um mole CAMINHO DAS BORBOLETAS tom azul-
beb, clarinho, uma t-shirt branca, trocava-se no toalete, j voltava com os ouvidos protegidos
por um ear-plug, recostava a cadeira e tentava pegar no sono. No se interessava pela comida,
muito menos pela bebida ou pelo filme - a viagem de avio ele queria que fosse a distncia mais
rpida e imperceptvel entre dois pontos. A tenso de vez em quando se transformava em
insnia. Mas a minha companhia, daquele dia em diante, o acalmava.
        Aos 5 anos de idade, eu tanto infernizei minha me que ela conseguiu que minha tia me
levasse para conhecer aquilo que eu cobrava, dia aps dia. Queria porque queria subir at o pico
do Jaragu, o ponto culminante da minha cidade de So Paulo. Pico do Jaragu pra c, pico do
Jaragu pra l. At que um dia eu fui. Cheguei no alto, depois de uma subida longa e atribulada, e
reclamei:
        - Que pocaria de pito!
        No sei porque essa histria de infncia, contada com afeto especial por minha madrinha,
me veio  cabea quando, depois do longo vo at Nice, via Paris, mais o trajeto de helicptero
at o principado, eu me dei de cara com aquela cidadezinha acanhada cuja lenda e cujo fascnio
no transpareciam  primeira vista. Ao longo dos dias, e especialmente das noites, quando via
senhoras vestidas de Dior e com sapatos Gucci pelas elegantes alamedas, conduzindo seus
poodles para um ltimo pipi, como quem se dirigisse para uma ceia com o sulto de Brunei,
percebi que se tratava de um gueto - de privilgio, bom gosto, preos astronmicos, acesso
fechado, narizes empinados. Tem sua graa. Sobretudo se a pessoa que voc ama vai ser a estrela
principal daquela festa.
        Ele tinha um apartamento em Mnaco - pequeno, muito bem decorado, na medida para
quem passava ali apenas uma semana por ano, a semana do GR Diferente de outros tempos, em
que chegou a ser proprietrio de um apartamento enorme, praticamente seu QG europeu at o
dia em que se converteu s delcias de Portugal, de Sintra e do Algarve; passou-o nos dlares e
partiu em direo ao sol. De uma coisa, porm, ele fazia questo, fosse o lugar grande ou
pequeno, freqentasse-o ele muito ou pouco tempo. A casa tinha de estar funcionando,  sua
chegada. E, em Mnaco, a perfeio tinha um nome: Isabel, a cozinheira-arrumadeira-faz-tudo
portuguesa. Ela me conquistou de cara:
        - Bem que a Maria (caseira de Angra) me disse que voc  linda.
        Naquele momento, tomei contato com o circuito casamenteiro que operava aos sussuros
entre as vrias casas do Ayrton, a Isabel, a Maria (de Sintra), a Maria (de Angra), a Juraci (do
Algarve), todas mobilizadas em sua misso de Santo Antnio: uma mulher faria muito bem ao
campeo. Percebi que as alegres alcoviteiras comeavam a botar suas fichas - e, desconfio, at
suas rezas - em mim.
        - Voc faz bem ao garoto - diria, na despedida, a Isabel. Quantas vezes mais eu no
ouviria essa mesma frase, dita pelas pessoas mais diferentes, dita at por ele mesmo? Bom que
tenha sido assim; pena que no seja mais. Paredes com cheiro de tinta nova e o carpete imaculado
sugeriam o capricho para a recepo anual ao prncipe Ayrton. Para mim, marinheira de primeira
viagem, tudo significava uma descoberta - menos o que eu lhe oferecer. Retirei-me para uma
ducha quente. Liguei a torneira, lambuzei-me de sabo, cantarolava alegremente quando ouvi um
insistente tac, tac - como se um pedreiro martelasse do outro lado da parede. Tac, tac, tac, tac...
De repente, o boxe desabou - o boxe, no, os azulejos, todos eles, um aps outro, espatifando-se
no cho, riscando na queda as minhas costas, cortando meus ps com seus caquinhos. Enrolei-
me numa toalha e corri para nosso quarto, em pnico. O sangue descrevia uma trilha no carpete
branquinho, branquinho. Ayrton estava ao telefone. Desligou, assustado, e correu para me
acudir.
        S tive tempo de balbuciar:
        -  que tenho um probleminha... No posso ver sangue que...
        Desabei do alto do meu 1,74 metro. Menos mal: nos braos dele. Quando despertei, ele
tinha me colocado na cama e enrolava um carinhoso Band-Aid no meu dedinho. Nos dias
seguintes, brincava comigo diante dos mais chegados: "Sua pamonha!" Estvamos no principado
de Mnaco, era minha primeira viagem internacional com ele e logo aquele vexame!
        - Achei lindo - me acalmou. - Nunca mulher nenhuma desmaiou nos meus braos.
        Se no estivesse deitada, eu desmaiaria outra vez. Naquele mesmo dia, ao tentar fazer um
furo extra num cinto novo - sempre s voltas com cintos, vocs j repararam, n? -, ele espetou o
dedo. Senti que tratou de esconder de mim.
        A primavera na Riviera, com suas noites lmpidas e o vento aconchegante que o
Mediterrneo traz da frica,  para ser passada a dois, agarradinhos. Foi assim naquela noite de
chegada - e em todas as outras. Ele me pegou pela mo e disse:
        - Quero mostrar-lhe uma coisa.
        Caminhamos at a entrada da pista - na verdade, at um porto onde guardas velavam
para que nenhum veculo trafegasse naquele circuito de rua, j ento fechado, por onde voam as
mquinas da Frmula 1. Ayrton Senna - apresentou-se ele. As portas se abriram para ns e ele foi
me mostrando, a p, calmamente, minuciosamente, cada um dos ziguezagues daquela pista onde
ele era o professor. Uma aula, para uma - no me envergonho de confessar - leiga no assunto:
        - Aqui, eu freio (e deitava-se no asfalto, em busca de alguma marca de pneu). A
velocidade vai para 80... Nessa reta, piso embaixo... Agora, repara bem no traado: voc entraria
nessa curva de que lado? Pois , eu entro do outro lado.  mais seguro e ganho tempo.
        Senti seu orgulho em dividir comigo os valiosos segredos de sua mestria. Senti seu desejo
de me ter a seu lado, naquele mundo que era sua vocao e seu business. Tanto que, raro
freqentador da noite, ele, terminada a caminhada, se animou:
        - Quero mostrar-lhe o cassino.
        - Mas como? Voc no joga, eu no jogo.
        - S hoje, s hoje.
        Fiquei nas moedinhas e no jackpot. Fracasso total. Ele props um sete e meio. Trocou
300 dlares em fichas, s para brincar, e o dinheiro foi escorrendo rapidamente pelo ralo. Um
amigo dele, que jogava na mesa ao lado, veio se juntar a ns. Perdeu tudo. Brincou com Ayrton:
        - L, eu estava ganhando uma fortuna. Vim pra perto de vocs, naufraguei. Acho que esse
no  mesmo seu esporte.
        A felicidade estava estampada no rosto do Bco. Garons, croupiers, recepcionistas,
convidados inclinavam-se  nossa, passagem como se ele fosse o mais ilustre membro da casa
dos Grimaldi. Mas se permitiam a intimidade plebia da saudao alegre "Senn, Senn". O
amigo mandou vir um presente: uma caixa de trufas suas. As mais deliciosas trufas que jamais
saboreei na vida. De volta ao apartamento, no restava uma nica trufa para contar a histria.
        O GP de Mnaco, em Monte Carlo, no s era uma prova do calendrio automobilstico.
Era tambm um tremendo acontecimento social. Atrizes, modelos, colunveis, arrivistas acorriam
para ganhar uma foto ao lado das cabeas coroadas do principado e dos dolos da velocidade.
Vocs vo se surpreender quando, logo, logo, eu contar quem  que apareceu numa dessas
badalaes - felizmente, e aqui eu j dou uma pista, com a devida roupa de baixo.
        Compromisso obrigatrio, ns teramos um - jantar de gala para os pilotos da Marlboro.
Talvez dois - a festa da vitria, desde que,  claro, fosse ele o vencedor. Como Senna e o circuito
de Mnaco mantinham desde 1987 uma trrida relao de amor (pentacampeo, nada menos do
que isso), achei melhor me preparar para a segunda eventualidade. Tinha  mo trs vestidos de
noite - quatro se contasse outro, curtssimo, da Forum, vermelho e preto, fechado por um zper
na frente, figurino um tanto ousado se voc vai se sentar ao lado do prncipe Rainier.
        Na carona de sua Ducati 900 (ele tinha uma igual, descobri depois, na sua fazenda Dois-
Lagos no interior de So Paulo), com o capacete de reserva dele, as mesmas cores, verde-amarelo,
o nome Nacional em destaque, tomei meu primeiro contato com o nervoso burburinho dos
boxes e dos motor homes - aquele aflito mundo que as cmeras de tev no captam, durante os
treinos ou nas provas da Frmula 1. Era vspera do primeiro treino oficial e ele tinha todo um
dia de trabalho pela frente - reunies com os mecnicos, checagem do motor, encontros de
negcio com patrocinadores. Mas quis me deixar  vontade: conduziu-me pela mo at o motor
home da Tag Heuer e me apresentou a um por um, do mais graduado tcnico da McLaren ao
mecnico que troca os pneus. Depois, troquei o primeiro al com aquele que, viria eu a descobrir
depois, era, entre todos os malucos do volante, aquele de quem Ayrton se podia dizer amigo -
amigo, incondicional, com todas as letras.
        Seu ex-parceiro de escuderia, Gerhard Berger. Se esse austraco moleco e de alma de
manteiga ainda tinha at hoje dvida sobre esse sentimento muito especial do Ayrton, que fique
sabendo por mim, agora, que comemore, ou que chore - mas posso dar o testemunho de dez,
vinte, cem vezes que o Ayrton me disse isso.
        Eu me dava conta de outras pessoas que emprestavam brilho ao lado oculto da festa. No
bastasse nada, conheci, enfim, de verdade, o Bragota - o banqueiro Antnio Carlos de Almeida
Braga, aquele senhor que, no GP do Brasil, me dera o toque meio brincalho sobre o Ayrton. Era
uma delcia:
        - No lhe falei, garotinha? - brincou aquele gozador e esportista full time, capaz de sair de
uma final de Wimbledon no sbado para assistir a um torneio de golfe no Hava no domingo. -
Disse que ia rolar namoro, ppum. Agora digo que vai pintar casamento.
        Os protagonistas da Frmula 1 iam se revelando, assim como os figurantes. Com o
Braguinha, fui ser apresentada ao Rubinho Barrichello. A apareceu a Betise Assumpo,
assessora de imprensa do Ayrton. Sensacional, muito divertida, depois amicssima - de quem
guardo tanta saudade. Chegaram Oscar Guerra e Marquinhos Magalhes Pinto, amigos de velha
data e patrocinadores, via Banco Nacional. De cinco em cinco minutos, um preocupado Ayrton
botava a cara para fora do motor home. Queria me ver:
        - Tudo bem?
        - Tudo bem - eu tambm estava louca para v-lo a cada segundo.
        Fiquei ali quatro horas, me pareceram quatro minutos. Ao lado ele, o tempo parava. No
dia seguinte, ele quis me poupar: treino oficial, levantar s sete da manh, era melhor que eu
ficasse em casa, descansando. Algum se encarregaria de me levar ao circuito. Mas era como se o
circuito de rua atravessasse a minha cama. Pulei fora. Vivi aquela eterna dvida das mulheres
sobre que roupa usar. Fui ao quarto do Marquinhos consult-lo.
        - T boa a roupa?
        Ia acender a luz, mas ele:
        - S no acende a luz.
        Acendi. Ele, desesperado, cortando a conversa:
        - T bem, t bem. Agora apaga.
        Fui acompanhar os treinos. Encontrei o Bco animado, otimista. E, como ele, o risonho
Braga. Incorporara-se  trupe o Papagaio - tio Papagaio, eu preferi em sinal de respeito. Na vida
civil, Galvo Bueno. Locutor da Globo para a temporada de Frmula l, assim como para os
outros triunfos canarinhos no futebol, no vlei, no basquete, no tnis, etc, etc. Simpatia 
primeira vista: ele me convidou para assistir  prova da cabine da emissora.
        Em Mnaco, estreei tambm o lado speed das pistas. Perseguio implacvel dos
paparazzi. Era desfilar de mos dadas com o Ayrton diante das arquibancadas e a galera ia
literalmente  loucura. Gritava elogios para ns. Curiosamente, para mim em italiano. Penso em
Marcello Mastroianni e me conveno de que o italiano talvez seja a lngua da seduo. Ayrton
apertava ainda mais minha mo. Era o ensimo atestado de amor.  sempre gratificante para uma
mulher ser admirada. Em especial se, de repente, o elogio traz o nome Giorgio Armani e uma
pergunta meio exploratria sobre se uma moa to bonita no estaria interessada em desfilar tal
coleo. Uma pergunta dessas na Elite teria o efeito de um maremoto.
        Conheci, em Mnaco, um outro mundo. Descobri, em Mnaco, um outro Ayrton.
        O que eu tinha em mos e sob os olhos at ento era o namorado de Angra, o
provocador da Quinda, o apressadinho do jet-ski, o maluquinho do helicptero, o companheiro
das noites de So Paulo, o amante carinhoso, o amigo de todas as horas e de todas as
brincadeiras. Percebi a metamorfose - lenta, gradual, inconsciente talvez.  medida que a hora
do desafio nas pistas se aproximava, quando ele se defrontava com o dilema do vamos-ver e do
tudo-ou-nada, sua personalidade ia se reconstituindo, em nome do dever e da performance: S-E-
N-N-A. Assim, letra a letra, no ritmo lento de um soletrar infantil. SENNA, o astro - convicto,
pronto para extrapolar todos os limites.
        Sumiu o Bco de ps descalos e riso franco. Surgiu o Senna de uniforme e rosto duro.
Era uma surpresa para mim - mas eu tinha um corao transbordante de ternura para entender o
que se passava.
        Seria sempre assim: sexta, sbado, vspera de GP, estivesse ele com o carro na ponta dos
cascos ou vivesse ele um enorme pessimismo, Ayrton ia botando o capacete e vestindo o
macaco de Senna.
        "Fechar o zper", foi a expresso que eu usei, mais de uma vez. Ele concordava,
cabisbaixo:
        - No tem outro jeito.
        Ele era uma usina de carinhos. No troco seus toques afetivos nem por uma vitrine
inteira do Amor Aos Pedaos. Seus beijos deixam na boca o sabor de mil queijadinhas de Sintra,
um milho de toicinhos do cu, um milho de cheese-cakes como os da Bebel, de Portugal. Mas
quem  capaz de se derreter de doura s vsperas de entrar no asfalto esfolando uma mquina a
350 quilmetros por hora e tendo na sua cola um francs rabugento e um chatssimo alemo?
        Tenso, concentrao, reflexo - mas nunca, e eu passo declarao em cartrio, com
firma reconhecida, nunca senti naqueles momentos o mais remoto sinal de estrelismo. Naquele
sbado que antecedeu o GP de Mnaco, 23 de maio de 1993, ele vestiu o pijama - dormia de
pijama, curto ou longo, dependendo da estao -, recolheu-se cedo, abriu a Bblia que carregava
na pasta de mo - ler a Bblia era outro de seus hbitos pr-corrida -, botou a mo sobre um
determinado captulo, fechou os olhos. Orava em silncio. Olhou-me com uma expresso
estranha:
        - Preciso ganhar... Tenho de ganhar...
        Freud de novo me denunciou. Eu tambm estava tensa. Tive um tal acesso de tosse,
escandaloso, incontrolvel, que me refugiei na sala, para dar um tempo, mas esse tempo foi, sei l,
meia hora, parecia uma eternidade, e quando voltei ele me esperava, carinhoso, querendo saber
como eu estava - e novo acesso explodiu, sintomaticamente. Quando me refiz, ele me deu um
terno "boa-noite" e apagou a luz.
        Tive o mpeto de rezar. Do meu jeito, com as falas de meu prprio catecismo - eu que
nunca fui de freqentar muito igreja, j que meu pai no ligava, minha me tinha sido batizada
numa igreja protestante hngara, minha av paterna era catlica e eu, no mximo, ia a uma igreja
batista da Lapa, para as farras da escola dominical. Mas, naquela noite, eu me apeguei a todos os
santos e expressei um desejo, do fundo do corao. Pedi muito para que ele ganhasse. E, para
mim, um desejo especial:
        - Por favor, no tirem esse homem da minha vida, jamais!
        Nem ali nem nunca eu cogitei que a morte pudesse busc-lo. Tinha medo de perd-lo
para a vida.

        - O Ayrton teve um acidente.
        A notcia me recebeu na porta do autdromo. Eu tinha sido despertada pelo vrum-vrum
das mquinas, o warm up j rolando, meti uma roupa, rapidinha, peguei carona com o
Marquinhos Magalhes Pinto e cheguei descabelada. Mais descabelada ainda fiquei ao saber dele.
        Corri para o boxe da McLaren, nada. Tentei o motor home. Olha l ele, bem ao lado, j
dentro do carro reserva, uniformizado dos ps  cabea, pronto para voltar  pista. Alvio. E o
acidente?
        - Nada, nada - despistou.
        Um mecnico me socorreu: machucou a mo, mordeu a lngua, saiu um pouco de sangue
da boca.
        - Ainda bem que voc no estava aqui, pra desmaiar - brincou ele, mostrando que estava
com o astral l em cima.
        Entre os preparativos e a largada, ele ficou entregue a outro de seus anjos da guarda, que
eu vim a conhecer tambm naquele dia: o Joseph, um austraco que trabalhava na infra da
McLaren e que, alm de servir como uma espcie de escudeiro dos pilotos,  um expert em
massagens curativas e em poes mgicas.
        Os sessenta minutos que precedem a largada so aquele corre-corre entre os boxes e os
motor homes, no h quem no tenha mpetos de comer as unhas ou arrancar os cabelos. Posso
dizer que conheci, naqueles minutos, o verdadeiro sentido da palavra nervosismo. Curiosamente,
minha melhor terapia era quem mais devia estar ansioso: Bco surgiu sei l de onde, faltando
vinte minutos para a bandeirada, pegou-me pela mo e me convidou a ir para o boxe da McLaren
com ele.
        - Pro boxe? - estranhei.
        Nem respondeu. Saiu me arrastando diante da arquibancada, que explodia de entusiasmo.
O boxe da McLaren era um ovo, onde mal cabiam meia dzia de mecnicos e os pilotos. Como
se fosse um ato proibido de dois meninos, ele me fez esconder com ele atrs de um tapume de
papelo e me sapecou um beijo:
        -  hoje!
        -  hoje! - eu no conseguia encontrar nada seno o bvio para empurr-lo para a vitria.
        Com o polegar direito do tamanho de uma bola de tnis, mas devidamente enfaixado,
Ayrton entrou na pista para vencer. Joseph, o massagista, ajudou; o carro, tambm; mas eu
gostaria de reivindicar o meu modesto mrito. Na minha estria na Frmula 1 como namorada
dele, dei sorte. Eu e o Oscar Guerra rezamos mais do que o papa. Mas, a, ao final, corrida cabine
da Globo para o pdio, disparada mesmo, sem flego. Ouvi ainda ao longe os acordes do Hino
Nacional Brasileiro, lgrimas rolavam pelo meu rosto enquanto eu continuava tentando me
aproximar do pdio, mas s pude v-lo depois, na reproduo daquela cena tpica da vida dele, a
multido compacta que caminha e empurra, l no meio, o impvido bon azul. Ao me ver, ele
abriu passagem com os cotovelos e me confidenciou ao ouvido coisas muito mais doces do que
aquelas trufas suas:
        - Foi muito bom... Voc sabe que foi pra voc, no sabe?
         Diante do Club Sporting, a passadeira vermelha, o pblico igual ao do Oscar e as cmeras
fotogrficas esperavam pelos prncipes de Mnaco. Os que do expediente o ano todo. E o que
pontifica no dia do GP - nesse, acompanhado da sua princesa, "a misteriosa loira brasileira".
Claro que, na correria do banho e da escolha da roupa, sofri a tpica doena feminina: achei que
no tinha roupa. Ele, elegante com seu smoking, mostrou como uma vitria produz homens
pacientes e tolerantes. Pois ele se encarregou:
         - Eu decido.
         E decidiu-se por aquele tal vestido bem pouco protocolar, com salto alto e meia preta
grossa.
         - Mas... - ainda tentei argumentar.
         - Est linda.
         O auditrio estava apinhado. Ficamos bem no centro da mesa principal. Eu olhava para o
lado e via o prncipe Albert. Virava para o outro, Michael Douglas. E aquela menina bonita? Ah,
a Cindy Crawford, com seu namorado grisalho e charmosrrimo, Richard Gere. De repente,
quem est olhando para mim, quase em frente? A princesa Carolina. Fao um aceno protocolar
com a cabea e abaixo os olhos, morta de inibio. Nunca se viu tanta concentrao per capita de
beleza e fama.  que, naquele ano, o GP de Mnaco coincidiu com o Festival de Cinema de
Cannes e todo mundo acorreu para a boca-livre. Sem falar das estrelas do prprio circo: Nick
Lauda, Jackie Stewart, Ron Dennis.
         O garom veio nos servir:
         - Champagne, mademoiselle?
         - Merci, Coca-Col.
         Outro homem teria me dado um belisco por baixo da mesa, mas o meu Bco foi
solidrio com a minha criancice:
         - Ento, duas Coca-Cols.
         Galvo Bueno, subitamente, ameaou um piripaque. Afrouxou a gravata, botou a mo no
corao, saiu para tomar ar fresco. Ayrton se preocupou, assim como ns, da turma dos
brasileiros. Mas logo se percebeu que ia passar. Por isso mesmo, Bco se permitiu uma
molecagem. Chamou uma ambulncia e obrigou o constrangido Galvo a entrar, com suas
prprias pernas, na barulhenta ambulncia. Jurou vingana. Menos de uma hora depois, estava de
volta, inteiro, na boate onde a festa se estendeu.
         Depois da entrega de prmios, a esticada foi no Jimmy's, o night club da moda. Novas
homenagens - e uma platia bem mais informal e ecltica. Muitos dos pilotos - Prost, l do outro
lado, na reta oposta, Berger, Patrese -, figures do big business do automobilismo, como o
Mansour Ojjeh, scio majoritrio da McLaren, e algumas roadies do circuito, como a Sylvia
Piquet, ex-mulher do Nelson.
         Tnhamos uma mesa de pista e senti que o Ayrton, que no fazia exatamente o tipo rei da
noite, comeou a se remexer, inquieto, e a afrouxar o lao da gravata-borboleta  medida que um
elenco de mulheres muito desinibidas veio exibir suas, digamos assim, virtudes, sem o menor
constrangimento, bem diante dele. Eu no hei de me esquecer especialmente de uma mulher
lindssima, que tinha corpo e ritmo de bailarina mas cujo vestido de noite consistia numa pecinha
menor do que uma blusa. Ela olhava para o Ayrton e lanava vigorosamente as pernas at a altura
da cabea. Detalhezinho: a moa estava exatamente como Llian Ramos no Carnaval carioca de
1994.
         - Estou fingindo que no vejo - me cutucou ele, rindo.
         A noitada foi ficando para os que tinham bebido demais e para os que tinham se vestido
de menos. No era o nosso caso. Felizes como duas crianas, Bco e eu ainda resolvemos pregar
uma ltima pea. Os amigos diziam que ele era um irremedivel po-duro. Naquela boate onde a
dose do scotch custava quase 100 dlares e onde litros e litros de champanhe tinham enchido os
copos na nossa mesa, o suposto mo fechada Ayrton tomou a iniciativa de ir sorrateiramente at
o caixa, acertar a conta, mas combinar com o garom um susto no Marquinhos Magalhes Pinto,
banqueiro, filho de mineiro e outro que no por acaso carregava a mesma reputao. Galvo e
Oscar eram nossos cmplices na cilada:
        - Estamos indo. Tchau.
        O garom fingiria que a conta no tinha sido paga. Mais do que isso: multiplicaria por
cinco as despesas. Assim foi feito: quarenta minutos depois, Marquinhos, que era nosso hspede
no apartamento, apareceu lvido, com uma expresso de puro desespero. Alguns milhares de
dlares por uma noite - at um banqueiro  capaz de baquear.
        - Acho que vou ter de trabalhar o resto da vida.
        Uma gargalhada, a ensima daquele dia de vitrias e alegrias, acompanhou o hexacampeo
de Mnaco at a cama, abraado a mim. Sou dona de um sono adolescente:  entrar nos lenis,
fechar os olhos e apagar. Ele, ao contrrio,  do tipo que custa a pegar no sono. Naquela noite,
depois de tudo, eu tinha o corpo moda mas a cabea ligada:
        -  um sonho?  verdade?
        J no me importava fazer essa distino. Queria viver aquilo, em que esfera se passasse.
Realidade e iluso valem a pena, quando uma ou outra coisa aquece o corao.
        Aqueles homens de fibra e de ao chorarem como criancinhas. Alguns deles recostavam
seu rosto no meu ombro - pediam socorro logo a quem? A morte do companheiro de pista
expunha a fragilidade deles. Poderia ter acontecido comigo -  o que com certeza passava pela
cabea de cada um. Pois bem, naquele dia de luto e de dor, ficou provado que circula vida nas
veias dos super-heris da quilometragem. Eles vibram, amam, choram. Tm outros sentimentos,
alm da nsia da velocidade, com cara de quem no est nem a para o perigo. Esto, sim.
        Em Mnaco, em maio de 1993, comecei a travar contato com esses moos e com suas
histrias arriscadas e atrapalhadas. Ayrton, que adorava atazanar os amigos, era um coroinha
diante de outros pilotos. Dizia, por exemplo, com toda a seriedade:
        - Eu tenho um amigo louco (pronunciava a palavra louco como a pronunciaria um
mdico psiquiatra). - O nome dele  Gerhard Berger.
        Companheiro de escuderia na McLaren, o grandalho austraco conviveu com Senna,
numa certa poca, mais do que os outros pilotos. Senna o conhecia bem. Gostava um bocado
dele. O sentimento era recproco. Quando tudo aconteceu, Berger tomou um avio na Europa,
desembarcou em So Paulo para o velrio e o enterro, voltou na mesma noite para a Europa
porque no queria perder o velrio e o enterro de seu compatriota Roland Ratzenberger, a outra
vtima do massacre de mola. Nessa, acabou esquecendo a mala no hotel.
        Bco tinha pnico das brincadeiras de Berger. Sistemtico que s ele, Ayrton no largava
uma pasta tipo agente 007 em que guardava suas pequenas preciosidades, tipo agenda,
passaporte, caneta, uma mini-ncessaire, um suter e um exemplar da Bblia. A f de Ayrton era
uma crena ntima, no uma exibio pblica, mas a leitura dos salmos e dos versculos sagrados
era um hbito de todas as noites, um relax espiritual para facilitar um sono que, antes das
corridas, quase sempre custava a chegar.
           melhor histria com Berger, eu no assisti. Mas conheo bem. Os dois deixavam, de
helicptero, o Hotel Villa d'Este, s margens do deslumbrante lago de Como, antes de um GP
em Monza. O Ayrton com sua indefectvel pastinha, o Berger simulando um certo interesse pela
paisagem. Ayrton se distraiu, o austraco lhe arrancou a pasta da mo, abriu a porta do
helicptero j em movimento e arremessou o precioso objeto para as guas do lago. Errou por
pouco: a pasta 007 esborrachou no gramado, quase no lago.
        Ayrton guardou a vingana na geladeira. Esperou at o GP da Austrlia. Nesse dia, quem
dividia o quarto com ele era seu primo Fbio Machado. A dupla surrupiou da camareira uma
chave mestra, invadiu o quarto de Berger e de Ana, a simptica portuguesinha que  namorada
dele h muito tempo, derrubou na banheira as roupas dos dois, encheu de gua at em cima,
entornou xampu, enfeitou o ventilador de ps com peas ntimas do casal e sumiu, antes que Ana
e Berger reaparecessem.
         Berger pode ser louco mas no  idiota. E Ayrton e Fbio no duvidavam de que vinha
troco a caminho. Aparentemente, no veio. Os quatro tinham combinado de jantar naquela
noite. Ayrton e Fbio trocaram um olhar cmplice quando viram que tanto Berger quanto Ana,
no por acaso, vestiam as mesmas roupas da tarde. Ficaram firmes. O jantar transcorreu sem uma
queixa, um pio sobre roupa, banheira, quarto - nada, nada. Ficaram elas por elas, imaginou
Ayrton.
         Dias depois, passada a prova, Ayrton desembarca a negcios em Buenos Aires. No havia
lugar no mundo em que um porteiro, um motorista, um policial no o reconhecesse e no lhe
manifestasse seu entusiasmo - alm do tradicional pedido de autgrafo,  claro. Surpresa: o
guarda da imigrao Argentina fecha a cara, irritado, pede licena e tranca-se numa sala, com
outros oficiais. Demorada conferncia. Volta um senhor severo, visivelmente mais graduado:
         - Temos todo o respeito pelo seor Ayrton Senna - comeou o oficial. - Pero hay un
problemita.
         O passaporte. Constrangimento. Passou-lhe o documento. No lugar em que deveria estar
aquela foto 5 x 7, colorida e, se possvel, sorridente, estava uma donzela nua, sem um s trapinho
a vesti-la e, pior, em posio ginecolgica.
         - Berger... Berger... - espumou Senna. Desfazendo-se em desculpas, o piloto brasileiro
explicou s autoridades argentinas que aquela grosseira colagem era vingana de "um austraco
maluco".
         Nossa convivncia com Berger era ntima e social. Alis, se havia alguma coisa que
Ayrton sabia separar era a relao gostosa que rolava num jantar, numa viagem ou num passeio e
uma conversa embebida em gasolina e cheia de palavres tcnicos que o Senna - a, sim, o Senna
- tinha de ter, s vezes, com um ou outro parceiro de pista.
         Trabalho e prazer - nada a ver. Do Rubinho Barrichello, por exemplo, ele dizia coisas
timas:
         - Com um carro melhor, vai longe - previa.
         Na verdade, ele se sentia padrinho dos nossos calouros, da jovem guarda brasileira do
volante, o prprio Rubinho, Christian Fittipaldi, mas tambm do portugus Pedro Lamy e do
escocs David Coulthard, que por ironia viria substitu-lo na Williams. Eles lhe davam uma
espcie de flashback de sua prpria iniciao. E a eles dedicava a torcida de um agora experiente
veterano.
         Thierry e Patricia Boutsen tambm eram do time dos nossos amigos do peito. Sem
esquecer o Kevin, filho deles, que deve ter hoje uns 5 anos. Uns encantos - foram hspedes
nossos em Angra e no Algarve. Marido e mulher tinham um preparo excepcional, a ponto de
acompanharem o Ayrton naquela sua corrida diria em volta do condomnio da Quinta do Lago,
em Portugal. Uma hora e meia, duas horas - os dois pilotos e ela. Eu, sob vaias gerais, os
acompanhava. De bicicleta.
         Um dia, prometi ao Bco que ainda iria cumprir com ele todo aquele longo e cansativo
percurso. Treinei como uma louca, s sete da manh, todos os dias, no Ibirapuera, entre maro e
abril de 1993. Nuno Cobra, preparador do Ayrton, me assessorava. Eu ia lhe fazer uma surpresa,
no dia em que ele voltasse de mola para a casa do Algarve. Fiquei lhe devendo essa.
         Damon Hill, Michael Andretti - que durou pouco na Frmula 1. Para eles tambm Ayrton
tinha palavras de amizade. At onde eu saiba, pelo alemo Michael Schumacher ele mantinha, de
incio, s indiferena. Por uma nica vez, recordo-me, estivemos lado a lado, Ayrton, eu,
Schumacher e a mulher dele, uma alem loira e bonita. Num show da Tina Turner - outra paixo
do Bco -, na Austrlia, logo depois do GP de Adelaide, em 1993. Trocamos uma apresentao
rpida e meia dzia de palavras. No havia intimidade possvel com um sujeito que passou um
show trepidante como quem estivesse assistindo a um concerto de cmera em Salzburgo. Na
temporada de 1994, quando o Benetton de Schumacher comeou a dar um suor no Williams de
Senna, nem assim Ayrton falava dele. Preocupava-o apenas o desempenho de sua prpria
mquina, e ponto final. Jamais se importou com aquele que chamava, secamente, de "o alemo"
ou, ao p da letra, "o sapateiro".
         Alain Prost, sim, era uma pedra no sapato, ou na sapatilha. A crnica de seus duelos com
Ayrton nas pistas vai permanecer na histria do automobilismo. De parte a parte, ficaram
ressentimentos, queixas, acusaes de jogo sujo - e Senna, que odiava perder, teve de amargar o
tetracampeonato do rival logo naquela temporada em que vivi intensamente ao seu lado. Com
Prost, chegou a ser uma relao de tipo mudar de calada, quando um via o outro. Mesas
distantes em restaurantes, nos anos negros da hostilidade. At os garons tremiam. Mas o tempo
foi curando as feridas. Num magnfico restaurante em que jantvamos em Milo, setembro de
1993, antes do GP de Monza, com o Braga, o tio Papagaio, alis, Galvo Bueno, e esposa, a
tenista Monica Selles e a me, o Julian Jakobi e sua adorvel mulher, Fiona, de repente Prost em
pessoa veio a nossa mesa. Ayrton gelou, mas o pior j tinha passado. Prost estava, isso sim, mais
 vontade: afinal, naquele ano o campeo foi ele, no o seu eterno rival.
         Meu sexto sentido indica, porm, que a rivalidade dos dois tinha o tempero de um
enorme respeito. Haviam dividido, no sem algumas farpas, o mesmo boxe, o mesmo team, o
mesmo staff da McLaren por dois anos. Alain Prost era algum - quando "o francs" vinha 
baila, numa conversa entre amigos, uma certa cerimnia se impunha, a no ser quando Ayrton
queria gozar a incompatibilidade dele com as chuvas e pistas molhadas. Prost desafiava Senna,
Senna desafiava Prost, e foi essa estimulante competio, interrompida na temporada de 1994
com a aposentadoria do francs, que produziu aquele dilogo entre os dois, incrvel, s vsperas
do desastre de Imola. Quem assistiu ao abrao, como o Braguinha, custou a acreditar. Senna foi
alm:
         - Estou sentindo a sua falta - disse ele a Prost, em ingls.
         A parte francesa dessa linda reconciliao entre as duas feras se traduziu no choro sincero
de Alain Prost, diante do esquife do ex-rival. Falou-me, aps o funeral, que ele tambm tinha
morrido um pouco, junto com Ayrton Senna. Parecia meio deslocado naquele ambiente soturno
e distante do Cemitrio do Morumbi. Com a mo no meu brao, disse um comovido "conte
comigo".
         Houve um adversrio de verdade na vida e na carreira de Ayrton Senna. No se pode
esperar palavras de rancor e dio de quem lia a Bblia como ele, mas acontecem situaes de saia-
justa que dizem tudo. s vsperas do Grande Prmio no Estoril, fomos num grupo grande
experimentar aquela maravilha da cozinha portuguesa que  o restaurante Porto Santa Maria, na
praia do Guincho, diante daquelas escarpas do cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa.
Coisa dos deuses. Encomendado com antecedncia pelo nosso anfitrio, o Braga, um linguado ao
forno, cozido dentro de uma casca de sal grosso.
         Chegamos e o maitr nos levou a uma mesa voltada para aquele mar e para aquele
horizonte de onde, sculos atrs, uns malucos portugueses, a bordo de casquinhas to frgeis
quanto os carros de Frmula 1, foram descobrir novos mundos. De repente, o Ayrton, sempre
ligadssimo, parou:
         - Aqui, no. Vamos para outra mesa, bem longe. Fincou p, os outros convidados
perplexos. Mas me sussurrou ao ouvido:
         - O indivduo est a.
         A palavra, aqui entre ns, no foi propriamente indivduo. Imaginei que era o Prost. Nada
disso: o indivduo atendia pelo nome de Nelson Piquet. A a coisa ficava de fato feia.  intil
voltar a esse assunto, depois do que se passou. Mas o silncio de Piquet, no dia do enterro, foi
significativo - por mais que amigos seus tentem me convencer de que a melhor manifestao de
dignidade dele seria a ausncia. Um dia, quem sabe, eu me convena disso. Hoje, no.
         Tenho, a propsito, uma bela lembrana gravada na memria. Conheci, no circuito da
Frmula 1, um garotinho lindo, de uns 5 anos, acredito, que tinha uma especial venerao pelo
Ayrton - e a amizade era recproca. Circulava pelos boxes, antes das provas, levado pelas mos de
sua me, Sylvia, uma holandesa habitue dos pitlanes. O garoto se chama Nelsinho. Nelson
Piquet Jnior.
        Mulheres so figurantes. J na minha primeira viagem aos bastidores do circuito, em
Mnaco, a Frmula 1 me ensinou essa lio. Sem meias palavras. O jogo  viril, o combustvel
fede e as estrelas fazem xixi em p. Mulheres, namoradas, amantes enfeitam o cenrio com seus
rostinhos bonitinhos e corpinhos apetitosos. Se quiserem um papel menos subalterno, que tratem
bem de seus companheiros - em casa:
        Digo sem ressentimento, porque do meu namorado eu tinha o que queria: amor, ateno,
carinho, mos dadas, acesso a setores proibidos, beijos roubados atrs dos boxes. ramos o casal
in love por excelncia. Mas que  diferente da Frmula Indy, por exemplo - pelo menos da
Frmula Indy como se v na TV -, no h a menor dvida. Na Indy, mulheres permanecem nos
boxes, cronometram o tempo, torcem, vibram e pulam no pescoo de seus heris vitoriosos. Vo
vestidas para a festa, naquele estilo faroeste: botas, chapeles e cabelos de mechas.
        Na Frmula l, o figurino  jeans, camiseta e tnis. E os primeiros roncos dos motores
espaventam as companheiras. Elas se metem nos motor homes, para assistirem pelos monitores,
somem nos camarotes dos patrocinadores, recolhem-se ao decorativo dever de coadjuvantes,
como aqueles gr-finos falsos das novelas do Gilberto Braga. Algumas, cansadas de fazer a
bonequinha de luxo, nem comparecem aos autdromos.
        Vi o chefo da McLaren, Ron Dennis, cortar um dia as asinhas da mulher de Michael
Andretti, a Sandy, por sinal bela figura. Acostumada aos hbitos da Indy, ela achou que poderia
extravasar sua emoo perto da pista. Em compensao, a Frmula 1, quando as mquinas se
calam,  um dos lugares de maior densidade ertica do planeta - paqueras e tietagens explcitas.
No por acaso, alguns pilotos de GP trocam de mulheres como trocam de pneus. Eu disse:
alguns.
        Mnaco  um principado. Nada combina melhor com um conto de fadas. E, para no
perder a atmosfera de sonho e nobreza, ainda demos, depois, ele e eu, uma rpida esticada em
Londres, para compras e business. Braga, que conhece tudo, me jurara:
        - Voc vai amar.  uma cidade adorvel.
        . S que pegamos Londres naqueles seus dias mais caractersticos: frio e chuvinha
mida. Achei os ingleses com uma cara amarga. Era s uma primeira e enganosa impresso, pude
descobrir depois. Ficamos no Berkeley, bem no centro, perto de Knightsbridge. Tentamos assistir
ao Fantasma da pera - era o som ambiente de todos os vos, no nosso avio. Estava esgotado.
Esgotadssimo. Nem um piloto da McLaren conseguiria ingresso. Nem um Ayrton Senna.
Comprar, com meu namorado, era uma maravilha. Rpido e rasteiro. Sabia o que comprar e onde
comprar. Cintos e sapatos. No Bruno Magli. Programa gastronmico, com Adriane Galisteu, era
uma maravilha. Rpido e rasteiro. Sabia o que comer e onde comer. Resultado  que acabamos
arrastando a resignada Betise at o McDonald's, para que ela pudesse escrever uma matria com
ele. Ayrton falava e comia. O gerente o reconheceu: "Mr. Senna, one more". Oferta da casa. Ele
agradeceu e esticou rapidinho para mim.
        Nossa primeira viagem internacional incluiu uma vitria, muita alegria e muito amor. Era
hora de voltar  realidade - e, por mais que eu tivesse certeza de meu amor, no tinha a menor
certeza de que realidade seria essa. Mas o prprio Bco - eu j podia cham-lo assim, sem medo
de parecer abusadamente ntima - me deu uma dica e uma lustrada na vaidade:
        - Quero voc sempre assim como voc .
        - O que voc quer dizer com isso? - vacilei.
        - Por favor, no mude jamais. Se eu tivesse que lhe pedir alguma coisa, seria ser
exatamente o que voc . S no precisa tomar tanta Coca-Cola, freqentar tanto McDonald's e,
agora, falando srio, acho que voc deveria estudar ingls.
        Senti que estava implcito, ali, o convite para acompanh-lo no circuito internacional. Foi
o avio tocar o cho em Cumbica, dia 26 de maio, e eu corri para festejar com a minha melhor e
mais incondicional confidente, minha me: - Foi um sonho!
        Olhando com os olhos de hoje, entendo que houve uma conjuno favorvel: meu
primeiro giro no exterior com ele seria o mais gostoso de todos. Porque depois as coisas se
complicaram na pista, surgiram problemas na McLaren, as vitrias escassearam, a tenso cresceu
e por mais que ele me pedisse, me implorasse, "me ajuda a separar minha vida profissional da
minha vida pessoal", voc sabe que nem sempre isso  possvel.
        - Quando estou com voc, eu me esqueo dos problemas - recostava-se ele em mim. Da
mesma forma, com ele eu me esquecia de meus problemas.
        Minha carreira de modelo eu no tinha como abandonar. Contas a pagar, um reforcinho
aqui e ali no oramento domstico da mame... Reapresentei-me na Elite e voltei  ciranda dos
testes. Mas uma transformao tinha acontecido na minha vida. Definitivamente, mudei de
turma.
        Mesmo quando o Bco viajava sozinho, a negcio ou para correr, como aconteceu logo
depois, no GP do Canad, dia 13 de junho, era com o Leozinho Senna que eu ia jantar, com a
patota de Angra, sob a estrita vigilncia dos amigos dele, da velha camaradagem de Santana e da
Vila Maria. Ao Lo, por exemplo, quantas vezes eu no emprestei meu ombro, para ele chorar
suas dvidas. Gosto ou no gosto da Luciana? (Luciana Sargologos, uma morenona imponente,
tinha sido namorada dele por muitos anos.) Sentia-o completamente diferente do irmo. Mas
gostava dele. E da Sonaly, outra modelo da Elite, um metro e oitenta de mulher que passou a
acompanh-lo em nossas jornadas de Angra. Era eu que fazia o supermercado, que ia ao Santa
Luzia fazer as compras do apartamento da Paraguai. Lo e eu ramos confidentes. Para mim,
nada melhor para definir uma genuna amizade. Aos 21 anos, j aprendi da vida que amizade 
um produto muito mais raro do que parece ser.
        Para ns, o que Angra era no Brasil, o Algarve era na Europa. H dois anos e meio
Ayrton fazia daquele cantinho ensolarado do sul de Portugal o seu mix de refgio e escritrio ao
longo de toda a temporada europia - que, com uma ou outra alterao de calendrio, coincidia
com o perodo mais agradvel de final de primavera, vero e comecinho de outono. De mais a
mais, as frias escolares brasileiras, em julho, sempre davam chance para que a famlia, ou parte
dela, se achegasse - como aconteceu em 1993. Pude curtir meus primeiros momentos de
verdadeira intimidade com a Zaza, me dele - a quem eu ainda tratava pelo cerimonioso "dona
Neide". Intimidade  isso: caf da manh juntas, preparar na cozinha uma comidinha especial
para o filho, sair s compras com ela e a Juraci, a caseira. Viver essas coisas banais do cotidiano.
Viviane, a irm mais velha de Ayrton, apareceu com as meninas, Bia e Paulinha. Bruno ficou com
o av na fazenda de Tatu, treinando no seu kart.
        Pude sentir, nas palavras trocadas  mesa ou  beira da piscina, o que o Bco significava
para eles: o xod, o filho vitorioso, o arrimo, o eixo, quase a motivao de cada uma daquelas
vidas. Uma mulher a mais, uma namorada, seria sempre uma ameaa  ordem natural da rotina
familiar, um perigo. Namoradinha, que fosse - mas que no passasse da. Isso eu vejo agora. No
pela cabea naqueles dias, naquelas semanas. Eu s sabia repartir com eles, o Bco e a famlia,
coisas boas.
        Por exemplo, a vontade sbita de fazer umas comprinhas em outras cidades da Europa.
O jato do Bco estava quase sempre disponvel, nos intervalos entre as provas e l fomos ns, a
me, a irm e as crianas para uma temporada de aquisies em Londres. Sendo que, uma tarde,
saindo s ns duas, Bia e eu, ela simplesmente evaporou, dentro da Harrods. Eu, desesperada,
descabelada, procurando. Nada. Perguntei por ela, no meu ingls estropiado. Nada. Fui at a
porta. Nada. Meu desespero me obrigou a uma ltima sada:
        - Biiiiaaaaaa!
        Dei um berro que toda a gigantesca loja de departamentos ouviu.
        Inclusive ela, ainda bem. Calmamente, experimentava roupa num daqueles provadores.
        Prxima escala: Paris. Desembarcamos no hotel e samos em disparada,  procura de um
txi. Estava tudo estranhamente calmo. O porteiro nos deteve:
        - Mesdames, vocs sabem que dia  hoje?
         14 de julho, feriado nacional. Tudo fechado. E s tnhamos mais um dia. Samos assim
mesmo, lambendo as vitrines. Conseguimos descobrir duas lojinhas antipatriticas: uma de
perfumes, outra de cristais.
         Bco foi nos encontrar l, j a caminho dos testes do GP da Alemanha. Abriu nossos
quartos e quase desmaiou:
         - Vocs esto malucas?
         Teve a pachorra de contar: 38 malas, para quatro mulheres. O paciente Mahonney
conseguiu acomod-las, todas, no avio. Posou, antes, para uma foto que mostrasse toda aquela
bagagem. Simpaticssimo personagem, do qual sentirei falta, o Mahonney. Lembro-me de que ele
reclamava apenas de uma coisa: de to prximo do Bco, nunca ningum se lembrara de
fotograf-los juntos, piloto e piloto. Soube, aliviada, que s vsperas do acidente fatal em mola a
foto foi feita.
         Mas o convvio em Mnaco, a ss, tinha feito to bem que no nos cansvamos de
planejar novas viagens, apenas os dois. Dentro da temporada de Frmula 1, eu tinha um sonho
pessoal: Hungria. Ptria dos meus avs maternos, Alexander e Agnes, emigrados para o Brasil
durante a guerra - uma terra de referncias reais e mitolgicas cujas histrias e cuja lngua
freqentavam os almoos domingueiros em nossa casa. Minha me, minhas tias, todas falavam
hngaro  mesa, mas no me dei ao trabalho de aprender aquela lngua arrevezada, to diferente
de qualquer outra falada na Europa. S de molecagem, extra de meu av dois ou trs palavres
horrveis. Lembro-me tambm de minha av, atrapalhada ao me ver queimar a lngua numa
daquelas sopas tpicas e escaldantes, gritando para mim "fujjal, fujjal" (soava como fui, fui).
Traduo: "sopra, sopra".
         Devo com certeza a essas domingueiras hngaras na Lapa minha paixo por doces, que
at hoje tenho de compensar com quatro horas dirias de ginstica e no me deixam tirar o olho
da balana.. Mas tambm quem haveria de resistir quelas panquecas folheadas de ma que
aterrissavam  mesa aps o gulash? Pelas minhas melhores lembranas familiares, por minha av,
especialmente por minha me  que acabei desembarcando em 12 de agosto de 1993, uma quinta-
feira, no aeroporto de Budapeste, tendo a meu lado um homem a quem todos se dirigiam com
um afetuoso sorriso e palavras incompreensveis.
         - Por favor, o que eles esto dizendo? - implorava Ayrton.
         - No tenho a menor idia.
         - Mas nem muito obrigado voc fala?
         - Nada, nadinha.
         No Hotel Kempinski, uma magnfica construo ainda com cheiro de novo, confessei-lhe
meu verdadeiro conhecimento de hngaro. As tais palavras. No  que ele passou horas
treinando, para o caso de ter de us-las?
         - Se o Prost me aprontar uma, eu tasco o palavro nele - brincou.
         Quem estava em Budapeste era o Senna, a trabalho, s voltas com as dificuldades de seu
carro e a fora de seus rivais. Mas, ainda assim, teve comigo, em vrios momentos, o doce Bco,
comportando-se de forma a deixar claro que aquela viagem era uma homenagem a mim - alis, ao
nosso amor. Desdobrou-se para passear a meu lado, mos dadas como dois namorados, s
margens do Danbio, que separa o pedao Buda da parte Peste da capital. Depois, deixou-me
entregue aos cuidados de dois amigos extraordinrios, Christian Schues e a mulher dele, Birgit,
filha do ex-presidente da Volkswagen brasileira, Wolfgang Sauer. Os dois levavam com eles os
filhos Patrick e Oliver, bem pequenininhos.
         Budapeste foi uma temporada de alegria, mas foi essa mesma Birgit quem me acudiria no
pior momento de minha infelicidade, menos de um ano depois. Sua mo forte, agarrada  minha,
evitou que, por muitas, muitas vezes, eu desabasse por terra, numa sinistra quinta-feira de maio
de 1994, diante de uma cova rasa do Cemitrio do Morumbi.
         Christian e Birgit me mostraram Budapeste, lindssima, e arredores, enquanto Senna
sujava suas mos de graxa em Hungaroring. O casal tinha, na verdade, uma concepo to
generosa de hospitalidade que aceitou revirar a cidade dos ps  cabea at que eu encontrasse,
finalmente, numa pequena feira livre de rua, as sementes de papoula - mak - que minha me havia
encomendado, para seus confeitos. Juntas, Birgit e eu conseguimos achar um McDonald's em
Budapeste. Com Chicken McNuggets no cardpio, batata frita e torta de ma. Christian, o
marido de Birgit, me olhava com aquela pacincia que sugere "meu Deus, um dia isso passa".
Compensei o McDonald's, que seria uma decepo para minha me, na noite de sbado, vspera
do GP: fomos todos jantar num restaurante tpico, uma casinha simptica, amarela, cuja dona era
uma velhinha, conhecida do Bco.  sobremesa, um palacinta (pronuncia-se plotchint), uma
panqueca de cereja, deu ao meu paladar um sabor de saudade.
           A McLaren do Ayrton quebrou, no domingo, eu tive o ensejo de extravasar meu
limitado vocabulrio hngaro, aquele, em voz alta, mas, se o Senna era o tipo do cara que odiava
perder, o Bco at que estava bem descontrado no jantar solene oferecido pelas autoridades do
GP aps a prova. E a melhor testemunha  aquela foto nossa, juntinhos, ele com seu sorriso
lindo, ouvindo, os dois, embevecidos, o violino cigano  entrada de um restaurante. Foto de dois
namorados. ramos dois namorados.
         Ele era um viajante capaz de ganhar em milhagem do executivo de uma grande
multinacional. No entanto, chegou a me dizer, certa vez, com alguma amargura, que no conhecia
nada do mundo:
         - No fundo, sou um homem caseiro.
         Conhecia pouco de Londres. Mas sabia de cada curva de Silverstone e Brands Hatch.
Frankfurt, s de passagem. Hockenheim, em detalhes. Era capaz de se perder em Milo, mesmo
se o deixassem ali perto do Duomo. Mas de Monza tinha um mapa completssimo em sua cabea.
         Seu universo era circunscrito dentro das milhas onde mquinas voavam desafiando os
limites da velocidade. Ayrton Senna, desde pequenininho, no veio ao mundo a passeio. Sua
rotina era chegar sempre quatro ou cinco dias antes da prova, mergulhar numa saraivada de
reunies, meter-se debaixo do carro, como se fosse um mecnico iniciante e no uma estrela, e
buscar, nos testes, na pista, sua prpria superao. Por isso, ele foi o melhor. Mas, a, de repente,
ele era capaz de surpreender:
         - Que lugar voc gostaria de conhecer agora? - me perguntou ele, de volta da Hungria.
         Tive uma certa vergonha de confessar:
         - A Disneyworld.
         - Puxa, voc sabe que eu tambm?
         Que uma meninona de 20 anos que se amarrava em Coca-Cola e Big Mac tivesse uma
fantasia juvenil, era compreensvel. Mas no pude deixar de rir da imagem de um tricampeo do
mundo de automobilismo caindo nos braos da Minnie e do Pateta. Combinamos de ir, este ano
de 1994. Infelizmente, a Minnie e o Pateta no tero a chance de conhecer o homem mais
adorvel do mundo.
         - O que voc ganhou dele ningum mais vai ganhar: seu amor.
         Assim me tenta dar coragem, em suas cartas e bilhetes, a Bebel, amiga nova dessa fase
ps-trauma, mas como se fosse amiga desde criancinha. - Levanta a cabea, menina.
          o que me bastaria. Mas, no inventrio dos bens me deixado por ele, eu declaro aqui,
publicamente, que ganhei muito mais. Um monto de coisas subjetivas, impalpveis e adorveis.
Um dia, ele me surpreendeu com um presente. Tem gente que vai rir. Eu chorei - de felicidade.
         Voltei da Hungria para a casa de minha tia. As coisas na minha vida ainda andavam
desorganizadas: casa, trabalho, planos para o futuro imediato, tudo meio embaralhado. Um plano,
eu tinha, bem banal: comprar um carro. Tenho anotado na minha agenda, dia 17 de agosto de
1993, um elenco de nomes de concessionrias. Fui  luta. Vi um Uno Mille prata, 1991, usado
portanto, mas bonitinho, inteirinho. Tinha dinheiro para pagar. Coisa de macho: Ayrton achava
que eu no tinha competncia para saber se o carro estava mesmo no ponto. Eu batia p: est
tudo em cima. Ele despistou:
         - O Alfredo, que trabalha aqui comigo, tambm andou vendo um carro, d um tempinho.
        No podia dar tempo algum. Tinha nsia de sair dali j no meu carro. S que, vendo que
havia um Ayrton Senna nas proximidades, o dono do Uno fez a gentileza: eu dava uma parte do
preo, ele me dava dois dias de prazo. S ento a gente fechava definitivamente o negcio. Olhe
s o que dizia o meu horscopo do ms de agosto, recortado de uma dessas revistas: "A vontade
de independncia ser to grande que vai se irritar com as pessoas que tm maior poder de
deciso sobre sua vida. Aproveite este ms para baixar a cabea de vez em quando, mesmo que
seja para fazer valer sua vontade. Voc pode perder uma batalha mas pode ganhar a guerra".
        Dia 19, prazo vencido. Ayrton me convida para passar no escritrio. s seis e meia da
tarde. Subi direto para a sala dele, o Alfredo no estava. Ele, "calma, calma". Alfredo, enfim,
aparece, decepcionado:
        - Desculpa, Adriane, mas no deu certo. Trouxe um outro, mais velhinho, mas garanto
que est bom de motor.
        - Bela proposta - ironizei.
        Descemos. Esperava por mim um Uno Mille Electronic zero, prata, igualzinho ao que eu
queria comprar. Com um buqu de rosas no cap e o detalhe da chapa: DRI 7770. S faltava
laarote e papel celofane.
        - Isso  um presente de agosto.
        - Mas por que agosto? - estranhei. - No  Dia dos Namorados, no  nada...
        - Por isso mesmo: no tem data nenhuma.  um presente de agosto.
        Enchi o Bco de beijos. Fiquei sem palavras. Entrei como louca no carro e corri para
mostrar a minha me. Liguei tambm para a me dele:
        - Ganhei um carro novinho.
        - Ele me contou - disse a Zaza. - Vem c que eu quero dar uma volta.
        Zaza, Bia, a sobrinha mais velha, e eu, l fomos ns - depois, jantamos todos no
apartamento do Pacaembu. Nosso convvio na Europa me dava a idia de fazer parte da famlia.
A Bia - Bix, eu a chamava - era como uma irm mais novinha. Passamos aquele fim de semana na
fazenda de Tatu e, na volta, acompanhei a Zaza ao shopping. ramos confidentes de copa e
cozinha, do tipo de ficar conversando enquanto se fazem as unhas. Tanto que, depois de levar o
Bco ao aeroporto, no Mercedes dele, naquela noite de tera-feira, 24 de agosto, para Frankfurt e,
de l, para o GP da Blgica, fiz o que achei mais natural: Eu fui dormir na casa dos pais dele, na
cama dele.
        Ayrton voltou do circuito de Spa-Francorchamps bufando com o seu quarto lugar,
sentindo o campeonato escorrer-lhe por entre os dedos. No aeroporto, me, perguntou meio
brusco:
        - E a chave da lata de sardinha, onde est?
        - Lata de sardinha  a v - respondi.
        Ele literalmente fugiu da imprensa, no meu Fiat. Uma dessas reprteres ainda quis
persegui-lo na Marginal, mas algum se esqueceu de que o nome dele era Ayrton Senna.
        Meu carro padecia nas mos dele. Ele tomou gosto em pilot-lo na cidade. Acelerava
fundo, s para me provocar. Na verdade, ele no era Ayrton Senna no trnsito, no sentido de que
respeitava os sinais e sabia onde dava para correr e onde definitivamente no dava. S de vez em
quando tinha a tentao de entrar por aquela pista exclusiva para nibus, vazia, duas da manh,
na Avenida 9 de Julho, e pisar como se estivesse na sua McLaren. Era vrrummmmmmmm -
sumia.
        De vez em quando, a booker da Elite ainda saa  minha captura, em desalentados DDI.
Mas at que, um dia, deu certo. Surgiu uma campanha da Idice, uma griffe de jeans. S
outdoors, quatro fotos diferentes, com a garantia do padro Cludio Elizabetsky. De uma das
fotos, eu me lembro: a mulher, no caso eu, com cara de tdio, dizendo: "Homens, eu no tenho
saco". Ao primeiro outdoor que vi, at parei o carro: eu estava irreconhecvel.
        Era apenas uma pausa para o comercial. Dia 3 de setembro de 1993, uma sexta-feira, o
vo 702 da Varig, rota So Paulo-Lisboa, esperava pelo casal Ayrton Senna Adriane Galisteu,
outra vez. S que a escala em Portugal ia me preencher uma saudvel curiosidade, reforada pelas
caronas que eu costumava pegar nos longos telefonemas trocados pelo Bco com seu paizo de
adoo, o Braguinha.
         - Luiza est louca pra conhec-la, garotinha - dizia o Braga.
         Ele, eu vivia vendo, nas curvas e retas dos curcuitos. Mas, conhecendo-o como o
conhecia, sabia que a Luiza s podia ser o amor que . Desembarcamos em Lisboa e seguimos
para esse meu esperado encontro na Quinta da Penalva, onde mais uma vez nos instalamos,
escala estratgica e afetiva antes de mais um GP, o de Monza. Na "Casa do Ayrton", como a
apelidara o Braga, ficamos ele e eu, e Galvo Bueno e mulher, a Lcia. Meu tchans com a Luiza
foi imediato. Enquanto isso, os homens discutiam coisas serissimas, como o desejo de Ayrton
Senna, j declarado entre quatro paredes, de deixar a McLaren. Como ainda era vero e mesmo
ali no alto da aldeia de So Pedro de Sintra o sol costuma dar o ar de sua graa, as conversaes
podiam prosseguir, de repente, num relaxante mergulho e numa hilariante sucesso de piadas,
sempre puxadas pelo tio Papagaio.
         Luiza no nos acompanhou a Monza,  prova, mas a Milo, sim - assim como no nos
acompanhara antes e assim como no tinha a menor inteno de nos acompanhar em qualquer
outra corrida, nem ao Estoril, a seis quilmetros de sua quinta, to perto que d para ouvir de l
os roncos dos motores. Explicava:
         - Fico nervosa demais. Pela televiso  mais tranqilo. Sabia o que ela estava falando. Eu
tinha assistido ao que se pode chamar de stress de corrida em Hockenheim, em agosto. A me do
Bco assistiu a toda a prova de p no auge de sua tenso, no se sentou um minuto sequer.
Murmurava rezas sem parar. Viviane se segurou numa cadeira. Fechava os olhos e tambm orava.
Respeitava a f de ambas, embora evitasse participar das cerimnias de bnos, que podiam
demorar vinte, trinta minutos, a que a irm submetia o Bco, s vsperas de algumas provas. Uma
coisa de culto, meio xtase, meio orao. Parecido com o que o pai do Lalli, pastor evanglico,
ministrou na manh do velrio - de novo, sem minha presena.
         Foi aquele GP da Alemanha de 1993, alis, que o Ayrton perdeu porque calculou mal o
abastecimento de combustvel. Frustrao e nervosismo to grandes para a famlia que, a partir
da, a Zaza e a Viviane aderiram tambm totalmente  telinha.
         Do GP em Monza ficaram coisas para no se esquecer. O magnfico hotel s margens do
lago Como. A torcida inesperada da Monica Selles, isso a, a tenista, uma gracinha, ainda
traumatizada com a violncia que tinha sofrido na quadra, uma punhalada pelas costas. Ela e a
me foram dar uma fora ao Ayrton no motor home - encontro de f com f, diga-se, j que o
Ayrton, que batia um bolo no tnis, admirava o estilo desabusado dela. Lembro-me tambm da
nuvem negra que o Ayrton saiu carregando sobre a cabea, ao final de uma prova que
abandonou. Olhem que eu conhecia o mau humor do moo, hein?! Mas naquele dia, j noite, ele
se superou. Foi do autdromo ao hotel sem dizer uma nica palavra. Subiu direto para o quarto.
Requisitou o room service. No me perguntou nada - simplesmente escolheu um jantar para ns
dois. Mas o hotel estava em festa e, apesar de tudo, l de baixo gritavam: "Senna, Senna".
         Ele se derreteu como um sorvete fora da geladeira:
         - Mas eu perdi! Como so loucos esses italianos.
         - Loucos por voc, disse.
         Uma histria posterior, de Ferrari, aposentadoria, sei l, pode ter se consolidado naquele
momento contraditrio de raiva e paixo.
         - T difcil de me agentar? - ele finalmente quebrou o gelo. - Prometo que assim que
sairmos da Itlia eu deixo a tromba aqui no quarto.
         Involuntariamente, ele me dava uma bela idia para um presente: um elefante de pelcia.
Um dia, eu o encontraria. Ele adorou a brincadeira. Naquela noite, levantei-me p ante p quando
ele j dormia, fui ao banheiro e escrevi no espelho, com batom:
         - Bom-dia! Sorria!
        Desenhei uma boca sorridente, cheia de dentes. Assim como ele fazia campanha junto a
mim contra a Coca-Cola e o McDonald's, eu tambm tinha meus palanques. Convenc-lo de que,
rindo, ele ficava mais bonito. De que cabelo um pouco mais compridinho lhe caa bem. De que
de quando em quando valia a pena comprar uma roupa diferente daquelas que ele recebia no
automtico, por mais bonitas que fossem, presentes da Hugo Boss, sua patrocinadora.
        O que eu no suspeitava  de que havia mais coisas entre o cu e a terra do que poderia
ser solucionado com uma carinha risonha. Ayrton Senna, o piloto, estava numa encruzilhada
profissional. As duas semanas de intervalo entre o GP da Itlia e o GP de Portugal, dia 26 de
setembro, significavam dias de agradvel convivncia com os amigos de Sintra, do Algarve e os
camaradas brasileiros desgarrados por l, mas sempre fiis. Marquinhos Magalhes Pinto, que
cuidava do patrocnio do Banco Nacional, iria aparecer. Braga prometia tambm o tenista Cssio
 Motta. Nuno Cobra apareceria, para dar um suporte de corpo e alma. A temporada europia
chegava ao final. Mas, ansioso porque decises importantes estavam sendo ruminadas na sua
cabea, Ayrton entregava-se a exerccios como o de ficar pendurado trs minutos seguidos, pelos
braos, no galho de uma rvore na casa do Algarve. Ele, aquela fortaleza, gemia e tremia.
Apertava o passo nas suas corridas. Mas as idias estavam distantes.
        Imaginem o clima em casa depois da prova em Portugal - Ayrton fora, decepo total. O
jornalista portugus Francisco Santos, habitu das pistas e amigo de longa data do Ayrton, me
recordou que, ao chegar ao autdromo do Estoril, naquele 26 de setembro, Senna trazia a
tiracolo sua 007. Aquela maleta escondia o resultado de duas negociaes que iriam abalar a
Frmula 1. Primeiro, o contrato j acertado do piloto brasileiro com a Williams. Segundo, e quase
como conseqncia, a despedida de Alain Prost - que saa das pistas com as honras de um
tetracampeonato.
         San Marino, Canad, Magny-Cours, Hockenheim, Hungaroring, Spa-Francorchamps,
Monza, Estoril... A temporada 1993 foi uma frustrao para mim e para meu namorado, j que
ele se acostumara a andar sempre na frente. Ayrton, que saboreava no incio a iluso de que
estaria no preo, foi vendo o campeonato escapar-lhe das mos. A era a tal histria. Percorria
vrios verbetes daquele que poderia ser um dicionrio do mau humor: ranzinza, rabugento, cara
amarrada, ele chegava a ficar horas sem dizer a algum que estivesse por perto nada que no
fosse um implicante sim ou no. Nuno Cobra, que conviveu com ele dez anos e apareceu no
Algarve em setembro de 1993, com aquele sexto sentido de quem sentiu a tempestade e queria
ajudar, foi quem me consolou, didtico:
        - J foi muito pior. Acho que voc est fazendo bem a ele.
        Se era assim, que fosse. E era v-lo voltar de sua corrida diria de uma hora e meia, s
vezes mais - uma rotina religiosa que ele, naquele momento, parecia praticar por dever e no por
prazer -, que eu brincava com o Nuno:
        - Ataca de l que eu ataco de c.
        Batata: o rosto dele desanuviava e no era raro a gente encerrar a brincadeira rolando pelo
gramado ou jogando-se na piscina (at a Zaza, a me dele, o Ayrton teve coragem de empurrar
para dentro d'gua, num dia glorioso de vero).
        Olho para trs e entendo que no podia ser diferente: ele tinha um problemao pela
frente. Ficar na McLaren, ele no podia. Tanto ele quanto o patro, Ron Dennis, em seu silncio
enigmtico, sabiam que no dava mais. Seu timing l estava esgotado. E o futuro? Benetton?
Ferrari? (No incio da temporada de 1994, ele me disse que as duas escuderias lhe dariam trabalho
e a histria confirmou suas previses.) Frmula Indy? Ele odiava aqueles circuitos ovais, embora
tivesse recebido um convite de Roger Penske e pilotado, com a devida licena de Dennis, um
prottipo em Phoenix, Arizona. Confessou ao Braga que era uma besteira. Parar por um ano, dar
um tempo? Na verdade, correu o risco concreto, objetivo do desemprego.
        Imaginem: tricampeo do mundo encostado no INPS da Frmula 1.
        Lembro-me bem: foram seis dias e cinco noites dificlimas, de tenses quase permanentes
que concediam, s vezes, um ou outro intervalo de relax. Nossos adversrios principais eram o
fax, que no parava de vomitar uma papelada que ele lia e relia com a expresso carregada;
o telefone, que sempre cobrava conversas de uma hora, duas horas, s vezes com seu pai, o
senhor Milton, e com o Fbio Machado, no escritrio de So Paulo, mas quase sempre com o
Julian Jakobi, que cuidava dos interesses profissionais dele na Inglaterra; e o tempo - a dvida, a
espera, a indefinio o exasperavam mais at do que as derrotas que lhe surrupiavam o
tetracampeonato.
         Marquei no relgio um desses telefonemas DDI. Cinco horas e quarenta minutos. Ele
estava tenso e o que eu ouvia, de passagem, era:
         - Mas, Frank... Veja bem, Frank...
         Ele no comia. Tentava beliscar uma saladinha, mas batia com o garfo na mesa, com fria
inexplicvel:
         - Deve ser o francs... O francs...
         Nem perguntava nada - sozinha ali com ele, no queria botar lenha na fogueira. Dormir,
ento, nem pensar. Ele vestia o pijama e, sem mais delongas, comeava a distribuir as cartas para
um jogo de tranca que, pressentia eu, iria varar a madrugada. Quando a famlia estava no Algarve,
costumvamos jogar, ele e eu em dupla, contra a Zaza e a Bia, a sobrinha mais velha.
Adorvamos trapacear. Agora, s os dois, ele casmurro, sem dizer nada, eu tentava desanuviar o
clima - roubava pra valer. Ele estava to entretido em suas prprias encucaes que no percebia.
amos dormir com o canto dos primeiros galos.
         Mas tnhamos um aliado nessa briga contra o profissional que no tirava o uniforme, um
nico e solitrio aliado, que, por estranho que parea, era ele mesmo - ele em seus doces
momentos de Bco, acordado subitamente do ronco dos motores para os sons da vida que
desfilava, convidativa,  sua frente, comigo, diante daquele paraso que era a casa do Algarve.
         - No liga, no - pedia-me ele, como gentil penitncia. - Espera por mim, fica por perto,
me serve de travesseiro, que eu preciso de voc.
         - Ento me d um nico sorriso - pedia eu.
         Ele ria da crianona que eu no conseguia disfarar. Aquele sorriso me bastava. Eu tinha a
pacincia do mundo para esperar que o Bco triunfasse sobre o Senna. Nunca fui daquelas
mulheres impertinentes que, ao ver o marido amuado, perguntam: "Benh, em que que voc t
pensando?" O amor que prevalece  aquele em que h uma troca desinteressada e espontnea. Se
houve, alis, segredo numa relao que durou catorze meses e duraria a eternidade - eu no estou
brincando com isso - foi que eu pude lhe emprestar muito da minha jovialidade molecona e ele
me ensinou virtudes como o respeito  privacidade, a dedicao incondicional e o silncio
providencial, coisas que s a maturidade conhece.
         Bom, tudo isso a  uma teoria, mas no passaria de uma linda explicao se tambm no
rolasse entre ns roar de pele, toques, beijos, plos, msculos rijos, teso, amor e sexo -
desculpem o sbito e indiscreto entusiasmo dessa revelao, mas ramos um casal de qualidade e
de quantidade, vocs me entendem, no entendem?
         Ento, merecamos uma lua-de-mel, no merecamos? No conheo caso de mulher
nenhuma que tenha dormido tanto, antes de uma lua-de-mel. Mas, o durante, fora um
pequeno incidente gstrico do noivo, foi daquelas coisas para no se esquecer nunca mais. Do
lugar  conta do hotel - esta, tambm, literalmente inesquecvel.
         Para culminar, tiramos nossas frias s de amor entre o GP do Japo, em Suzuka, e o GP
da Austrlia, a ltima corrida da temporada de 1993. Tudo, ou quase tudo, at ento, dera errado
para o Ayrton. Pois no  que, no embalo da lua-de-mel, antes e depois, a mar virou? Lua-de-
mel em dose dupla. Vitria em Suzuka, apesar de um probleminha com um iniciante que logo
vou contar. E, em Adelaide, ltimo GP em que Ayrton vestiu as cores vermelha e branca da
McLaren, ele foi de novo o primeiro do pdio. Fim de temporada, vice-campeo do mundo, 73
pontos. Cinco vitrias. Para meu namorado, era pouco.
         Em outubro, porm, ele j parecia estar de novo de bem com a vida. So Paulo, amigos,
festas, fazenda. Props at que eu tirasse meu visto para os Estados Unidos, porque, quem sabe,
um dia, aquela histria da Disneyworld... Estvamos to prximos que fui levando
gradativamente minhas coisas, da casa de minha tia para o apartamento da Rua Paraguai. Tipo
mudana mesmo. Levei-o e o busquei de uma rpida viagem de negcios a Miami. Eu o recebi
com um brinquedo-papagaio, desses que repetem o que voc diz. Presente do Dia das Crianas.
        Prxima parada, Japo. Sa de So Paulo sozinha, via Los Angeles, no sbado, 22 de
outubro. Desembarquei em Tquio na manh de segunda, 24, horrio local. Botei a, de
propsito, a palavra sozinha porque o Japo j tinha ameaado entrar na minha vida aos 14 anos.
Modelo, um convite, aquelas coisas. Minha me foi decidida: "Muito menina. No vai, e ponto
final".
        Enquanto eu voava, agora nas asas da Varig, ele voava dentro de seu McLaren. Ficaria
mais alguns dias, por compromissos de negcios e para saborear a repercusso da vitria. Sua
carreira no automobilismo sempre fora salpicada de griffes japonesas e pontuada por
profissionais japoneses. S um exemplo: a Honda. De 1987, na Lotus, a 1992, na McLaren, os
motores Honda foram seus parceiros nas inmeras vezes em que subiu ao pdio - sem falar de
seus trs campeonatos mundiais, em 1988, 1990 e 1991. Osamu Goto, inspirador do vitorioso
projeto Honda F1, ganhara do difcil Senna um total respeito por sua competncia. Soichiro
Honda, o boss da companhia, gostava de marcar presena nos eventos sociais da Frmula 1.
Quando Akimasa Yasuoka anunciou ao final da temporada de 1992 que a Honda no queria mais
gastar milhes de dlares na Frmula 1 - Ayrton me contou que foi um dos que choraram, junto
com tantos mecnicos japoneses.
        Continuou em 1993 recebendo toneladas de cartas de fs japoneses - tinha uma enorme
legio de adeptos, torcedores, amigos no pas. Escrevia uma coluna no Tokyo Chunichi Sports, o
jornal esportivo de maior tiragem. Sem se esquecer de que a admirao sempre foi recproca.
Muitas vezes, quando nos aventurvamos por ilhas desconhecidas da baa de Angra, trilhvamos
caminhos arborizados quase selvagens, atravessvamos inesperados riachos, Bco gostava de
dizer:
        - Bonito, n? Pois , me lembra o Japo.
        Angra  um dos poucos santurios da mata atlntica.
        Um botnico diria que no tem nada a ver, absolutamente nada, com qualquer paisagem
do Japo, talvez apenas um ou outro lugar bem ao sul do arquiplago japons. Ainda assim,
Ayrton gostava de comparar. Depois de minha viagem, consegui entender por qu, para ele, uma
coisa lembrava a outra. Ele no comparava cenrios.  que beleza chama beleza. Assim era o
Japo para ele.
        Ao se antecipar a mim, em Tquio, em outubro, ele me poupava de formalssimos
jantares de negcio, mas eu ainda cheguei a tempo de recolher o calor humano que o Japo lhe
dedicava.
        Ainda em Cumbica, mal tinha embarcado, a aeromoa me ofereceu uma taa de
champanhe - escolhi um copo d'gua -, comecei a ouvir, j entorpecida, aqueles avisos de afivelar
os cintos, esperei apenas que a aeronave se estabilizasse na sua altura de cruzeiro, inclinei a
poltrona para trs, fechei os olhos e despertei com o anncio de que, em poucas horas,
estaramos pousando em nossa escala em Los Angeles. Desci a contragosto. Encostei numa
daquelas cadeiras de aeroporto e voltei a ferrar no sono - to profundamente que uma comissria
veio me despertar. Novo embarque, novo desmaio. A bem da verdade, em 28 horas de viagem,
devo ter aberto os olhos e trocado o travesseiro de lado uma meia dzia de vezes, mas foi um
sono s, impregnado de imagens, um entorpecimento de drogado. Ou talvez eu apenas estivesse
muito bem com a vida.
        A realidade, a rigor, s bateu no meu rosto quando, j na confuso do aeroporto de
Narita, sem perder de vista aquele chapeuzinho do cantor Fagner, que eu vira no vo, um guarda
da alfndega resolveu pegar no meu p. Eu j estava nervosa. Minhas malas, cheias de creminhos,
custaram a aparecer. Agora, o guarda queria ver tudo. Falou em japons - eu, nada. "Speak
English?" "No, no." Abriu um livro, enorme, com vrias perguntas em espanhol:
        - Voc tem drogas? Tem roupas para vender?
        Pediu para abrir minha bolsa - aquela Louis Vuitton, enorme, que o Ayrton me deu e que
depois foi roubada em Lisboa. Ah, o guarda tinha o pretexto: uma caixa de bombons de cereja,
da Kopenhagen, que Bco adorava. Criada a confuso: pode, no pode. Um brasileiro veio me
ajudar da forma mais objetiva possvel, em portugus mesmo:
        - Namorada do Ayrton Senna. Senna, Senna. Williams, Williams.
        O implicante me devolveu logo a caixa de bombons e saiu correndo para comentar com
os outros coisas incompreensveis, das quais eu entendia apenas "Senna" ou "Brasil". A definitiva
salvaguarda estava assegurada por um sorriso familiar e um cabelinho espetado que me aguardava
do lado de fora. Norio, o fotgrafo particular do Ayrton, fora me esperar. Animado, sacudia uns
jornais japoneses que para mim eram grego. Mas deu para sacar que Ayrton tinha vencido.
Cumprimentei o Norio com um abrao e com a meia dzia de palavras em ingls que ele e eu
podamos trocar. Entrei no txi, senti o acalanto daquela pista sem trepidaes e dormi mais uma
horinha. Era manh de segunda-feira quando o Norio me deixou no hotel Hilton Tokyo Bay.
Bem diante da Disneylndia de Tquio. Era maravilhoso, dava para ver o castelo.
        O manager do hotel chamou dois valeis para me conduzirem  sute, o que me levou a
crer que, em vez de encontrar o Ayrton, encontraria no mximo um bilhetinho carinhoso dele,
"tive compromissos, me espere", por a.
        Abri a porta e meu corao veio  garganta. Essa coisa de adolescente. Ele correu para
mim, me apertou num abrao e me deu um beijo escandaloso. Ficamos conversando na cama,
gigantesca e convidativa, at que, quando percebi, estava sendo despertada por ele:
        - Ei, Dri, pedi uma comidinha pra ns dois... Acreditem: eu tinha apagado de novo.
        J no sabia se era dia ou se era noite, recordo-me apenas de umas pessoas que subiram 
sute para levar uns presentes para o Ayrton. Percebi que todos estavam sorridentes, ele
especialmente, com a vitria. Quando saram, ele me surpreendeu:
        - P, fiz uma besteira.
        - Besteira?
        - , discuti com um irlands louco.
        Em qualquer lugar do mundo, ser sempre uma besteira discutir com um irlands louco.
        - Esse, quem ?
        - Um novato, um moleque. Sem cabea, no sabe o que faz.
        Pedi, excitada:
        - Me conta, vai! Ele desconversou:
        - Lindo esse seu sapato.
        Era apenas um dockside, comprado no Brasil, na Side Walk. Ele definitivamente no
estava a fim de voltar a falar da corrida. Foi timo porque pudemos nos entregar aos assuntos do
amor.
        Dormimos, dormimos - quando acordei, ele j estava de p, ao telefone. Comentou do
meu sono:
        - Nunca vi,  um milagre. Voc no tem fuso horrio?
        - No, meu fuso horrio  voc - respondi.
        Pena que o meu Japo, fora aquelas interminveis horas de sono, tenha durado apenas um
dia. Abri as janelas, vi a paisagem, linda, imaginei as cenas tpicas de cidades que eu s tinha visto
em cartes-postais e me fiz a promessa solene, naquele momento, de voltar. Ayrton ainda tinha
um encontro de negcios, do qual ele voltou com uma lata de biscoitos de morango, com
estampa do Mickey e a inscrio "Disneyworld de Tquio". Redobrei minha promessa de voltar
ali, um dia.
        Passamos o resto do dia juntos, preparando-nos para um jantar formal e importante que
teramos aquela noite. Eu me preocupei porque sabia que teria de enfrentar o desafio dos hashi -
ou seja, comer com pauzinhos. Rosa, minha cabeleireira de So Paulo, a nica pessoa que mexe
nos meus cabelos,  nissei e vrias vezes tentou me doutrinar em favor do sushi e do sashimi e
me ensinar a comer com pauzinhos. Intil. Houve uma poca em que cheguei a pensar em
trabalhar profissionalmente em Tquio, ela teve a gentileza de me dar uma agenda cheia de
endereos, inclusive de um irmo dela: "Fica hospedada l, vai ser mais fcil para voc".
        Acabei me saindo razoavelmente com os hashi, naquele restaurante maravilhoso, do
prprio hotel, mas ao ar livre, perfumado pelos aromas de jardim japons, com acesso entre
pontezinhas charmosas e tortuosos caminhos de pedra. No tive coragem de experimentar peixe
cru, mas me deliciei com um camaro feito na chapa - capturado vivo, enorme, ali mesmo num
aqurio. Eu pensava: "Coitadinhos dos bichinhos". Mas foi a refeio mais deliciosa de que me
lembro em toda a minha vida - disparada na frente at dos meus manacos Big Macs, posso
confessar. Nossos quatro anfitries, todos homens, curvando-se e recurvando-se em gentilezas,
trouxeram de presente uma cmera fotogrfica. Estavam todos muito formais, de terno escuro e
gravata. Todos, inclusive o Ayrton. Quando nos despedimos e subimos para nossa ltima noite
japonesa, a primeira coisa que Bco fez foi arrancar a gravata, com fora:
        - Tenho dio de terno e gravata - disse.
        No  esse, com certeza, em meio a um cenrio de sutilezas japonesas e lembranas
bonitas, o melhor momento para protestar contra um pequeno detalhe do triste dia do enterro de
meu Bco. Mas v l: achei um absurdo, fiquei horrorizada, quando soube que o vestiram com
terno e gravata. Quem sou eu para conhecer - e mesmo para acreditar - alguns mistrios do
universo, mas pensei, com ternura, comigo mesma:
        - Se daqui do esquife ele tiver que se apresentar em algum outro lugar, alguma outra
dimenso, outra esfera, vai ficar furioso em se ver nesses trajes.
        Por favor, que me venham agora s as boas imagens de uma inesquecvel lua-de-mel. A
bem da verdade, a Frmula 1 tem a esperteza de deixar para o final da temporada dois grandes
prmios no Oriente e, entre eles, duas semanas que acabam virando uma espcie de deliciosas
frias antecipadas para aqueles pobres-diabos que passam o ano inteiro se ralando no asfalto das
pistas. At l, o campeonato costuma j estar mais ou menos decidido - como foi o caso do de
1993, com a vitria do Alain Prost. A,  escolher no mapa um daqueles pedacinhos do paraso
sobre a terra, relaxar e desfrutar.
        Antes, Ayrton preferia Bali, na Indonsia - point escolhido pelos pilotos e por alguns
descolados do jet set internacional. Sei at que houve vezes em que no foi desacompanhado. A
conselho de Luiza e Braga e em homenagem a mim, mudou de rota. Bora-Bora, um recanto
delicioso no Taiti. Iramos com o Christian Fittipaldi e a Mariana, namorada dele, mas  ltima
hora eles seguiram a trilha mais prxima para Bali. Quando digo homenagem a mim,  para valer.
Bco odeia esse entra-e-sai de aroportos e era o que esperava por ns. Tquio-Wellington, na
Nova Zelndia. Wellington-Papetee, no Taiti. Dali, num aviozinho at Bora-Bora. Enfim, um
barco at o hotel que tnhamos reservado e que ficava numa ilhota isolada. Milhas e milhas de
vo. Bota sacrifcio nisso. Mas estvamos felizes:
        - Ns dois sozinhos.  uma loucura.
        A sada dele de Tquio indicava tambm que se refugiaria, por alguns dias, de um
problema. Aquele "discuti com um irlands louco" ao qual ele tinha se referido, rapidamente, na
verdade foi bem alm daquilo. Irritado porque o Eddie Irvine, da Jordan, lhe fechava a porta para
ultrapassagem, em Suzuka, contrariando o acordo de cavalheiros de que quem est muito atrs
deve deixar passar os primeiros. Mais do que isso, com a arriscada manobra que o prprio Irvine
fez, depois da ultrapassagem de Senna, de retomar a dianteira, o nosso conhecido esquentadinho
s esperou o final da prova para ir ao boxe da Jordan e encher a cara do irlands de pancada.
"Voc no  um piloto,  um idiota", disse Senna, depois de engolir algumas provocaes de
pssimo gosto do prprio idiota.
        Eu conseguia imaginar a cena direitinho, to familiar ela era para mim - a fria, o direto
de direita e as lgrimas posteriores, misturando raiva e arrependimento. Quando Ayrton me
contou em detalhes, muito depois, calminho, ele acrescentou uma nica novidade, a que
mostrava como era verdadeiro o que ele dizia de Irvine.
         - Ele bateu em mim... O Senna me agrediu... O Senna - repetia o pateta da Jordan, como
se o soco fosse um valioso trofu para ele.
         O problema  que a FIA resolveu punir "o agressor" e at no Taiti;  nossa chegada -
enquanto ramos festivamente recepcionados com aqueles tpicos colares de flores, mulheres a
carter, com seus vestidos estampados e ibiscos nos cabelos, e uma orquestra de ctaras e
atabaques -, jornalistas esperavam por ele para falar do assunto. No sei se por causa dos
jornalistas, do colar de flores ou do probleminha com o passaporte dele - ele mostrou o do
principado de Mnaco, vermelho, que eventualmente usava, e achou que no precisava de visto -
, o fato  que deu uma crise de espirros nele, de pura alergia. Pediu desculpas para retirar o colar,
pediu desculpas por desconhecer o tema Irvine-FIA e foi se explicar sobre o passaporte - mas
no h burocracia que no se resolva imediatamente  simples meno do nome Senna.
         Entramos no clima. Sarongues, homens e mulheres descalos e uma delas, lindssima, s
para nos recepcionar e levar ao hotel. Mais um colar, s que desta vez de conchas.  chegada,
mais msica, a surpresa de encontrar, do outro lado do mundo, um gerente brasileiro, o Bernard,
e o deslumbramento de um quarto tipo bangal falsamente rstico, na verdade uma palafita
fincada no mar, cho de madeira, mveis de vime, varanda e, bem no meio do quarto, um
enorme quadrado de vidro mostrando que voc dormia sobre a gua do mar. Um sonho. Bingo:
Luiza e Braga acertaram de novo.
         Quando acordamos no dia seguinte, ele j tinha virado e revirado a programao do hotel,
mas,  claro, elegeu de cara uma. Foi eu acordar e ele j estava preparado:
         - Tem a um jet-ski pra ns. Vamos?
         Sumimos naquela imensido dos mares do sul. Estacionamos numa ilha de areia
branqussima, estranha, com a gua que mudava de tom - azul-claro, azul-turquesa, turmalina.
Dava para ver o fundo do mar. Peixinhos e estrelas-do-mar. De volta ao jet-ski, escutamos, de
repente, um barulho esquisito, de impacto - e ele parou, assustado:
         - Meu Deus, que ser?
         Conseguimos parar numa pedra. Simplesmente a gente estava no meio de uma barreira de
coral. No tinha como tirar o jet-ski dali. Ele achou melhor ir em frente:
         - Vamos tentar passar a barreira de coral.
         - Mas e depois? Pra voltar?
         - Se a gente passar, a gente volta.
         Fomos indo devagar, explorando minuciosamente as brechas, a gua j no era to
cristalina, o cu comeava a fechar, com uma garoinha chata. Resumindo: estvamos em alto-
mar. Vocs tm idia do tamanho do oceano Pacfico? Bom, era do tamanho do meu pnico. O
jet-ski seguia em alguma direo, mas novas emoes teriam de haver, como aquela mancha
negra, enorme, que de repente escureceu todo o mar, abaixo de ns. Ele me tranqilizou: era
uma arraia gigante, como jamais eu podia imaginar existir, mas bichinho inofensivo. Com o jet-
ski, comeou a perseguir a arraia, que, nervosa, dava rabadas na gua. Aquela mania dele de
acelerar. Rodamos, rodamos, rodamos, e alguma mo invisvel e misteriosa nos fez voltar
direitinho para nosso hotel, sem antes a repetio daquela experincia raspa-aqui, engancha-ali da
barreira de coral. A mesma mo invisvel e misteriosa nos poupou de outro probleminha: a cinco
metros do per, acabou a gasolina do jet-ski. Felizmente, estvamos em casa. Em alto-mar, no
tnhamos cruzado com vivalma. Talvez estivssemos at hoje, nufragos, em andrajos, cabeludos,
vivendo em alguma ilhota da Polinsia - o que, para mim, seria o mximo.
           Praia, piscina, vlei, quadra de tnis, restaurante tpico com deliciosos pratos de frutos
do mar e outro, de fast food, butiques de roupas carsimas - o hotel tinha muitas atraes para os
hspedes, quase todos japoneses, e, naqueles dias, a julgar pela quantidade de flashes e pelos
pedidos de autgrafo, um forte chamariz a mais: Ayrton Senna. Como estava ali a passeio e no a
negcios, Bco, arisco, me puxou pelo brao e nos exilamos no nosso delicioso quarto.
Encomendamos uma montanha de vdeos. A pedido dele, fzoca do Dustin Hoffman, vimos
Hook (no Brasil, A Volta do Capito Gancho). Por capricho meu, botei Thelma & Louise. Digo
capricho porque j tinha visto e agora queria ver a reao dele. Senti-o revirar demais na cama:
        - Voc est gostando? - me perguntou.
        - Adorando.
        Volta e meia, ele deixava escapar:
        - Mulherzinha safada... Que mulher...
        E eu me fazendo de desentendida.
        O programa do dia seguinte era imperdvel: dar comida aos tubares. Era o hit do hotel.
Quem acordou primeiro, excitadssima, fui eu:
        - Vamos?
        - No estou muito bem - queixou-se ele.
        Armei-me de um leo de coco especial, que queima legal, de tom avermelhado, bronze
mesmo, da mquina fotogrfica ganha no Japo, e nos metemos num barco, com outros
hspedes. S falar em dar de comer a tubares j era uma descarga de adrenalina total, mas senti
que o Ayrton estava num outro clima. Trs nativos, com aqueles cales da linha fio-dental,
amarraram o barco numa pedra, com uma corda que ficava boiando na superfcie da gua. Cada
um de ns ganhou um snorkel e mscara e a idia era que ficssemos ali, agarrados na corda, mas
com a cabea mergulhada na gua. A emoo ia comear.
        Os nativos mergulham e jogam um determinado tipo de lquido na gua. Junta um monte
de peixes - de cores, tipos e tamanhos diferentes. A, nos do um pouco de carne e o que
acontece  que os peixes vm comer, na nossa mo. O Ayrton tinha comprado uma mquina
para fotos submarinas e se esbaldava. Mas perguntava a toda hora:
        - Cad o bicho? Cad o bicho?
        Logo, o bicho apareceu. Foram os nativos acenarem com uns naces de carne crua,
como aquelas picanhas mal-passadas de restaurante, que alguns espectros enormes, escuros,
despontaram na gua. Quem  que disse que os hspedes ficaram l, segurando na cordinha?
Subiu todo mundo s pressas no barco. Mas dava para ver os tubares arrancando das mos dos
nativos os nacos de carne pingando sangue. Os nativos no demonstravam medo. Chegavam a
afagar aquelas feras. Um deles pegou um bicho pela barbatana, montou nele e saiu navegando,
como se fosse um golfinho. O tubaro no estava feliz, visivelmente, mas o nativo nos
confessou seu truque: agarrando s uma das barbatanas laterais, ele tem como virar a boca e
morder; mas, prendendo-o tanto pela barbatana do lado como pela de cima, ele fica seguro e
voc consegue at dirigi-lo para onde quiser. Coisa do tipo festa do peo de boiadeiro num mar
de tubares.
        Mais  frente, paramos para dar de comer s arraias. Monstros enormes, de mais de um
metro de dimetro. Mansinhas, inofensivas. O Ayrton passava a mo no peito delas, elas ficavam
quase na vertical, como se curtissem aquele carinho. Ele teve uma recada:
        - Se soubesse que elas so assim, eu no teria assustado aquela, ontem.
        S de palhaada, um dos nativos surrupiou meu precioso leo e se lambuzou, ele que j
tinha aquela cor de polinsio do Gauguin. O Ayrton riu, mas senti que ele fraquejava. Crise
mesmo foi a que teve, ao chegar. Vmitos, corridas de dois em dois minutos ao banheiro.
Chamei o Bernard, que chamou o mdico. Ele veio no figurino local: roupa branca, mas ps
descalos. Ayrton tentou amenizar:
        - Deve ter sido o sol e mais alguma coisa que comi.
        O fato  que, nos dois dias seguintes, tomamos um ch de cama - eu, no duplo papel de
enfermeira e de mulher carinhosa, cuidadosa, preocupada - o tempo todo cuidando dele. Intuio
feminina: disse a ele para tomar Coca-Cola. Ele me contrariou na hora:
        - Coca-Cola?
        Bem, antes de sair, o mdico ministrou, alm dos remdios, um conselho:
        -... e tome uma Coca-Cola.
          Ele ainda muito fraco, tomamos o caminho para a Austrlia, onde o circo da Frmula 1 ia
fazer as despedidas da temporada de 1993. E onde Ayrton ia dar adeus a seus proveitosos e
emocionantes seis anos de McLaren. Percebi que tinha voltado a ser ele na escala na Nova
Zelndia. Enquanto espervamos pela conexo, entrou numa loja do free shop. E comprou o
qu? Chegou perto de mim com um cinto de couro. "Gostou?" "Gostei." Mandou embrulhar
uma dzia.
          Uma bela massagem do Joseph, em Adelaide, colocou-o de vez no prumo. Uma hora e
meia daquilo que parecia ser uma pura tortura. Mas era um craque, o Joseph. Eu bem que, certas
vezes, tentei aliviar o Ayrton de uma ou outra dor, especialmente de torcicolo - seqela de tantos
anos de tenso e corrida, dizia ele, e argumento definitivo para jamais se imaginar naqueles
circuitos ovais da Indy, em que seu pescoo fica sempre inclinado para o mesmo lado. Mas ele
pedia:
          - Aperta mais!
          At tive algumas aulas com o Joseph, mas senti que jamais chegaria l.
           chover no molhado dizer que, naquele ltimo dia de temporada, na Austrlia, os
olhares todos se convergiam para a McLaren. Um enxame. Acordei cedo, excepcionalmente,
ainda passei para pegar as fotos reveladas de nossa viagem ao Taiti, mas cheguei a tempo de
romper a barreira dos reprteres e entrar no boxe.
          - E a, o carro?
          - Est bom, mas, de repente...
          Ele era o pole-position. O seu futuro na Williams j estava acertado, em segredo. Mas,
para a imprensa, ficava a dvida: seria aquela a ltima corrida de Ayrton Senna? Nos bastidores
da F1, nem sempre se sabe das coisas mais banais. Por exemplo, do regimental pipi dos pilotos.
Por ansiedade mas tambm por cautela, quando faltam ali uns dez minutos para a largada, saem
todos correndo para se aliviar. Duas horas de priso no cockpit,  melhor se prevenir. Bco viu
aquele rio de reprteres de uma janelinha do motor home, desistiu:
          - No vou.
          - Como no vai? Est maluco?
          - Eu no vou, mas voc vai me ajudar. Pega uns copinhos, quantos voc encontrar.
          Copinhos de plstico, sa eu gritando. J todo vestido, com o macaco, ajeita aqui, ajeita
ali, ele encheu trs copinhos. Sa sorrateira, para dar o destino conveniente, quando o Joseph me
flagrou:
          - Beer?
          - , cerveja - brinquei.
          Ele bem que ia atacar os copinhos. Arranquei-os da mo dele. Voltei para dar um beijo
de boa sorte no Bco e me vi, meio ridcula, fazendo a linha daqueles adesivos de carro, tipo "no
corra, papai". Sei l o que foi,  que todos aqueles dias tinham sido to magnficos que no queria
v-lo correr muitos riscos. Eu mesma me senti mais nervosa do que nunca. Assisti da cabine da
TV Globo, ao lado da Daniela, namorada do Rubinho Barrichello. Ele, na frente, lindo, tranqilo.
Nunca tinha visto uma cena de pdio de perto. Faltavam ainda algumas voltas. Chamei a Daniela
e me armei de coragem:
          - Vamos?
          Eu estava no boxe da McLaren quando ele recebeu a bandeirada de chegada. 
emocionante perceber no rosto daquela equipe cansada o sinal de um trabalho recompensado.
Foi a primeira e a ltima vez que pude sentir isso de to perto. O J Ramirez, chefe da equipe,
me levantou nos braos. Ficamos na fila do gargarejo. Ele chegou ao pdio cansado mas feliz.
Deu a mo ao Prost, segundo na corrida, primeiro no campeonato. E o puxou para o lado dele.
Abraou-o e levantou a mo do tetracampeo do mundo. Homenagem de craque para craque.
Depois, os hinos, as fotos, o champanhe - que, alis, sobrou para ns, pois ele nos reconheceu, l
embaixo. J Ramirez, "o Espanhol", como Ayrton o chamava, chorava, ensopado de Mot &
Chandon.
        - Obrigado, esta corrida era muito importante para mim e para minha equipe - foi a
primeira coisa que ele disse ao Ayrton, de volta ao boxe.
        Prost era o campeo do mundo. Mas, na soma dos pontos do campeonato, a McLaren
conseguiu chegar em primeiro, entre as escuderias.
        As despedidas haviam comeado trs dias antes - com um barbecue oferecido pela
McLaren, na quinta-feira, ali mesmo perto da pista. Ao passarmos diante do boxe da Williams,
Ayrton pediu para parar o carro. Desceu, cumprimentou o Frank Williams, conversaram por dois
minutos. De novo, encontrou Prost e o cumprimentou. Na festa, o Ramirez fez um discurso
comovido. Pediu que o Ayrton subisse ao palco. Entregou-lhe um quadro enorme, uma colagem
de fotos pequenas com os melhores momentos dele na McLaren. Ayrton agradeceu, emocionado.
Na verdade, todos ns chorvamos.
        - Minha vida  de aventuras e lutas - disse ele. - Estou de mudana. Mas meu corao fica
na McLaren. Quando parecia terminado, um videolaser com cenas da carreira dele, vitrias,
sustos, a intimidade dos boxes, flagrantes, ultrapassagens, derrapagens, bandeiradas, pdio,
bandeiras do Brasil, tudo - e a musiquinha-tema da Globo no fundo.
        - Chega, vou ter um enfarte - ele implorava. Choradeira geral e irrestrita. Para mudar o
humor, Ayrton avisou:
        - Depois da corrida, o jantar ser por minha conta. Para todos os que esto aqui.
        Assim como eu continuava com minha mania de McDonald's - e em Adelaide consegui
arrast-lo at um -, ele era do mundo da massa. Domingo, no restaurante italiano La Trattora,
em que todos comeram e beberam at de madrugada, J Ramirez, sempre o Espanhol, deu-lhe
um ltimo presente: um volante da McLaren.
        Enquanto seguamos para o hotel, a p, ele segurando aquele volante como se fosse um
fetiche de criana, eu o sentia dividido ao meio:
        -  difcil para mim... Muito difcil.
        O GP da Austrlia foi no dia 7 de novembro. Demos a ns dois dias de descanso em
Sydney, para um passeio de lancha no lago e uma bateria de fotos que eu guardo com amor. E j
aquela aflio de encher as malas com presentes para o Natal. Adivinha que tipo de restaurante
ele procurou, at cansar, para me levar? Um italiano,  claro. Adivinha para onde eu escapei, um
dia, na hora do almoo? Bem, nem preciso falar, para no ficar parecendo um comercial.
        A caminho do Brasil, ele me avisou que ainda tinha um compromisso beneficente a
cumprir, em prol de uma fundao de crianas carentes, em Bercy, na Frana - incio de
dezembro. amos juntos. Uma prova de kart. Sabem contra quem? Alm das feras da Frmula 1 e
de outras modalidades profissionais ou semi-profissionais, uma fera especial: Alain Prost. Ayrton
comportou-se como quando tinha 14 anos e se melecava com a graxa de seu kart. Mexeu e
remexeu em tudo, deixando o mecnico enlouquecido. Aquela coisa competitiva dele.  um
barato a barulheira do kart, mas tive de pedir emprestado um protetor de ouvidos especial, do
cineasta e nosso amigo Waltinho Moreira Salles - ex-corredor e um dos raros torcedores
canarinhos ali presente.
        No final da brincadeira, Bco se queixou de dores nas costas:
        - Acho que t ficando velho...
        (Dias depois, teramos uma grata surpresa em Angra: um protetor de costas para kartistas.
Presente do Waltinho.)
        Claro que as duas baterias da corrida viraram um duelo Senna versus Prost. Mas aquele
era, decididamente, o ano do francs. Talvez sirva de relativo consolo: 1993 foi o ano em que ele
me ganhou.
        Sentada displicentemente sobre um pneu esquecido por ali, num canto, enregelada pelo
frio do inverno ingls, eu fui a nica testemunha, no incio de dezembro de 1993, do mais bem
guardado segredo da Frmula 1. O cenrio era um galpo enorme que servia de oficina para a
escuderia Williams/Renault, a algumas centenas de milhas de Londres. Um silencioso mas atento
Frank Williams, o dono da casa, recepcionava, ao lado de no mais do que trs ou quatro
projetistas e engenheiros do mais alto escalo e da mais absoluta confiana, aquele que ele jamais
escondera ser o seu filho dileto nas pistas.
         Nada assinado, no papel, aparentemente - embora a imprensa j pressentisse a espetacular
notcia e farejasse a novidade, em tocaia permanente. Depois de seis anos de McLaren, Ayrton
Senna ia trocar de veculo, ia mudar de camisa. Ele me confidenciava, mas em doses de conta-
gotas, os convites que recebera (Benetton, Ferrari, Williams, a prpria McLaren) e comentava por
alto o drama que vivia com a escolha provvel - de trocar o certo da McLaren pelo desconhecido
da Williams. De mais a mais, as ms-lnguas faziam esparramar o veneno de que a transferncia
perigava. Por ironia do destino, Ayrton estava nas mos do "francs". Se ele decidisse continuar a
correr, tchau Williams. Mas Alain Prost estava de sada da Williams e das pistas, parecia certo;
supostamente, por uma clusula contratual qualquer ou ento por sua influncia junto aos
compatriotas da Renault, o fato  que o francs aceitaria a idia de entregar sua mquina voadora
a no importa que piloto, com exceo de seu arquirrival brasileiro. Por um momento, at o
prprio Ayrton chegou a acreditar na verso venenosa.
         A realidade, porm,  que, cercado de todo o sigilo possvel, l estava Ayrton, em pessoa,
na fbrica da Williams, pronto para cumprir o primeiro e mais elementar dos ritos de iniciao de
um novo piloto numa nova escuderia. Meticuloso que s ele, vestiu macaco, luva, capacete,
sapatilha - e se meteu dentro do cockpit do seu futuro carro como se j fosse acelerar para a
largada. Cockpit, ou em outras palavras, a carcaa, s aquela parte externa, com o banco mas sem
motor, sem nada que pudesse botar em movimento o Williams por meio metro, que fosse. A
partir do prottipo, a sim, os engenheiros tratariam de construir o motor, a suspenso, os
aeroflios, todos os componentes da aerodinmica. Era s um teste, por assim dizer, ergomtrico
- se bem que de alto significado psicolgico. Saber se Senna se sentia  vontade l dentro.
         Eu tremia de frio, e ele cumpriu, por quarenta minutos siberianos, os pr-requisitos com a
pacincia de um profissional do detalhe.
         - Est me apertando aqui - reclamava ele, e vinha um projetista assinalar com giz o lugar
onde a carcaa tinha de ser modificada.
         - Isso aqui no est confortvel - ressentia ele - e mais uma marca de giz.
         Ao final, o cockpit estava todo riscado, enquanto Frank Williams, sempre em silncio, em
sua cadeira de rodas, s confirmava com a cabea, dizendo sim ao que poderia parecer mero
capricho de um menino mimado. Quando a sesso acabou, o Ayrton meio obcecado pde se dar
ao direito de uma piadinha tpica de Bco, sussurrando em portugus ao meu ouvido:
         - Acho que esto acostumados com um cara mais baixinho - brincou, puxando-me pela
mo. A vtima da perfdia vocs sabem quem , no sabem?
         Fizemos um tour pela nova casa: o galpo gigantesco, os laboratrios onde engenheiros
simulavam exerccios de aerodinmica e desempenho em seus mapas de computao grfica,
fomos at o escritrio do chefo, Frank, para umas boas-vindas calorosas, ainda que extra-
oficiais. Estava l uma filha dele, lindssima, a quem me apresentaram. Tive a melhor impresso
do novo patro. No seu jeito observador e reservado, sabia ser cordial como ningum. Um
gentleman  inglesa.
         Irrecusvel a vontade de compar-lo com Ron Dennis, o chefe da McLaren, com aquela
sua ciclotimia, sua postura imprevisvel, seu temperamento irritadio alternando-se, sem qu nem
por qu, com sbitas gargalhadas. Ayrton e Ron tiveram muito tempo juntos para descobrirem
uma forma de convivncia entre eles. Eu, que o vi meia dzia de vezes, por pouco mais de um
ano, no conseguia entender, por exemplo, que Ron continuasse a sorrir em ocasies em que o
carro do Bco abandonava uma ou outra prova. Era demais para minha cabea.
         Quem fazia a diferena, porm, era um homem chamado Ayrton Senna. Isso eu pude
sentir de perto - como ningum. A diferena tinha um nome: talento. E o talento tinha uma
conseqncia: respeito. Campeo do mundo, uma, duas, trs vezes, ele se metia debaixo do carro
para discutir com o menos graduado mecnico a posio correta da porca. Ia  loucura com os
designers em debates do tipo "isso aqui tem de ser reto", e o outro dizendo "no, ondulado" - e
no havia Cristo que fizesse Ayrton mudar de idia. Quantas vezes ele no implicou com a
textura dos pneus? Como um gnio, quase nunca errava. Com o temperamental Ron Dennis, at
1993, ou com o plcido Frank Williams, em 1994, ele impunha o conhecimento de anos e anos
de mos metidas na graxa e de dedos calejados pelas trepidaes dos volantes.
        Um documentrio exibido pela televiso italiana, mostrando uma reunio de Frank,
engenheiros e seu piloto nmero 1, s vsperas da tragdia de mola, ressaltava o estilo Senna.
Ele batia p firme, a propsito do que poderia parecer uma besteirinha qualquer, coisa de pneus,
por a: - Faam como ele quer - decretou o velho Frank. Posso testemunhar, porm, que a
admirao e o respeito eram recprocos:
        - Frank  um verdadeiro chefe de equipe - disse-me ele, certa vez, dando toda nfase 
palavra chefe e suas implicaes sobre toda a equipe.
        Meu conhecimento sobre automobilismo ia pouco alm da minha capacidade de trocar as
marchas de meu carro, mas, nos bastidores dos GPs, assisti a muitas cenas como esta, assim
como me surpreendi com o teor da adrenalina que circulava pelas artrias de protagonistas e
coadjuvantes do grande show. Vi, certa vez, Ayrton quase pulando no pescoo do Giorgio
Ascanelli, o projetista da McLaren a quem ele admirava profundamente e costumava chamar de
gnio. No calor da prova, ou dos testes, podia acontecer de Ayrton querer pegar Giorgio a tapas,
ou vice-versa, em meio a palavres em italiano que faziam corar at a Cicciolina. No GP da
Alemanha, em Hockenheim, Senna teimou que iria entrar na pista com menos gasolina do que
sugeria Ascanelli. Vou. No vai. Testemunhei mais um daqueles episdios de comdia napolitana.
Ayrton insistiu e, a duas voltas do final, correndo na frente, o combustvel acabou. Reconheceu,
com humildade: ponto para o engenheiro. Pois bem, uma vez terminado o circuito, saam ambos
dali aos beijos e abraos. Preciso contar a vocs uma fofoca de bastidores: minha amiga Betise,
conversando com Giorgio, certo dia, ouviu dele:
        - Vou mandar flores para a Adriane. Depois que ela apareceu na vida dele, a conversa
com nosso gnio est bem mais fcil.
        A Betise ria, ao me contar isso.
        A McLaren deu trs ttulos mundiais a Ayrton Senna. Ayrton Senna deu trs ttulos
mundiais  McLaren. Impossvel desvincular uma coisa da outra. Campeo, sim, estrela jamais,
Ayrton reconhecia que a vitria era uma estrada de mo dupla. Devia tanto a Ascanelli que queria
porque queria levar para a Williams o homem que construiu com ele o carro vencedor da
McLaren. Lamentou muito que no fosse possvel. Nas poucas provas de que participou em
1994, sempre foi levar seu abrao, no boxe "inimigo", ao seu craque de parceria.
        Poucas semanas antes da welcome visit  Williams, Ayrton tinha chorado com a
comovida despedida que o staff da McLaren preparou para ele, logo aps o GP da Austrlia - o
ltimo da temporada de 1993, sua ltima vitria nas pistas. Agora, ele se ligava inteiramente no
novo desafio. Do primeiro encontro secreto Ayrton-Williams, no inverno horroroso da
Inglaterra, a mais ntida impresso que ficou na minha cabea, porm, foi uma frase meio banal,
solta ao vento, que ele me disse to logo tomamos o caminho de Londres e, de l, para a
temporada tropical de frias e fim de ano no Brasil:
        - Sei l, Dri. Achei esse carro meio esquisito: mais fino e mais baixo.
        No primeiro teste pblico, a j em 1994, ele repetiria um sentimento ruim:
        - Sinto que cheguei aqui com dois anos de atraso. O carro est virando o fio.
        Traduo: aquela histria do super-piloto com a super-mquina no seria bem assim
como estavam falando. Mas, enfim, adeus  fria Londres. O avio embicou para o sul, o sol
matinal do Rio veio nos receber, o Natal se aproximava e Angra estava  espera, para uma longa
temporada em que eu tinha planos de arrombar o zper do macaco do piloto Senna, arrancar-lhe
a carranca do cenho franzido e testa enrugada, para lhe fazer uns afagos nos ps e mergulhar nas
mars do amor do Big Coke, do Beco, do meu garoto de praia - com a devida licena da
ciumenta Quinda, tenho de admitir.
         Natal, para mim,  um convite  tristeza. Desde que meu pai morreu, em 1989, era como
se a festa no existisse. Ele faleceu em outubro, como eu j contei, numa situao inesperada, de
repente - e nossa casa nunca mais foi a mesma. Minha av materna, Agnes, que morava ao lado,
tipo da mulher determinada, uma fortaleza, ainda tentava levantar nosso astral, naquele dia de m
memria, recorrendo a velhas receitas de rabanadas e pes hngaros rabiscadas em cadernos
antiqussimos - e, num ano do qual no me lembro, mame, que sempre foi mais desanimada que
vov, bem que preparou um peru recheado com farofa e ameixas. Mas a gente no cultivava o
ritual da ceia. Era um jantar comum, quem quisesse se servir que se servisse e nada de rvore
enfeitada, os presentes ficando esparramados por aqui e por ali. Cada um de ns buscava, no
Natal, um certo recolhimento para cicatrizar a nossa grande ferida na alma que era a ausncia
prematura de papai.
         Agora, porm, era diferente. Bco e eu voltamos da Europa, vivamos sob o mesmo teto
no apartamento da Rua Paraguai, compartilhvamos os mesmos amigos, saamos para jantar
invariavelmente juntos, ramos dois namorados na plena acepo da palavra - se no havia
aliana de noivado, sobravam intimidades do tipo dormir na mesma cama na casa da me e do
pai dele, no Pacaembu. Sentia, no ntimo, que ele at gostava de me mostrar um pouquinho. Meu
Natal, portanto, seria com ele. Zaza, pessoalmente, reiterou o convite. Quatro ou cinco dias
antes, toda a famlia se deslocaria para a fazenda de Tatu, e a festa teria o duplo sentido de
celebrar a ceia com filhos, sobrinhos, genros, noras e de inaugurar o casaro novo, todo
restaurado.
         rvore de Natal, presentes que se acumulavam ao p do pinheiro, a expectativa da
crianada, os passeios a cavalo por aquele paraso, as nossas pescarias, as competies de kart na
pista particular construda segundo o traado de quem comeara sua carreira ali, a torcida pelo
sobrinho Bruno, filho da Viviane e promessa de campeo - naquela preguia dos compridos cafs
da manh, de almoos deliciosos e cheios de falatrio e de tardes iluminadas como aquela em que
um fotgrafo italiano, conhecido do Ayrton, fez nosso ensaio amoroso que correu o mundo,
resgatei um pouco da alegria da data do nascimento de Cristo.
         Eu me sentia absolutamente em famlia, com a primazia do lugar de honra ao lado do
prncipe da casa. Nem mesmo quelas eventuais alfinetadas que cheguei a ouvir, em relao a
antigas namoradas de Ayrton, especialmente a mais famosa delas, eu quis atribuir alguma
inteno malvola. Iludia-me com a idia de que, no fundo, o que eles - elas, seria mais correto
dizer - queriam era me agradar.
         O casaro tinha cheiro de novo, entulho das ltimas obras e um quarto feito sob medida
para ns. Nosso quarto tinha espao suficiente para resguardar a intimidade recproca tanto
quanto para atulhar os armrios de creminhos, loes e lavandas. Como sempre, no estranhei
cama ou ambiente, mas fui despertada de madrugada por uma algazarra monumental e pela
ausncia dele, a meu lado, na cama. Corri para a janela e assisti a uma cena que faria a delcia
daquelas cmeras indiscretas de programas como o do Fausto - que, todo domingo, era tambm,
de uma certa maneira, um bem-vindo hspede nosso.
         Resumo rpido: de pijama, o piloto mais carismtico e mais circunspecto do mundo
perseguia um bando de paves alvoroados que, aparentemente (meu sono profundo no me
deixou ouvir nada), tinham transferido seu footing e seus papos noturnos para debaixo de nossa
janela. Botando fogo pelas narinas, Ayrton os atacava, arremessando-lhes seus chinelos. Em
seguida, armou-se de uma vassoura. De um golpe, conseguiu derrubar um bicho, que se refugiara
numa rvore. Os outros, pressentindo a arremetida, trataram de bater em retirada. No sei,
sinceramente, se a zoologia me confirma isso, mas a impresso que me ficou, vendo tudo da
janela, s gargalhadas,  de que o QI das citadas aves no  dos mais privilegiados. Elas ficavam
rodeando a piscina e Ayrton, cada vez mais nervoso, perseguindo-as. Agora, de moto. Ligou o
motor e partiu para cima delas, mas os bichos espaventados s produziam ainda maior berreiro.
Quando o dia clareou, o surpreendeu naquela intil e frustrante batalha.
         - Vou matar esses desgraados! - prometeu, voltando para a cama.
        Ele tinha o sono leve, levssimo, e muitas vezes me olhava com o olhar suplicante como o
daqueles penitentes que vo a Ftima ou a Aparecida do Norte:
        - Me conta sua frmula. Me empresta um pouquinho de seu sono.
        - Se pudesse, eu trocava com voc - dizia eu, e olha que a instabilidade das noites mal
dormidas dele me preocupava tanto, de fato, que eu faria de verdade a troca. Ele, sim, precisava
de descanso. Foi t-lo, quem sabe, em outro lugar por mim desconhecido.
        Ningum  idiota de imaginar, porm, que um homem cujo trabalho  um risco pior do
que o de um trapezista e que trafega pela vida a mais de 300 quilmetros por hora seria do tipo
de recostar na cama, fechar os olhos e em dois segundos j estar embalado pelos anjinhos.
        Podre de sono, ele implorou ao seu Milton, no caf da manh do dia seguinte, vspera de
Natal:
        - Pai, d um jeito nesses paves. Sei l: d de presente, manda embora.
        O senhor Milton me dava a impresso de um homem seco, muito discreto, s vezes
impenetrvel, mas que no se deixava convencer com muita facilidade. Assim como foi ele quem
fez de Ayrton um automobilista, era ele agora quem tentava manter a tradio dinstica da
famlia, depositando todas as esperanas no neto Bruno. Aos 12 anos, Bruno corria de kart e j
tinha alguns ttulos no seu currculo. Assim como tinha tambm - e me confidenciou, a meia voz,
naqueles dias por l - certas dvidas se sua vocao era de fato aquela. Mas, se for o av a decidir
que ele vai ser piloto ou, digamos, jogador de squash, eu no teria dvidas em apostar que daqui a
alguns anos Bruno Senna estar percorrendo, com seu nome poderoso, as pistas ou competindo
nas quadras.
        Fiquei com peninha dos paves, mas, salvo um casal, que sobrou para contar a histria,
foram todos despachados para outra freguesia, especialmente depois que o Ayrton descobriu
mais uma deles. Ficava num galpo uma motinha normal, 250 cilindradas. Os bichos entravam l,
viam-se refletidos no reservatrio de gasolina e, de to assustados, passavam a atacar. Resultado:
as bicadas furaram o reservatrio. At o senhor Milton se deixou convencer. Hoje eu sou capaz
de imaginar que, se no fosse por sua beleza, os paves teriam ficado do lado de fora da arca do
bom No.
        Aquele agito todo na casa, dia 24, Zaza animadssima com o jantar, que, por causa das
crianas, seria mais cedo, mas o Bco teve a sutil percepo de que a nuvem negra voltava a se
formar em cima da minha cabea:
        - Dri, voc no prefere passar a meia-noite com sua me?
        Meu corao balanava entre estar ali, ao lado do meu amado, e estar em So Paulo, junto
ao leito de minha av. Pedi um tempo para pensar. De repente, me deu um estalo:
        - Vou sim. Acho que devo ir.
        Troquei de roupa, Zaz me emprestou seu carro, uma Quantum, e, de uma gentileza que
s vendo, ainda mandou umas lembrancinhas para minha famlia. Ayrton me acompanhou,
preocupado, at o carro. Pediu para eu ligar to logo chegasse. Corri para o quarto de minha av.
Eu a amava intensamente. Vivia me cobrando casamento. "Quero ver tudo preto no branco",
divertia-se. Vizinha de parede, sempre soube muito de minha vida e de meus amores - que foram
poucos, diga-se. Encontrei-a inerte, no leito, incapaz de dizer palavras com os lbios, mas apta a
expressar grandes sentimentos com os olhos. Foi assim meu Natal de 1993, na cabeceira de
minha v, nos seus 80 anos de idade. No me arrependo. No dia 26 de janeiro, um ms e dois
dias depois, vov descansou para sempre.
        Perdi em 1994 duas pessoas que amo muito. O que refora minha tristeza de Natal. Vou
passar o prximo com a cabea enfiada num travesseiro.
        Nunca fui a terreiro de babala, no conheo meus orixs, no fiz despacho em
encruzilhada e jamais sobrecarreguei Iemanj, a me das guas, com muitos pedidos de fim de
ano, mas, brasileira que sou, gosto de usar branco no rveillon, deposito uma rosa no mar, fao
um desejo de corao e adoro aquela hora dos beijos, abraos e espoucar de fogos. A tristeza que
me invade no Natal explode em pura euforia na virada do ano e, de 1993 para 1994, em especial,
eu tinha tudo o que comemorar. Tudo quer dizer: estava com o Ayrton em Angra. O resto era
acessrio.
        At mesmo o tempo, oscilando entre a chuva e o cu estrelado, no me importava.
Sentia-me, mais do que em qualquer outro lugar, em casa. Viviane, o Lalli (Flvio  o primeiro
nome do marido dela) e os filhos foram. O Leonardo. Os amigos da velha-guarda e de sempre:
Israel Klabin, Luiza e o Braga, muitos outros. O Clube dos Amigos do Bco: Criminoso, com sua
namorada, Magali, Jnior, Gordinho e a mulher, Gisela, Alfredo... Angra era um social s: muita
gente se conhecia, os convites se entrecruzavam, as lanchas circulavam entre aquelas ilhas como
as pessoas circulam entre as mesas dos bares da moda. O Ayrton sugeriu que fssemos  festa do
Alexandre (a gente o chamava de Xande Campineiro), depois que me viu arrumada. Queimada
do sol dos dias anteriores, eu carreguei no branco: minissaia, meia, blusa tipo rede de pescador,
tnis. O contraste, sem pretenso, me deixou bonita. Bco foi generoso:
        -  um desperdcio deix-la em casa assim. Agarrei-me no pescoo dele, naquele horrio
da Cinderela. Lembrei-me de um casal amigo dele que nos visitou em casa, muitos meses atrs,
com uma filhinha que devia ter seus 5, 6 anos no mximo. Na hora de se despedir do seu dolo,
ela cobriu-lhe o pescoo de beijos, mil, milhares - a menininha. Ainda desconcertado, Bco
comentou to logo eles partiram:
        - Tanto beijo que eu casava com ela, agora, no ato. Meia-noite, e a beijoqueira agora era
uma meninona de 20 anos; mil, milhares de beijos no pescoo, sem medo de repetir "eu te amo,
eu te amo..." Uma rosa branca ao mar e um pedido em segredo. Segredo, j no  mais. Pedia que
meu amor por ele no morresse, que ele continuasse sempre a meu lado. Quem sou eu para dizer
que o pedido no se cumpriu?
        Ainda no consigo acreditar no que aconteceu. Tudo to repentino, to horroroso, to
sem nexo. Olho as fotos dele, que me perseguem ao redor, e tudo perde o sentido. Mas, quando
a noite cai, a solido aperta e algumas pginas da Bblia atenuam minha amargura. Eu me curvo
ao destino da rosa branca arremessada ao mar de Angra. Seja como for, o amor por ele no
morrer. Seja como for, ele continuar perpetuamente a meu lado.
        - Voc sabe mergulhar?
        Bem, convite  que no poderia ser, quelas dez e tanto da noite. Talvez uma curiosidade
saudvel de quem, muito saudvel aos seus 89 anos de idade, no se arriscava a pilotar um veculo
a 300 quilmetros por hora mas era conhecido nas redondezas por se meter no mar at 15 ps de
profundidade.
        - Nunca tentei de verdade, doutor Roberto. Tive um problema no ouvido, no me sinto
bem muito tempo debaixo d'gua.
        Como o doutor Roberto repetisse pelo menos mais umas cinco vezes a mesma pergunta
ao Bco, naquela noite, das duas, uma: ou era de fato um desafio, quase uma inconformidade dele
ao ver um jovem to rijo de msculo e to esbelto de postura no se maravilhar com um esporte
que o pe em contato com os grandes mistrios e maravilhas do mar; ou ento era o doutor
Roberto que, por distrao mesmo, estava repetindo a mesma pergunta.
        Por via das dvidas, Ayrton sempre foi delicado, declinando suas outras preferncias
esportivas. O vero de Angra era assim, uma espcie de open house para os que tinham
conduo prpria - leia-se, iates, lanchas, barcos -, uma festa permanente sobre as guas e  beira
dos pers. O doutor Roberto em questo tem o sobrenome Marinho, uma adorvel mulher
chamada Lily e um inegvel prestgio dentro e alm da baa de Angra. Ele era o anfitrio de um
daqueles jantares tardios da alta temporada, em que a Lua quase dispensa os candelabros e os
vaga-lumes competem em agilidade com a rapidez dos garons.
        Esportista, famoso, com boas histrias para contar, Ayrton era um convidado freqente,
e naquela noite mais uma vez fomos, tendo cometido o erro, eu e ele, de nos atrasarmos numa
cena de amor numa praia quase deserta, propositalmente exagerada quando percebemos que um
par de senhores idosos nos olhavam, saudosos e enlevados. Perdemos, desse modo, o almoo da
Maria, trocamos de roupa em velocidade recorde e embarcamos em disparada, sem botar um
nico sanduichinho na boca, no Joanna II, em direo  casa de dona Lily do doutor Roberto.
         Chegamos varados de fome. Havia um pequeno grupo de notveis, mas foi a presena de
Sylvia e Paulo Maluf que nos fez trocar um olhar de cmplice interrogao.
         Mais ou menos, o que eu dizia a ele, e o que ele dizia a mim, era o seguinte: doutor Paulo,
para ns,  um amigo adorvel, assim como dona Sylvia, duas pessoas que nos tratam como se
fssemos filhos delas, porm, ao mesmo tempo, a presena do prefeito de So Paulo era a quase
garantia de que a conversa ia escorrer por horas e horas. E como ia ficar nosso condodo
estmago?
         A bisque de homard demorou, no entanto, estava uma delcia. Havia mariscos em
profuso. No provei os vinhos, mas a fisionomia dos convivas sugeria um nctar dos deuses.
Despedimo-nos s pressas, cansados mas homenageados, quando ainda ouvi o doutor Roberto
tocar, por uma derradeira vez, junto ao Ayrton, no assunto do mergulho submarino. O jantar foi
superior, porm Ayrton era heavy metal em matria de comida. Quando chegamos em casa,
tenho a impresso de ter ouvido algum fuando alguma coisa na geladeira.
         O mundo de Ayrton Senna era a casa de Ayrton Senna. Angra andava a mil, naquele ms
de janeiro de 1994, com exposies nuticas e a ilha de Caras, mas o que ele queria era sol e gua
fresca. Explorvamos ilhas distantes e enroscvamos em praias desertas. Recordo-me, em xtase,
do dia em que os beijos ardentes que ns tnhamos s ensaiado sobre a areia prosseguiriam no
sacolejo das ondas, dentro da lancha, ns dois sozinhos. Dos beijos e dos sacolejos nasceu a
nsia do amor. Lembro-me tambm daquela urgncia de peas de roupas arrancadas, braos
entrelaa dos, unhas cravadas, leme abandonado, nau sem rumo. Brotou um amor selvagem,
irresistvel, incontrolvel - ta, eu digo com todo o orgulho de mulher amada, um Ayrton que
ningum experimentou.
         Um dia, um susto. Da praia, cochilando sobre minha canga, no aconchego daquele vero
a mil, eu me esquecia da vida, enquanto ele dava vazo a sua inesgotvel energia. Era um daqueles
seus dias de speedy Bco - pensando bem, qual  que no era? Sempre no mar, sempre em busca
de emoo e velocidade. Lancha, ski, o que fosse. Cauteloso, porm, com um colete salva-vidas,
ele se divertia no slalom, saltando sobre as ondas, fazendo manobras radicais, enquanto era
puxado pelo jet-ski. De repente, uma curva mais fechada, um rodopio forado e vrias piruetas
no ar. A Quinda, ao meu lado, deu o alarme.
         Socorrido, voltou para o per com o trax encurvado e uma expresso de muita dor no
rosto:
         - Ai, ai - gritava, enquanto se recostava na areia.
         O impacto na gua fora to forte que lhe faltava ar. Eu corri para ele. Corre-corre para lhe
trazer gua, um suco, sei l. No  exagero meu: foi uma semana inteira de ais e quase total
inatividade. Mandou buscar de helicptero, em So Paulo, sua fisioterapeuta, a Elaine. Instalou-a
no Clube Med, ali pertinho, e a partir da no houve um dia em que ele dispensasse seis horas,
marcadas no relgio, de massagens, exerccios abdominais, ginsticas especficas para as costas e
os ombros, choques frios e quentes. Parou com tudo, exceto com as corridas matinais, no per da
Petrobrs - mas, ainda assim, diminuiu o ritmo. Nos bons tempos, ele corria 20 quilmetros
naquela pista improvisada, com a desvantagem posterior de que a notcia se espalhou por Angra e
arredores e muito candidato a atleta passou a aparecer para compartilhar daquele exerccio
matinal com o dolo. Sorte dele  que ningum, mesmo os mais fortes, conseguia acompanh-lo.
         - J estou achando um pouco demais - comentou Maria, mesmo sabendo do seu
conhecido medo de se machucar.
         Eu tentava anim-lo:
         - E a, Bco, est melhor?
         Senti que o susto tinha tido uma funo teraputica. O que aconteceu foi que, naquele
paraso tropical em que a gente se esbaldava, pleno janeiro, frias totais, o Senna piloto tinha
subitamente acordado para as responsabilidades que o estariam esperando dali a algumas
semanas.
         - Preciso estar preparado - me disse. - Tem um carro a a minha frente, esperando por
mim.
         A temporada de Frmula 1, que s se abriria no final de maro, j se impregnara na sua
cabea. Por feliz coincidncia, a abertura seria no Brasil - com tudo de bom que isso poderia
trazer para o astro Senna. Mas, para azar do Bco, pessoa fsica, que ainda estava de frias, o
Brasil significava antecipar a expectativa da responsabilidade da estria em casa.
         Aquilo que eu poderia chamar de nosso rveillon se estendeu gloriosamente at 17 de
janeiro, num tal clima de paixo e confidncias mtuas que meu reservado namorado se permitiu
a liberdade de comentar alguns de seus antigos romances - tipo do pr-requisito, imaginei eu, para
que o passado ficasse definitivamente arquivado como passado e o presente pudesse ser
plenamente vivido como presente.
         Eu, que me sentia premiada pelos deuses, jamais quis perfurar aquela carcaa de silncio e
no perguntava nada. Ele no era pessoa de falar nem mesmo de sua infncia - tudo o que soube
do garoto Ayrton me foi contado por sua me. A rigor, uma nica vez antes de Angra, ele
comentou comigo, naquele seu vocabulrio de sim ou no, uma notcia que os jornais
divulgavam (senti que ele pretendia me tranqilizar): aquela histria de uma suposta filha dele
com a modelo Marcella Prado, menina a quem a me botou o expressivo nome de Vitria.
         - Passamos um rveion juntos - me confirmou. - Mas no h hiptese de a filha ser
minha.
         Naquelas noites aconchegantes de Angra, em que o mar vinha praticamente beijar os
nossos ps e os murmrios dos bichos se calavam, ele me falou da Xuxa, do tchans que ela
chegou a provocar nele, trs anos atrs, da sensao de que o mesmo teria acontecido com ela, e
o desfecho muito rpido, meio frustrante. Nunca mais se viram - da a surpresa quando ela
passou, de mos dadas com a Viviane, diante do tmulo do Sena. Mas Bco me falou dela com
carinho, e  por isso que eu me atrevo a reproduzir, aqui, sem a riqueza de detalhes que eu
conheci, uma histria de amor que no me pertence. Se for uma inconfidncia indevida, eu me
desculpo.
         Ele tambm me perguntara de meus namorados e eu tinha visto fotos de outras
namoradas dele na casa da Luiza e do Braga, em Sintra - algumas duradouras, outras quase
sempre passageiras. No contamos vantagem nem fizemos tabu do passado. Nuno brincava
comigo, na frente dele: - Esse a  um grande mulherengo.
         Do tipo quietinho: parece que no , mas . Eram ocasies descontradas, em que um
amigo dele de dez anos visivelmente prestava uma homenagem a mim. Como se dissesse "agora
ele  s seu". Disse, uma vez, literalmente, ao fim de uma sesso de ginstica no campus da
Universidade de So Paulo, debaixo de uma rvore torta aonde ele gostava de nos levar. "Essa
menina d equilbrio para voc", comentou com o Ayrton, para minha surpresa e acanhamento
dele. Percebendo a timidez do discpulo, Nuno brincou:
         - Olha s o biotipo dela. Vocs tero filhos esculturais.
         O preparador fsico de Ayrton  uma figuraa, um filsofo do corpo e da mente, que tem
gente que chama de louco, mas que compreendeu que a vida s pode ser vivida com equilbrio.
Entendo todo o desespero dele diante do caixo, naquele sombrio dia de maio. Quando voltei a
falar com o Nuno, um dos poucos amigos do Ayrton que continuaram me procurando, ele me
contou que passou dez dias sem comer, cinco dias sem dormir e que s voltou  vida normal
porque a mulher e os filhos cobraram-lhe a responsabilidade com a famlia. Nuno disse mais: que
a reao dele era a de um escultor, um Donatello, que de repente visse seu David despedaado.
         - O Ayrton foi minha obra-prima.
         Aquele menino raqutico que, em 1984, no agentava 25 minutos de exerccio, mas que
precisava de repente se sentar ao volante de um Toleman e resistir a duas horas de prova, que
desmaiou ao final de uma corrida na frica do Sul, que passou mal em Hockenheim,
transformou-se num homem rijo, forte mas elstico, peitoral, bceps, trceps flexveis, o que faz a
diferena desses mastodontes de academia. "O msculo tem de ser inteligente", resumia Nuno.
        Privilgio meu sentir isso de perto, juntinha, agarradinha. Concordo com Nuno: um
corpo que era uma escultura. Se era assim, por que ter cime? Um dolo mundial, com milhes de
mulheres sonhando em estar no meu lugar. E, no entanto, por alguma misteriosa razo, era eu.
Seria impossvel viver perseguida por um cime desse tamanho. Em janeiro de 1994, eu escrevi a
ele: "Bco, no me importo de ser a sombra, quando voc  a figura; ser a situao quando voc 
o assunto".
        No  meu, isso.  do marido da Glria Pires, Orlando Moraes, que comps esta msica
para ela.
        Toda vez que o Ayrton viajava, eu escondia um bilhetinho na sua carteira, ou em algum
canto de sua mala. Esse, foi com ele numa daquelas viagens rpidas que ele fez no incio do ano,
para testes com o Williams novo, na Europa. Tenho anotado na minha agenda: 24 de janeiro,
segunda-feira, 18h30, vo 901 da Varig. Bco chega ao Rio. Dali, direto para Angra. No pude
esper-lo, dessa vez. Minha av fora operada cinco dias antes. Tinha um tumor cerebral do
tamanho de uma laranja. Estava no hospital, em So Paulo. Fui visit-la. Ela j no respondia a
nenhum estmulo. Uma das pessoas mais vitais que eu conhecera - e, agora, jazia num quarto de
hospital, inerte. Eu tinha trazido para ela, de Portugal, um tero de Nossa Senhora de Ftima,
feito de ptalas de rosas. Pendurei-o acima da cama dela. Olhei mais uma vez para seu rosto e
pensei: ela viveu, sofreu, foi feliz. Chorava e orava. Rezei a Deus, rezei muito. Com todas as
minhas foras, pedia pela sua morte.
        - Prece... sei l... uma qualquer! Como  que voc deixou que fizessem uma coisa dessas?
        Era comigo - o mnimo que ele dizia. Gritava coisas horrorosas. Estava transtornado.
Uma fera. Enrolou a revista e a atirou com raiva contra a parede de nosso apartamento na Rua
Paraguai. Sentia-me pssima. Muda, paralisada. Tentava resmungar alguma desculpa, mas no saa
do "mas... olha aqui..."
        Seria intil qualquer argumento. Calei.
        Por uma dezena de vezes eu tomara contato com esse lado desgovernado do Ayrton, mas
nunca na condio de vtima ou de piv da tragdia. As coisas que o tiravam do srio eram
adversrios nas pistas, carros que quebravam, jornalistas inconvenientes, fs sem desconfimetro.
Nunca pensei que ia chegar o meu dia.
        E dia pior no poderia haver. Bem na semana em que ele ia comear tudo de novo na sua
carreira - a semana do GP do Brasil em Interlagos. A revista que ele folheava raivosamente, dez,
vinte vezes, at arremessar na parede, era a edio de Caras, que saiu na quarta-feira. Eu era a
capa. Um longo ensaio fotogrfico de doze pginas, fotos grandes, belssimas, feitas pelo Fbio
Cabral - eu j tinha tomado a cautela de trabalhar com um profissional da mais absoluta
confiana. s vsperas do GP do Brasil, Caras apresentava, em grande estilo, a namorada do
maior de todos os dolos nacionais.
        Um ano antes, no dia em que fui pela primeira vez me encontrar com ele naquele mesmo
apartamento dos Jardins e dali seguimos juntos para Angra, eu levara debaixo do brao o
exemplar de uma revista espanhola chamada Man - ao contrrio do que sugere o nome, nada a
ver com Playboy. Era uma revista de muitas fotos, viagens, aventuras. A agncia Elite selecionou
um time de dez meninas e passamos um par de dias na praia de Camburi, de mai, ilustrando
aquela que seria uma reportagem sobre o litoral brasileiro. Para minha surpresa, fui capa - eu,
sozinha. Diante de todo aquele escrete de beldades, entendi a escolha como uma homenagem ao
meu sobrenome espanhol. Essas coisas envaidecem uma modelo,  claro, enriquecem seu book e
do um empurrozinho em sua carreira. Foi por isso que levei a revista at a casa do Ayrton e,
orgulhosa, mostrei-a a ele, quando veio a inevitvel pergunta: "Como  seu trabalho de modelo?"
        Ele adorou. Agora, odiava.
         Em um ano de convivncia, alguma coisa tinha mudado - e talvez eu no tivesse dado a
devida conta. Aquela briga, a primeira que tnhamos, de verdade, me punha diante de um
problema de identidade dupla: namorada e modelo.
         Esperei que ele serenasse - se e que era possvel. Falei calmamente:
         - Minha vida inteira, eu trabalhei assim. No  nenhum mistrio, para mim, chegar diante
de um fotgrafo e posar, fazer caras e bocas. Trato meu trabalho de uma forma absolutamente
profissional. Preciso de dinheiro e preciso trabalhar.
         Mas ele voltava a revirar pgina por pgina de Caras, apontava aqui e ali, voltava a se
sacudir de irritao, berrava:
         - Voc precisa entender que no  mais a mesma, Adriane (a coisa estava feia, ele jamais
me chamava de Adriane, s de Dri, Drica). - Voc hoje  a minha namorada.
         - Sei disso. Abri mo de minha vida para isso e no estou aqui lhe cobrando; queria, ao
contrrio, que voc entendesse que estou muito feliz pela escolha que fiz.
         Ele no se conformava, no ouvia, ou no queria ouvir. Ainda tentei ser razovel:
         - Mas o que lhe desagradou? As fotos? O texto?
         - A merda toda. As fotos, especialmente.
         Ayrton no era do tipo de ter crises de cime. Recordo me que, uma vez, na fazenda, ao
me ver descer do quarto com uma minissaia nova, perguntou:
         - Ganhou quando tinha 13 anos?
         Dos 9 anos at aquela noite em que achei que tudo estava acabado, eu sobrevivi como
modelo, arcando com os preconceitos que a profisso provoca e administrando a maior
dificuldade de um trabalho em que a beleza  o elemento primordial. Uma modelo parece ser
muitas coisas que ela de fato no . Mas para quanta gente a nica coisa que vale no mundo no
so as aparncias? Pensando bem, isso ali na hora valia tambm para ele. Ayrton.
         Minha lealdade para com aquele admirvel ser humano que eu amo e conheo to de
perto era absoluta. Minha convico e minha sinceridade me davam fora para enfrentar o
desafio. Mesmo que eu tivesse, naquela hora, de recuar taticamente. Em respeito ao momento
que ele passava, a agonia que j invadia sua alma, a ansiedade que prenunciava o dia seguinte, o
outro, o outro, at o domingo da corrida.
         Dei um passo atrs:
         - T bem, eu errei. No precisava ter me exposto. Se eu estivesse no seu lugar, talvez
reagisse do mesmo modo. Peo desculpas. Mas, se voc quiser terminar nossa relao por causa
desse episdio, aproveita sua raiva e vai em frente. Termina...
         Tinha um travo de choro na garganta, porm fiquei firme para no chorar. Propunha um
fim no nosso namoro, mas meu corao estava do tamanho de uma ervilha, gritando "no, no".
Sair dali seria mergulhar num abismo sem fundo, eu sabia disso. De repente, vi que caam
lgrimas dos olhos dele. Entendi aquilo como o seu constrangido jeito de dizer "sim, acabou, at
mais..."
         - Tivemos um relacionamento maravilhoso - continuei. - Nunca chegamos a uma
discusso nesses termos. Fiquei chocada com o que se passou aqui. Voc me mostrou um Ayrton
que eu no conhecia.
         Longe de mim irrit-lo. Eu j me lamentava previamente pelo desfecho esperado. A
discusso havia avanado madrugada adentro. Ele apagava a luz, a raiva o vencia, acendia de
novo, falava, falava. Quatro horas seguidas. Pensei no pior: "Amanh, eu me levanto e vou
embora". No seria a reao de uma mulher vingativa ou ofendida. Seria a atitude correta de uma
mulher vencida. A, foi ele quem interrompeu:
         - Nunca duvidei do seu carter, no  isso. Disse que no gostei e no gostei,  s isso.
         Trocamos um olhar em que senti a fasca de um amor que, na verdade, nenhum de ns
queria perder. As feridas estavam expostas, mas, em silncio, com uma cumplicidade sem
palavras, nos demos um tempo. Fomos deitar. Engraado que naquela noite, sem nada
combinado, trocamos de papel. Quem subiu o zper do uniforme fui eu. Ele, que no dormia,
dormiu; eu no preguei olhos. Eu o vi acordar cedo, pois a quinta-feira j era dia de muitos
compromissos, e fazer a barba. Ele se aproximou da cama, me deu um beijo de tchau e disse:
         - A gente se fala depois.
         Foi ele pisar fora de casa para eu me dar, enfim, o direito de um choro franco, forte,
sacudido. Desabei, literalmente. Chorar pode ser o melhor atalho para a compreenso das coisas.
De repente, tudo se organizou na minha cabea, tudo ficou muito simples:
         - Acho que tenho razo; mas a minha razo que v pro inferno!
         Caras era a revista mais disputada nos fins de semana na fazenda. O senhor Milton
comprava - ele chegava abraado de jornais e revistas. O prprio Bco lia e gostava. Quando
surgiu o convite para eu ser a capa, em fevereiro, nem cheguei a cogitar, mas, pouco a pouco, fui
comeando a gostar da idia. Naturalmente, consultei-o. S fiz porque ele disse sim. Na sua
condio de empresrio que aumentava seu portfolio de negcios, ele passou dez dias entre a
Alemanha e a Inglaterra, no incio de maro - e foi l, num dos vrios telefonemas que
trocvamos, dia aps dia, que toquei no assunto. Eu faria do meu jeito, tranqilizei-o. Com um
fotgrafo de confiana.
         - Quem? - ele quis logo saber. - Estou pensando no Fbio Cabral.
         Cabral andava me rondando com a proposta de uma exposio de fotos s minhas.
Gosto do trabalho dele.
         - Confia? - ele insistiu.
         - O estilo dele  brbaro.
         - E voc? Est a fim de fazer?
         - De repente, at estou. Faz tempo que no tiro foto posada.
         - Ento, vai - disse ele, sem meias palavras. Comentei que pensava em fotografar numa
praia, trs dias, com reprter, produtora, maquiador juntos.
         - Que praia? - quis saber, meticuloso.
         - Camburi.
         - Mas por que Camburi?
         - Porque  aqui perto, uma praia bonita,  qual faz muito tempo que eu no vou. No tem
sentido ir a Angra fazer isso. L  o nosso canto. Tenho milhes de maravilhosas fotos minhas,
com voc, em Angra.
         Ele quis saber mais: onde ficar, qual seria o esquema. Resumi:
         - Aquele mesmo esquema de modelo, fica tranqilo.
         Fiz as fotos com o maior prazer e o maior cuidado. Mas foi uma trabalheira para todos.
Saiu do jeito que eu queria. To logo as fotos foram reveladas, Cabral me ligou:
         - Est o mximo.
         Eu queria ver tudo antes mesmo de chegar  revista, mas ele argumentou:
         - Da minha parte, seria antitico. Eles esto agindo com correo, no d para preocupar.
         Ainda assim, insisti: um cromo s, de cada srie, aquele que estivesse pior, para eu ver
como tinha ficado. Ele concordou. Peguei na portaria do ateli dele e aquilo s me confirmou o
que eu, modelo com mais de dez anos de janela, desconfiava: perfeito.
         Guardei o pacote para fazer uma surpresa pro Bco, que estava de volta. Deixei para
mostrar a ele no fim de semana, na fazenda, quando estivssemos, s os dois, na cama. Dia 21 de
maro, a segunda-feira da semana do GP, era aniversrio dele: 34 anos. No domingo, teve bolo,
doce, parabns, sob a batuta da Zaza. Descobri, naquela noite, na fazenda, que ele tinha vocao
de editor de fotografia. Olhou os cromos um a um, contra a luz, com rigor e ateno.
         - Gostou? - eu estava ansiosa.
         - Gostei. De uma em especial. Esta da bicicleta.
         A minha predileta. Pensei de novo: se a Photo soubesse que um cara com esse olhar
existe, quem sabe no ia lhe propor mudar de ramo? Fiquei to encorajada que desci com o mao
de fotos para o caf da manh. Queria que a Zaza compartilhasse de nosso segredo. A me viu:
         - Lindo.
         O Lo, os amigos que estavam na fazenda - enfim, os cromos passaram pelas mos de
todos. Comentrios sempre elogiosos. E no se falou mais nisso. Como a reportagem de Caras
sairia na semana do GP do Brasil, o jeito de eu descarregar minha adrenalina era esperar pela
revista. A do Bco, ele aliviava correndo diariamente na USP - seu treino para aquela que, alm de
impor a incgnita de estria de uma temporada com escuderia nova, carregava a responsabilidade
de ser em So Paulo, sua terra. Eu o acompanhava na USP e ficava impressionada. Onde quer
que ele fosse, paravam-no para a pergunta fatal: "E o carro, como est?" Ele era vago, mas a
conversa sempre escorregava para o otimismo. "J ganhou, voc vai ser tetra", diziam todos. O
GP do Brasil era o cardpio da semana. Pior para o j ansioso Ayrton. "Estou corrodo por
dentro" - confessou a mim naquela tera-feira, 22 de maro. - "As pessoas esto enganadas: no
vai ser esse passeio que elas imaginam."
         O primeiro contato dele com a pista de Interlagos, na quarta, ainda s para a gravao de
um comercial da Nacional Seguros, coincidiu com o primeiro contato dele com a minha Caras, j
impressa. Um assessor dele, Charles, sem maldade, fez a gentileza. Ele s deu uma folheada e foi
trabalhar. Por coincidncia, quem produzia o comercial da Nacional era Tina Krugg, a mesma
que me acompanhou com Caras a Camburi. Ela pediu-lhe um autgrafo e, em troca, deu-lhe de
presente uma cartela com sobras das minhas fotos. Mais fotos. Ele brincou:
         - Ento, voc  a famosa Tina!
         Tudo muito ameno, tudo muito cordial. Ainda me ligou para dizer que,  noite,
jantaramos na casa dos pais dele. L, ficou mais quieto do que nunca, mas vi no seu silncio a
expectativa do GP que chegava. Engano meu. Foi a gente se despedir dos pais, abrir a porta do
elevador e apertar o boto 2S da garagem para ele fechar de vez a cara:
         - Voc viu a Caras?
         Claro: durante o almoo, no McDonald's da Avenida Rebouas, eu tinha passado e
repassado as pginas. Confesso que, no final, me veio pela primeira vez um friozinho na barriga.
Estava linda, a reportagem. O texto, corretssimo. Mas, no fundo, no fundo, eu me perguntava:
era preciso ter feito?
         - Voc gostou? - prosseguiu ele.
         - No sei, voc no gostou?
         - No.
         S isso: no. O elevador chegara  garagem, cada um de ns tinha ido com seu prprio
carro, o que me condenava a uns dez minutos de angstia at nos reencontrarmos no nosso
apartamento da Paraguai.
         - Me fala, me fala - implorei.
         - Voc estava muito sexy.
         E em casa que aconteceu toda a exploso que narrei. Eu j o tinha visto emburrado,
cabisbaixo - era o jeito dele de mostrar sua contrariedade. Conhecera e aprendera a conviver
com isso, respeitando o timing da crise dele, sem entrar na parania de que era eu a culpada, ou
que era de mim que ele tinha se enchido. Mas, discutir daquela forma, nunca. Ainda assim, eu
pensava primeiro nele:
         - Meu Deus, ele vai ter corrida, no pode ficar assim. Foi uma experincia dramtica mas
muito educativa, como podem ser instrutivas algumas brigas entre casais que verdadeiramente se
amam. No dia do enterro do dolo Senna, pessoas do povo abriam as pginas de Caras, no s a
do casal feliz, de uma edio seguinte, mas tambm aquelas mesmas que geraram tanto dio. Elas
me acenavam com a revista, no para me adular, eu sei, mas como uma forma de espontnea
solidariedade com a mulher que ele tinha.
         Digo isso nunca por vaidade, e sim com o corao to partido como naquela noite difcil
e em outras que se seguiram. Olho para trs e vejo que muitas coisas se juntaram ali naquelas
pginas de revista. Tirem fora a tenso da semana, muito compreensvel. Mas havia a surpresa de
ele me ver, de novo, como modelo - depois de uma sumida legal que eu tinha dado das pginas e
dos outdoors. Talvez, inconscientemente, eu quisesse lembrar: tenho um trabalho, tenho uma
profisso. O Bco, de repente, j no se conformava.
         - Voc no precisa mostrar ao mundo que tem um corpo bonito, que tem esse outro lado
Adriane Galisteu - foi uma de suas frases mais esclarecedoras.
         Esse outro lado Adriane Galisteu quer dizer: a modelo, aquela que continuava, bem ou
mal, no book da Elite. Ele, jamais disse com clareza, mas devia sonhar com outros rumos
profissionais para mim. E tinha mais, aquilo que ele no escondeu mesmo diante dos meus
argumentos do-tipo "mas voc sabia tudo", ou "voc viu os negativos antes". Um sentimento
bem humano chamado cime.
         - Seu corpo bonito  para mostrar s pra mim.
         Eu sou ciumenta, embora disfarce. Ele  ciumento, pensei. "Cime de namorado, isso
passa", me acalmou mame, sempre discreta, quando liguei na manh posterior  tempestade.
"Normal, coisa de quem gosta da gente", reforou Ndia, amiga do Rio, mulher do Oscar Guerra
- outra a quem recorri, por telefone, pedindo colo e luz. O que ele prprio, de certo modo, me
reconfirmou, antes de sair para o primeiro treino oficial, na sexta-feira, 25 de maro, j aplacada a
onda de fria:
         - Me faz s um favorzinho sobre aquilo. Vai na revista e pede os cromos. Todos. Quero
guardar pra mim.
         Nenhum problema. Ele ainda teve tempo de reconhecer, dias mais tarde, que ao
promover todo o furaco o que mais o incomodava era o fotgrafo. At onde tinha ido a ousadia
dele? Exatamente at o ponto que as fotos revelavam. Mas h outro desconto que dou hoje ao
descontrole do Bco, e uma lio que ele sempre quis me incutir, eu reconheo: o perigo que a
celebridade acarreta. No tem nada a ver com a revista, ou com a imprensa, mas tem a ver com a
vida.
         - Eu j estou calejado - dizia ele, alertando para as cascas de banana que invejosos e
futriqueiros gostam de botar no caminho dos que ganham fama e respeito. - Mas voc, que 
menina, preste ateno para no se machucar.
         Foi um maravilhoso cidado, que eu amo, de nome Ayrton, quem me falou essas coisas.
         Melhor tempo na sexta, pole-position naquele sbado em que fomos, de manhzinha, ele,
eu, o Fbio, primo dele, e a esposa, Nice, alm do piloto Nelson, os cinco no mesmo helicptero,
para Interlagos - ele ia chegando l, segundo a segundo conquistado na pista, e eu, gemendo
dentro de meu sentimento de culpa, silenciosa, com meu zper lacrado. Jeito besta de comemorar
um ano de convivncia. Mas teve de ser assim. Muita gente queria falar comigo, eu fui avisando:
nada de entrevista. Me escondi o mais que pude. At os amigos estranharam. Braga, sempre o
Braga, me alertou:
         - O homem est uma fera, garotinha.
         S com o Cristiano eu me abri um pouco. Contei sobre a briga, o medo de tudo acabar
ali. Ele no me socorreu nem um pouquinho:
         - Gosto de voc, mas, se fosse minha namorada, eu terminava.
         A veio o domingo do GP e aquela realidade prevista por ele deu-lhe uma rasteira, a
poucas voltas do final. Se  que eu o conheo, a rodopiada do Williams num ponto meio bobo
foi at melhor. Seria um castigo subir ao pdio, no Brasil, em posio de inferioridade ante "o
alemo". Cheguei em casa antes dele - Ayrton esperou horas para o autdromo esvaziar e sair em
relativa liberdade. Na sala, triste com o resultado, estava tambm o Gordinho, reclamando:
         - Mas o que  que o Bco tem? Ele no falou comigo.
         - No est falando com ningum - disse eu.
         - Vou conversar com ele - disse o Gordinho, com ares de ofendido.
         - Fica quieto - pedi. - Seno vai estragar tudo. No  nada com voc.
         Chega o Ayrton, ainda cansado, vem para junto do sof e senta no meu colo. Meu
corao esguichava de alegria. Ficou assim uns vinte minutos, conversando demoradamente com
o Gordinho, falando da prova, de motores, da derrapagem. J estava pensando em outra coisa: o
lanamento, na tera-feira, da marca Audi, que passaria a representar no Brasil. Fomos para o
quarto. Ele estava exausto. Como fazia em noite de corrida, tomava uma Coca-Cola e procurava
descansar. Foi horrvel dormir sem falar com ele. Pelo sim, pelo no, estava louca para acertar os
nossos ponteiros.
        - Me, preciso falar - l estava eu, de novo, no dia seguinte, alugando os ouvidos de dona
Emma.
        - Seja forte, filha. Espera o que for preciso esperar. O momento  todo dele.
        A frustrao da derrota no tirou a animao de um nico dos dois mil convidados da
festana da Audi, num hangar do Aeroporto de Congonhas. Com direito a J Soares de mestre
de cerimnias e a muita gente, entre os convidados, que eu no via havia sculos. Antes de me
pegar em nossa casa, ele queria saber de minha roupa:
        - Linda - eu quis ser vaga.
        - Linda como? Quero ver.
        Era um vestido preto, de veludo alemo, totalmente fechado. Quando ele me deixou na
mesa, para circular e cumprir seus deveres de anfitrio, a Bianca, sobrinha dele, me alertou:
        - Dri, tem uma irm gmea sua aqui. Naquela mesa, com o mesmo vestido.
        Olho de mulher. O meu era, supostamente, um vestido exclusivo. Esperei apagar a luz e
fui ver quem era. Birgit, a fiel amiga. Saia-justa total. Mas ela, solidria:
        - Fica tranqila, no vou me levantar daqui um minuto.
        No levantou. Eu levantei, eufrica, ao final do discurso do Ayrton. Ele subiu ao palco
com a surpreendente tranqilidade de um locutor. O meu timidozinho me espantava. O fato 
que j fazia algum tempo que eu o sentia curtindo uma coisa nova: ver crescer o seu lado
empresrio. Ele, que sempre delegou o assunto dinheiro e investimento para o pai, para o primo
Fbio, para o Lo, para o Julian, agora comeava a tomar gosto. Mais um sinal de maturidade - e
de sintonia com um futuro mais cedo ou mais tarde distante da Frmula l.
        A ltima viagem antes de Interlagos, por exemplo, tinha sido de business puro: o acerto
final com a Audi, uma conversa com a direo da Montblanc, a das canetas, a representao das
motos Ducati e de uma excepcional bicicleta de fibra de carbono - Carraro, italiana - que custaria
uns trs mil dlares, por a, cada uma. Preparava o lanamento de seu gibi: Senninha. Pelo
roteiro, ele tinha uma namorada loira e de olhos verdes. O nome seria revelado no nmero 2:
Dri. No foi, mas ainda assim fico satisfeita em saber que a revista, sonho dele, continua a
circular - com tiragem recorde.
        Sem falar de seu empenho, eu diria mergulho pessoal na hora de acertar o contrato com a
Williams. Ayrton era senhor de si mesmo. Isso devia incomodar a quem o queria sempre menino
tmido e submisso.
        Procurei, naquela semana, a me do Bco. Queria uma conversa a ss - sabia que o
senhor Milton estava na fazenda. O assunto com dona Neide ainda era a revista Caras. Acabei
dormindo l, no quarto dele - que, s vezes, sem esconder de ningum, era tambm quarto nosso.
Tinha, com a Zaza, intimidade at para fazer aquilo que eu fui fazer:
        - Posso pedir desculpas?
        Sabia que a famlia, muito religiosa, poderia ter se chocado. Ela meio que desviou:
        - Voc no tem de pedir desculpas a mim. S acho que voc no foi nada elegante.
        - Me fala sinceramente o que a senhora achou.
        - No sei, acho que voc caiu em contradies no texto. Disse, por exemplo, que no
admitia que a chamassem de lraburra e, logo depois, admite que no fala ingls.
        No podia ser por um curso de ingls que eu perderia uma afeio quase maternal. Ela, na
realidade, no estava disposta a aceitar a minha verdade.
        - E, depois, se h algum a quem voc tem de pedir desculpas  ao Bco.
        O que ela no sabia  que, assim como o ingls, assim como entre o Ayrton e eu, tudo
estava acertado - zerinho em folha.
         Naquela noite do lanamento do Audi, depois de nos trocarmos, depois daquela
formalidade toda do "que tal a festa?", essas coisas, achei que era hora de falar srio. Ele apagou a
luz, eu lhe pedi para acender.
         - Tive pensando em tudo e preciso falar com voc, de novo - iniciei, ponderada. - Vi onde
errei e reconheci meu erro. Mas e voc? Voc perdeu a razo. Por que voc fez aquilo?
         - Desculpa - ele, pela primeira vez, usou a palavra-chave. - Eu no precisava falar daquele
jeito. Estava chateado, nervoso.
         - Fui muito correta at agora - continuei. - Nosso relacionamento ainda pode ser normal,
daqui para a frente? Voc coloca uma pedra em cima disso a?
         - Uma pedra, no. Coloco uma montanha. Esquece... Adoro voc.
         E me sapecou um daqueles beijos que me levavam  Lua. Senti-me em famlia, como
sempre, no fim de semana que passamos na fazenda de Tatu - aquela que seria sua ltima visita 
Dois Lagos. Dia 3 de abril, a roda-viva do circo entraria de novo em movimento: ele ia para o
Japo, levando suas preocupaes tcnicas com o Williams e a incerteza sobre um circuito que
jamais entrara na temporada de Frmula 1, Aida. Combinamos ali nossos prximos passos: eu
ficaria, evitando uma viagem desgastante e um lugar incerto, e, a sim, a partir de mola, 1 de
maio, e para toda a temporada europia, at o Estoril, em setembro, ele queria ter-me por perto.
         Seria uma separao de quase um ms - nunca tinha acontecido isso conosco. Por uma
boa razo: em So Paulo, eu ia cair de cabea num curso de ingls, gnero imerso total, no
Berlitz. Era um prmio e uma responsabilidade. Ayrton visivelmente investia em mim, em
meu futuro, em minha companhia. L do Japo, ele me ligava todos os dias, com a mesma
pergunta: "E o ingls, como est?" Um fax meu diria mais do que minhas palavras. Dizia: "Minha
vida est dura sem voc, mas estou tentando canalizar todas as foras para meu curso de ingls.
Por enquanto, entendo mais do que falo, mas com certeza eu chego l". Em ingls, tudinho.
         Conversvamos todos os dias - sem exceo. Nos horrios mais incrveis, culpa do fuso
horrio, mas tambm da nossa ansiedade em nos falar. Um dia, o telefone me despertou s seis
da manh - e ele tinha uma surpresa para mim:
         - Voc j foi  banca?
         - P, a essa hora, Bco?
         - Ento, vai.
         Era o sinal definitivo do sacode-a-poeira-e-d-volta-porcima: na capa de Caras, ns dois,
ele e eu, fotografados numa de nossas ltimas temporadas na fazenda de Tatu. Muitas fotos, os
dois abraadinhos ao pr-do-sol, a cavalo, passeando de mos dadas. Ele havia liberado as fotos
para a mesma revista que tinha sido nosso drama. A mensagem era, no mnimo, mais um aceno
de desculpas. Ele assumia, de pblico, sem nenhum constrangimento, seu idlio. Detalhe: o
cenrio do romance era a fazenda, propositalmente o lugar mais familiar de todos em que
convivamos. Tinha alguma coisa de simblico a, no tinha?
         Aquele 3 de abril em que o vi pela ltima vez me encheu da certeza de que um
relacionamento novo, maduro e feliz se instalara entre ns dois, depois daquele terremoto.
Estvamos de bem com a vida. Fiz a mala dele e a deixei pronta, para a volta da fazenda.
Tivemos a tarde toda para, no apartamento da Paraguai, falar, rir, relaxar, amar - como talvez
nunca tivssemos nos amado. Foi um dia especial - e nem ele nem eu haveramos de desconfiar
por qu. Levei-o a Cumbica no meu Fiat e ainda tnhamos meia hora para gastar. No carro. Papo
delicioso. Abraos e beijos. Ele se despediu com aquele sorriso gostoso:
         - Estou de olho em voc, garota.
         - Eu tambm estou de olho em voc, garotinho. J estou com saudade.
         - Estou de olho em voc, garotinha. Tambm com saudade.
         Ele ainda repetiu, cheio de carinho. A despedida, mais os suspiros da longa tarde de amor
que tivemos no dia de sua partida para o Japo, e mais aquele beijo de partida, caliente, de novela
mexicana, aquele beijo que trocamos ainda dentro do carro, tudo aquilo me rodopiava na
memria como uma mensagem enigmtica que eu precisava decifrar - um quebra-cabeas cujas
peas, justapostas, me indicariam a rota da minha futura relao com ele.
         Este era o seu estilo de se relacionar com a vida e com a pessoas. Discreto por natureza,
dizia o mnimo necessrio; mas, determinado em tudo o que fosse do seu interesse, agia no
sentido do fundamental.
         Surpreendi-me, uma vez, com uma inconfidncia, feita na cumplicidade dorminhoca do
sol de Angra, ao final de um entardecer de pura alegria:
         - Um dia, vou me casar com voc - (e eu me vi imediatamente, sei l por que, de vu e
grinalda, naquela capelinha na Jipia, ali pertinho, aquela mesma a que ele se referiu na nossa
primeira noite de amor). - E um dia vou correr na Ferrari.
         Sinceramente, fiquei honrada de estar em to ilustre companhia. Ele acabara de assinar
contrato com a Williams, por aqueles dias. Pensava em disputar duas temporadas na escuderia de
seu querido Frank, a de 1994 e a de 1995. Era o melhor carro nas mos do melhor piloto - ainda
me lembro, como se fosse hoje, de ter lido isso num jornal ingls insuspeito, o Sunday Times.
Era o que todo mundo dizia: Senna-Williams, dupla invencvel.  puro palpite meu, mas
desconfio que ele sonhava em repetir, graas  Williams, o feito de seu dolo Juan Manuel Fangio
- o argentino cinco vezes campeo naqueles tempos pioneiros do automobilismo, em que o
talento do homem valia mais do que o desempenho da mquina. Repeti-lo, jamais super-lo.
Ayrton dizia que Fangio  insupervel. Mais duas temporadas l, na Williams, e o obcecado
Ayrton se daria por satisfeito, como trs e dois so cinco.
         Da a inesperada histria da Ferrari.
         - Encerro minha carreira l - me garantiu.
         Dois anos mais, calculava ele, a escuderia do cavalinho rampante teria um carro mais
competitivo (onde quer que ele esteja, deve ter vibrado com a primeira vitria da Ferrari, neste
ano de 1994, no GP da Alemanha, ainda mais sabendo que o vencedor foi seu amigo Berger).
Mas o fantico por resultados no queria o vermelho de Maranello para exibir sua performance
tcnica.
         - Mesmo que o carro da Ferrari ande tanto quanto um fusquinha, eu quero estar l na
minha ltima largada, na minha ltima volta, na minha ltima bandeirada - sonhava. - A Ferrari 
a mstica da Frmula 1. A griffe, a histria, a tradio, a alma, a paixo.
         Alm de tudo, ele tinha adorao pela torcida italiana. E vice-versa. Este  o Ayrton
Senna que eu conheo: um homem capaz de fazer de sua aposentadoria uma gentileza. J
comeava a pensar no futuro - e o futuro no comportava cofres de dinheiro abarrotados na
Sua, e sim o prazer de pequenas e significativas atitudes. So exemplos assim que fizeram dele
uma figura excepcional - e que especialmente as pessoas que privaram com ele tm o dever de
respeitar, para sempre.
         S que todos sabem que a infalvel dobradinha Williams-Senna foi atropelada pelo
inesperado. No GP do Brasil, por Michael Schumacher e uma derrapada meio esquisita. No GP
de Aida, no Japo, no qual ele tinha tudo para vencer, por uma situao que fao questo de abrir
aspas, para mostrar o grau de irritao dele quando me ligou:
         - Voc no sabe, Adriane, o que  fazer uma viagem longussima como esta, trabalhar
feito louco em cima do carro, para vir um debilide e bater na traseira de seu carro, antes mesmo
de completar a primeira volta. Voc no tem idia de como eu fiquei.
         Tinha sim. Eu sabia o que significava para ele perder. Sabia o que significava perder
daquela forma - sem ter sequer a chance de se pr  prova. Eu ficara acordada de madrugada,
sofrendo com o fuso horrio, porque sabia quanto aquela prova em Aida significava para ele.
Minha me estava a meu lado, solidria, no apartamento da Rua Paraguai. Houve a cassetada do
Mika Hakkinen. Desliguei a tev. Respirei um pouco, liguei de novo. Ayrton estava to louco de
raiva que nem cumpriu aquele seu ritual de sempre - foi embora de capacete e tudo na cabea.
         A prova foi dia 17 de abril. Eu tinha um motivo a mais para torcer por uma vitria dele:
queria-a de presente de aniversrio. Dia 18, eu atingiria a minha maioridade. Pela primeira vez, o
melhor motivo de minha alegria estava a milhares de quilmetros de distncia. Distra-me com as
lembranas dos amigos. Recebi telegramas, os meus colegas do curso de ingls apareceram com
um bolo de 21 velinhas e me cantaram o Happy Birthday, mas eu pedi para sair mais cedo, meio
sem graa. Busquei o colo de mame, corri ao shopping para me dar presentes a mim mesma, fui
para o apartamento na expectativa daquele telefonema.
        Dez, onze horas, meia-noite - nada. Eu tinha aula no Berlitz de manhzinha. Revirava na
cama. Esquecer, ele no esqueceu: se no ligou  porque alguma coisa est errada. Foi o
aniversrio mais triste de minha vida.
        Por algumas horas, quero dizer. s seis da madrugada, o telefone da cabeceira tocou e
aquela voz conhecida, a j totalmente Bco, sem nenhum sinal de ressentimento do Senna,
gritou:
        - Parabns! Como foi seu aniversrio?
        - Como voc acha que foi, se a pessoa mais importante da minha vida no me ligou, no
me deu notcia? - rebati.
        Ele se desculpou: trabalho, preocupaes, reunies, fuso horrio.
        - No pensa que esqueci. Vou te dar todos os presentes do mundo.
        Quis saber como ele se sentia com os resultados adversos:
        - Vinte pontos atrs, no h de ser nada. A prxima  minha.
        Na prxima, na Europa, eu estaria com ele. Bco haveria de encontrar na Europa uma
nova Adriane Galisteu. Seguindo as orientaes do Nuno Cobra, seu preparador, aproveitei
aquelas semanas de ausncia dele para correr no Ibirapuera. Aos pouquinhos, gradativamente -
at o pulsmetro, o sempre gentil Nuno me emprestava.
        Seria uma surpresa para ele: acompanh-lo, j no mais numa envergonhada bicicleta, mas
no pique dele, uma hora e dez, uma hora e meia de corrida, o giro que ele dava em volta do
condomnio do Algarve. Dali do Ibirapuera, um banho rapidinho e imerso total no ingls.
Berlitz - sala de aula, almoo, caminhada, voc s podia falar ingls. Eu era minoria na hora de
votar no almoo no McDonald's. Mas tinha o Tatou ali perto e passei literalmente dias e dias
comendo um delicioso sanduche de camaro.
        Ansiosa, j que a viagem se aproximava, ainda pedi  Gabi, uma das professoras, aula
extra em casa,  noite e at aos sbados. No dia 21 de abril, ele j em Portugal, feriado no Brasil,
testei com ele meu progresso no ingls. Passei um fax pra l de ntimo, com declarao explcita,
eu diria mesmo apimentada, de amor. Confesso que a Gabi deu uma olhada, para corrigir - e
ficou corada. Ele tambm, a julgar pelo que me disse ao telefone no dia seguinte. Estava to
empenhada que tive aula de ingls at a tarde de sexta, 29. O vo Varig com destino a Lisboa
partia s 22h10 daquela sexta-feira.
        Olhando hoje para trs, sinto que havia uma sintonia inconsciente, ele e eu, eu e ele.
        - No vejo a hora de voc chegar aqui - me dizia, ao telefone.
        Na verdade, muitas outras coisas estavam sendo ditas e estavam para ser ditas, percebo
agora. A distncia tinha reforado uma relao que chegava a seu turning point. Dali, seria
impossvel recuar. Perguntava eu para mim mesma, perguntava ele para si mesmo - com certeza -,
ns nos queramos perguntar a ns mesmos: por que essa atrao? O que significavam, de fato,
aqueles catorze, quinze meses de namoro? O que esperar do futuro? Podamos nos considerar
pessoas felizes? J tnhamos vivido o idlio e o conflito. Nossa conscincia apontava para a frente.
Com os braos estendidos e o peito aberto, corri para a felicidade:
        - Estou feliz, feliz - repetia para ele, ao telefone. Tinha perdido meu ltimo medo. O de
namorar um mito, uma instituio - e de ter de reparti-lo com o mundo. Na verdade, meu
namorado era um homem; e esse eu o tinha s para mim.
        Voc pode imaginar o que  receber um telefonema do Ayrton Senna e, de repente, ele
desabar a chorar? Soluava, chorava - suas palavras, embora ntidas e claras, eram interrompidas
por longos silncios que prenunciavam lgrimas e desespero. Assustei: tinha-o visto chorar de
raiva, como daquela vez em que voou no pescoo de um fotgrafo. Seu choro tinha sempre a ver
com o sentimento de injustia: um maluco que lhe atravessasse o caminho na pista, como o
irlands Eddie Irvine, um jornalista que ultrapassasse as boas maneiras da elegncia e da
privacidade.
         Mas aquele era um choro convulsivo, infantil, que me deixava em pnico.
         - Que que houve? Que que houve? - eu tentava entender.
         Era sbado, 31 de abril de 1994. Tinha chegado  quinta da Luiza e do Braga em Sintra
pouco depois do almoo. Nem me incomodei de desfazer as malas, porque meu destino era o
Algarve. Naquela mesma noite, pegaria um avio para Faro e iria para a nossa casa do
Condomnio da Quinta do Lago. Era uma bagagem e tanto. A idia era essa: acompanhar com ele
todos os cinco meses da temporada europia. Do GP de San Marino, aquele 1 de maio, at o
GP de Portugal, 25 de setembro. Primavera e vero - de mais a mais, a casa do Algarve estava
reformadinha, uma lindeza, havia aquele cu azul do Mediterrneo contrastando com as paredes
caiadas de branco e, quando era hora de trabalhar, bastava convocar o comandante Mahonney,
um ingls engraadssimo, tirar o avio do hangar e nos deslocarmos para o local da prxima
corrida.
         Eu sonhava com a hora de envolv-lo nos meus braos na noite de domingo, em nossa
casa - depois da prova de mola. Cinco meses de ensolarada lua-de-mel. Na nossa relao, toques,
olhares, expresses, at mesmo o silncio sempre foram muito mais valiosos do que palavras.
Mas que era isso mesmo que nos esperava, cinco meses de efervescente amor, era. Eu mal podia
esperar.
         Mas a ele me surpreende com aquele seu profundo abatimento, na vspera, assim que eu
cheguei a Sintra:
         - Que bom escutar sua voz - ele tentou se consolar.
         - Mas me conta: como esto as coisas a?
         - Est tudo uma merda!
         S ento fiquei sabendo do acidente do Rubinho Barrichello (ele tinha acompanhado o
companheiro ao hospital, ainda se sentia chocado, embora soubesse que o piloto brasileiro estava
fora de perigo).
         - Uma merda! Uma merda! - repetia e soluava.
         - O caso do Rubinho?
         - No, no, um austraco. Menino. Segunda corrida dele. Bateu e morreu... Eu vi: morreu
na minha frente... (o choro entrecortava a histria...) E o pior  que esto dizendo que ele morreu
no hospital. Ele morreu aqui... Eu vi...
         De repente, de dentro de seu sincero descontrole, brota a maior de todas as surpresas:
         - Sabe de uma coisa? Eu no vou correr.
         Demorei a entender:
         - O qu? No vai ter corrida?
         - Voc no conhece eles?
         Eu j tinha um razovel conhecimento para compreender aquilo que ele me dizia de
modo meio enigmtico. Quando ele desligou, corri para a televiso. Haviam sido quinze minutos
de soluos, queixas, dvidas, raivas de um homem que nunca se deixava levar na sua carreira
seno por pensamentos positivos. Ele estava baqueado, de verdade. Comentei com Luiza, a
minha anfitri:
         - Ele est ansioso, muito nervoso. No vai correr. Estvamos todos ansiosos, nervosos.
Fazia doze anos que a Frmula 1 no provocava uma morte em plena pista. Nos telejornais, as
entrevistas deixavam entrever a surpresa, a tenso e a possibilidade do cancelamento da prova.
Mas na minha cabea ecoava aquela frase foral do Ayrton, aquela: "Voc no conhece eles?" O
show tinha de prosseguir.
         A apaziguante presena da Luiza me fez cochilar no quarto, o nosso, do anexo, da "Casa
do Ayrton" - cansada que eu estava da viagem de So Paulo para Lisboa. Tambm me acalmava,
definitivamente, saber que estava em San Marino, com o Ayrton, aquele que por dez anos, com o
jeito meio brincalho de quem est s se divertindo, na verdade deu a ele a fora espiritual e
afetiva de um paizo como daqueles que no se fazem mais no mundo. O Braga estava l, com
ele, como sempre esteve. Se o desespero ou a desiluso grudasse na alma daquele campeo da
fibra e da coragem chamado Ayrton Senna, sempre haveria aquele paizo  mo para traz-lo de
volta ao bom senso e  realidade.
        Segundo pai, conselheiro - a amizade de Braga chegava a detalhes como o de ter de deixar
na garagem da quinta de So Pedro de Sintra, para as espordicas visitas de Ayrton, um Honda
NSX metlico igualzinho ao que ele teve em So Paulo (depois de tudo o que aconteceu, o
Honda continua na garagem, silencioso, de luto, coberto de p, pois o doutor Braga avisou aos
criados que no quer que ningum toque o dedo nele).
        Peguei o avio para o Algarve s 20h30 com a alma bem mais leve. Juraci, a caseira, me
buscou, cordial como sempre, quis me cobrir daqueles agrados tipicamente portugueses que
desafiam os ponteiros da balana, conversamos demoradamente, fizemos planos para a recepo
do dia seguinte e s ento me recolhi. Sentia tanta falta fsica dele, depois desse ms de distncia,
que abri os armrios do nosso quarto, o closet dele e afaguei-lhe as roupas, em busca de seu
cheiro masculino. Sua presena se sentia tambm na mesa com o fax, os papis arrumadinhos, na
revista deixada no canto - sim, aquele Nova Gente que trazia ns dois na capa, mesma
reportagem de Caras. Considerei aquilo uma homenagem proposital dele.
        Ao sair do banho, o telefone voltou a tocar. Atendi no banheiro, espreguiando sobre o
tapete branco e alto, fofo como o plo de um gato angor:
        - Beco, est se sentindo melhor?
        Ele no chorava, mas sua voz era um fiapinho:
        - Olha, minha cuca est no p. O Braga, o Lo e o Galvo (Bueno, da TV Globo) esto
aqui, graas a Deus. Samos para jantar, conversamos, estou melhor.
        Traduo: ele ia correr, e ia correr para vencer.
        - Estou preparado para sentar no carro e acelerar fundo - disse.
        Seu generoso corao preparava, em segredo, uma surpresa. Em vez da bandeira do Brasil
que ele costumava acenar nos dias de vitria, j tinha encarregado um amigo de conseguir uma
bandeira da ustria. Seria sua homenagem ao infeliz Ratzenberger. Um iniciante na Frmula l.
Mas, para Ayrton, no existem hierarquias nem na vida nem na morte. Ele me confidenciou seu
gesto. Juro que a quem teve vontade de soluar fui eu.
        Disfarcei com uma certa irritao:
        - P, quando morre algum da famlia, pra tudo, no pra? As pessoas pem luto...
        Soube depois, pelos amigos, pela imprensa, que a prova de mola esteve por um fio.
Ayrton deu declaraes pblicas denunciando a insegurana do circuito e lamentando os
acidentes. Mas ele era a ltima pessoa do mundo a poder comandar uma operao-boicote. Tinha
perdido as duas primeiras provas, estava atrs de resultados, qualquer atitude sua poderia ser
entendida como um pretexto para ganhar tempo, para no competir. E, se havia coisa no mundo
que Ayrton no era, era frgil e covarde. Comigo, naquela noite, s vsperas da tragdia, ele s
repetiu seu constrangimento sintomtico:
        -  assim mesmo, esse pessoal  assim mesmo - para logo mudar de assunto.
        A caseira interrompeu para anim-lo com o cardpio que ela preparava para a chegada.
Tpico da simplicidade dele: galinha grelhada e legumes no vapor. Peguei de novo o telefone.
Falamos de ns. De saudade e de amor. Trocamos juras apaixonadas.
        - Preciso lhe dar umas palmadas - disse ele.
        - Palmadas? Por qu?
        - Tenho muito a lhe dizer. A lhe propor. A lhe oferecer - prosseguiu. - Devo estar a s
20h30, por a. Quero passar a noite em claro. Vamos conversar at o amanhecer. Quero
convenc-la de que sou, disparado, o melhor homem de sua vida.
        Ri, com aquele comentrio inesperado.
        - Voc no conhece os outros... - brinquei.
        - Vou provar-lhe que sou o melhor.
        Meu Deus, ele  o melhor homem de minha vida. O nico. Ser que eu ainda no deixara
isso claro para ele? Ele era uma ddiva, um presente, um paraso. Na nossa conversa noturna e
meio bobalhona de dois enamorados, nem de longe imaginei que houvesse espao para a intriga
ou o veneno. De nossa parte, no havia. A paixo era nosso nico alimento...
        - Tenho novidades para voc - anunciei, ao me despedir.
        Queria contar pessoalmente. Besteirinha  toa, mas que para mim significava suor e
progresso. Ia desafi-lo para uma corrida, to logo ele estivesse recuperado da canseira de mola.
        - Se for preciso, eu entro na fila, como qualquer f. Na minha catatonia, as idias se
embaralhavam. Mas nessa idia eu tentava me apegar, com todas as foras: a de estar preparada
psicologicamente na chegada ao Brasil. Para o que desse e viesse.
        Eu no falava, no comia, no reagia - simplesmente tinha me deixado ficar, na poltrona
do avio, junto  Luiza e ao Braga. Uma das comissrias, preocupada, chegou a me aconselhar:
        - V pra cabine de comando. Talvez l voc se sinta melhor.
        Menos de uma semana atrs, eu tinha ido a Portugal, carregada de planos e de felicidade,
para me encontrar com ele. Agora, voltava a So Paulo para enterr-lo. Ser um exagero dizer que
foi a mais longa, a mais angustiante, a pior viagem de minha vida?
        De Lisboa, escala no Rio. Um tempinho a mais de agonia. Os comissrios permitem,
porm, que Luiza, Braga e eu fiquemos dentro do avio, enquanto ele  limpado e reabastecido.
Aproveito para ir ao banheiro e me trocar. Aquele conjunto negro com que me fotografaram no
dia. No tinha tempo a perder, queria ir direto para o velrio. O sentido oculto da minha pressa
continuava sendo a agonia da irrealidade. No entendia, no acreditava, no me conformava.
        O avio com o corpo do tricampeo - para mim, apenas meu namorado - chegou vinte
minutos antes do nosso. Imaginava que o caixo tivesse um vidro, uma tampa, qualquer coisa,
que me fizesse v-lo e senti-lo pela ltima vez. Estava completamente lacrado. Senti uma
decepo, um frio na espinha. A bandeira do Brasil em cima. Solenidades marciais no aeroporto.
Uma multido enlouquecida. Para mim, a questo continuava a ser uma s: como tomar contato
com a verdade de sua morte? O esquife partiu, eu fui seqestrada, sem reao, pela Erica,
funcionria do escritrio do Ayrton. Ela passou pela casa dela, pegou o crach que me dava
acesso ao velrio - verde, com a letra F, de famlia, em branco - e fomos para a Assemblia
Legislativa.
        Nunca houve nada comparvel no Brasil. No h de acontecer, to cedo, nada parecido
no mundo. O luto nas ruas. Os carros estacionados sobre parques e gramados. A cidade parada.
As pessoas em pranto - garotos, adolescentes, velhos, todos entregues a um choro sem inibio,
todos improvisando qualquer emblema que expressasse o luto coletivo: bandeiras nos ombros,
cartazes de papelo com fotos do dolo, faixas pretas em torno da testa, e por a seguia a
imaginao popular.
        No houve um nico assalto, um nico furto de automvel, mvel, um nico assassinato
naquela que  uma das metrpoles mais sangrentas do mundo. A ltima homenagem ao heri
irmanava o bem e o mal, pacificava os inimigos, impunha a unanimidade da tristeza. Quem dera
ele soubesse disso! Comigo, era primeiro o espanto do reconhecimento, depois a gritaria
desenfreada: " ela, a namorada, a Adriane". Quando, escoltada por cinco seguranas, entrei no
salo do velrio, por onde desfilavam oito mil pessoas por hora, a minha dor mudou de
qualidade. Percebi o tamanho que Ayrton tinha para toda aquela gente. Sabia que ele era amado,
mas desconhecia o quanto. Ele era meu, mas era tambm de todos os outros.
        Cumprimentei a me, o pai, a irm. Fiquei a distncia, com a minha dor. Vi Nuno Cobra,
sempre calmo, agora dilacerado. Vi o prefeito Paulo Maluf. Vi quando Hebe Camargo depositou
sobre o caixo o tero verde-amarelo que ela mandara fazer - e que, me contaram depois, e custo
a crer, foi arremessado no cho pelo ato impensado de fanatismo de outra pessoa que no
comunga da mesma f. Hebe, chorosa, veio ao meu encontro para me abraar: ", menina, 
Adriane, que absurdo, que tragdia!"
         Coroas de flores, soldados enfileirados, a bandeira sobre o caixo, o batalho de
fotgrafos - eu no conseguia fazer uma ligao entre meu namorado e o homem que recebia
aquelas homenagens. Talvez meu estado cataltico tenha me salvado de dores maiores. Imvel,
acompanhada apenas de minhas lgrimas ou de uma ou outra amiga que me vinha dar a mo, eu
me mantive no mesmo lugar dia e noite. O pouco que sa foi para ver, l fora, o espetculo
doloroso da multido. Quando voltei, o capacete dele estava pousado no caixo. Olhava, e aquilo
me machucava. Dias antes, o Celso, que trabalhava com ele, tinha me avisado: "Ele quer lhe fazer
uma surpresa. Encomendou um, igualzinho, pra voc". Ainda espero por ele. Ou ser que no
devo esperar?
         O F, de famlia, me dava acesso ao - digamos assim - mais privilegiado de todos os lugares
do velrio, mas imaginei a dor que todos ali sentiam, avalio a sensao deles de dar de cara com
aquela que era a imagem mais ntima do Bco dos ltimos tempos. Zaza estava muito abalada.
Viviane, mais ainda. O pai, senhor Milton, no vi derramar nenhuma lgrima, aproximar-se do
caixo uma nica vez, mas essa era sua forma de experimentar sua terrvel dor. Lo vagava, meio
a esmo. Identifiquei o Dito, um parente do senhor Milton com quem a gente costumava pescar
na fazenda de Tatu. Ele no tinha como me consolar, a no ser com aquela conversa meio
estranha:
         - Sei l, se lhe der vontade vai ser um prazer receb-la na minha fazenda para uma
pescaria.
         Luiza e Braga estavam no salo ao lado, o dos amigos. Senti que ali encontraria meu
ponto de apoio. Eles conversavam com o Emerson Fittipaldi, experimentadssimo, mas
abaladssimo. Passei pela outra sala, a dos convidados - tudo tinha sido organizado segundo um
protocolo profissional. Circulei um pouco. Eu me sentia olhada, vigiada. Por sorte, estava muito
desligada. Tinha muita conversa em volta, eu no ouvia nada. Foi duro me conter: diante do
caixo, quantas vezes no senti vontade de perder a compostura, de me arremessar sobre ele, de
gritar, berrar, espernear? Mas havia uma outra Adriane que me puxava para trs: aquela que,
mesmo com uma enorme chaga latejando no corao, assistia a um teatro, da qual ela no fazia
parte, no queria fazer, no tinha foras para fazer. Uma Adriane que no estava ali encenando a
viva. E que nem estava disposta a entrar num intil campeonatinho de viuvez.
         Mendigos, milionrios, crianas, adolescentes, velhos, mulheres, deficientes, garotes,
polticos, artistas, socialites - a fila era um democrtico mostrurio de um pas chamado Brasil que
se recusava a admitir a idia de perder uma das poucas figuras que lhe passavam um sentimento
positivo de vitria. Outros enterros picos houve. Mas Ayrton Senna era o filho, o irmo, o
namorado, o amigo que todo o Brasil queria ter. Era, talvez, o sentimento daqueles bilhetes
arremessados sobre o caixo, pelos que passavam na vertiginosa fila. Com todas as letras, era pelo
menos o que diziam os meus bilhetes - aqueles que as pessoas apressadas, pressionadas pelos
guardas, ainda tinham tempo de me lanar.
         Se fosse resumir todos eles num s, seria mais ou menos assim, um consolo oscilando
entre o futuro e o passado:
         - F, Adriane. Ns sofremos com voc. E torcemos por voc.
         Identifiquei um aleijado que passou uma vez diante do caixo e fez o sinal-da-cruz.
Passou uma segunda vez, a mesma coisa. Terceira vez - o mesmo. Fiquei pensando quanto tempo
ele ficou na fila, arrastando-se no cho. J era noite e a famlia Senna se retirara, para descansar.
Algum se aproximou de mim e props:
         - Vai voc tambm. Ser um dia duro, amanh.
         - Descansar, hoje? Tenho o resto de meus dias para descansar.
         De madrugada, no tenho idia da hora (1h30? 2h00?), algum tocou no meu ombro,
cerimoniosamente. "Tem um senhor chamando voc l fora?" Um senhor? Sim, Frank Williams.
Imvel no meu canto, eu tinha visto quando, sempre amparado em sua cadeira de rodas, aquele
que havia sido o ltimo patro de Ayrton chegou diante do caixo, guardou um silncio
comovido, alheio a tudo que se passava ao lado, como se estivesse numa comunicao muito
direta com a vtima de um infeliz acidente de trabalho - o seu trabalho. Afastou-se assim como
chegou, sempre muito discreto, como se seu status pudesse ficar invisvel diante da curiosidade
dos que ali estavam. Agora, Frank me mandava chamar l fora. J se instalara no seu carro.
Aproximei-me e ele me disse, como se sua alma falasse, no a sua boca:
         - I'm very sorry, Adriane.
         Repetiu, com sentimento. Na surpresa, no esbocei nenhuma resposta, a no ser um
gesto qualquer de cabea. O chefo de uma das usinas da Frmula 1 pedindo desculpas a mim?
S no dia seguinte, ao v-lo de novo, no enterro,  que fui at ele e o beijei no rosto, com um
obrigado, obrigado. Ainda de madrugada, recostei num sof escondido por um dos tapumes,
atrs do caixo, enquanto a multido continuava seguindo sua romaria. Entorpecida, depois de
cinco noites insones, eu saboreei a primeira sensao de algum alvio espiritual. No era sequer
sono. Mas as imagens que rodopiavam pela minha cabea, na minha viglia sonolenta, evocavam
um Ayrton vivo e emoes bonitas que tnhamos vivido. Um trailer de todos os sonhos que eu
viria a ter com ele, nos dias seguintes - e que at hoje enchem de ternura as noites em que eu rolo
na cama, estendo o brao para alcan-lo e no o alcano.
         Quando, de madrugada, algum me arrastou para o Maksoud Plaza, onde estavam
hospedados a Luiza e o Braga, com o argumento de um banho e recuperar as energias para o pior
de todos os momentos, o do enterro, eu me deixei levar. Na portaria, rabiscado em papel
timbrado do hotel, eu recebi essa mensagem. Leiam comigo, por favor, porque  muito
importante:

       "Filha querida: sei que a sua dor  muito grande, mas voc  tambm forte.
       Eu daria tudo, um pedao de mim, para no v-la nesse estado.
       Mas lembre-se de que eu a amo muito. Pode contar comigo para tudo.
       Cuide-se, que Deus  bom e est sempre com voc. Lembre-se tambm de que voc foi
muito feliz ao lado dele.
       Agora, est doendo muito. Esta dor vai passar, mas a doce lembrana do amor voc
nunca vai esquecer.
       Beijos de sua me que a adora.
       Emma 5-5-94"

         Quando eu estudava num ginsio pblico da Lapa, mal e porcamente freqentando aula
nas horas vagas de meus shows de msica e de minha vida de modelo, os professores de
portugus e de literatura gostavam de indicar livros complicados e cheios de sabedoria sobre a
escrita, sobre a humanidade e sobre a vida. Duvido que, numa hora daquelas, algum pudessse
escrever algo to forte, to direto, to verdadeiro como o que escreveu uma pessoa que teve de
fazer da vida um trabalho e no um lazer intelectual. Guardei o bilhetinho de minha me como
se fosse uma orao de bolso. Ela entendia tudo - ela me entende. Por isso nunca escondi nada
de meus sentimentos para ela. Por isso pedi sua mo e seu colo quando, aqui, distante do Brasil,
ainda que em pas hospitaleiro, comecei a escarafunchar essas minhas lembranas.
         Por pudor e por reserva, minha me jamais esteve pessoalmente com Ayrton, ao longo de
nosso namoro de mais de um ano. Falaram-se ao telefone, trocaram notcias - mas a doce Emma
sentia-se intimidada diante de uma celebridade. No entanto, est escrito, testemunhado,
juramentado: ningum conhecia mais de ns dois, Bco e eu, do que ela. E, assim como deixou a
mensagem, assim se foi, sem querer me incomodar, antes que eu chegasse e antes que eu sasse
para o funeral do heri que, por acaso, tinha sido meu namorado.
         O funeral, ento, seria para mim ainda mais chocante. Do ponto de vista da encenao e
do cerimonial, a namorada poderia estar ali como poderia no estar. O que eu tinha, alm daquele
crach F, de famlia, que me fazia ter uma importncia a qual eu nem ligava, era o amparo dos
amigos verdadeiros e a vontade de acompanhar o Bco em sua ltima viagem. Sem pretenso,
acho que ele, se tivesse como, gostaria muito, mas muito mesmo, de me ver por perto.
         Minha sorte foi sentir, de volta ao velrio, j  espera do enterro, o calor de uma mo
firme e resoluta. Eu estava mais catatnica do que nunca e se no fosse a Birgit, aquela minha
amiga de perambulaes europias, talvez no conseguisse distinguir um p do outro. Birgit
tomou conta, literalmente. No atropelo da sada do cortejo, com helicpteros, nibus, carros,
bandas militares, honras marciais, ela me puxou resolutamente para dentro de um dos
micronibus especiais, onde pude distinguir o rosto amarfanhado de um ou outro piloto: Berger,
Prost, me parece, talvez o Christian. Com a Birgit e o marido, sentei ao fundo, refgio tranqilo.
Mas o nibus se ps em movimento e no resisti a entreabrir a cortina e olhar para fora.
         Pessoas choravam, gritavam, acenavam. Sentia, no movimento dos lbios de alguns, a
identificao imediata: "Adriane... namorada..." As fotos que tinham sido o pretexto de nossa
briga eram exibidas a mim - que ironia - como sinal de algo de que ele haveria de se orgulhar. A
outra reportagem, do casal ao pr-do-sol na fazenda de Tatu, o atestado pblico do amor dele
por mim, tramado por ele, presente-surpresa para o reencontro que no houve, virou pster,
virou smbolo, virou sei l o qu - as pessoas queriam,  passagem do funeral, compensar o luto
com a imagem de um homem feliz, bonito e vitorioso. Ele me reconhecia, eles me reconheciam,
eu chorava.
         Lento o cortejo, e no meio da massa uma figura da qual no vou me esquecer: um
pretinho, adolescente, comeou a correr ao lado do nibus, bem abaixo de minha janela. Acenava
para mim e chorava. Acenava, chorava e corria, no ritmo do nibus. Tenho a impresso de t-lo
visto a primeira vez ali no final da Avenida Rebouas, quase na ponte que atravessa a Marginal de
Pinheiros. Ao chegarmos ao ponto de desembarque no Cemitrio do Morumbi, ele continuava
ali, embaixo da janela, acenando, correndo e chorando. Tento adivinhar quantos quilmetros so:
oito? Dez? A entrada que levava  tumba era restrita - mais uma vez, Leonardo tinha acionado
um impecvel cerimonial. Vi o crioulinho e pedi para que ele viesse tambm, em homenagem a
seu esforo. Mas foi ele quem dispensou:
         - Vim at aqui porque amava o Ayrton. Daqui pra frente, no tenho mais nada a fazer,
no senhora.
         Sbias palavras. No era ele o nico que estava dispensado de participar - me desculpem a
sinceridade - da festa.
         Comigo, muito respeito. E a mo da Birgit pousada no meu ombro, servindo de
retaguarda. Lugares marcados, e l estava para a Adriane Galisteu reservada uma cadeira na
segunda fila, atrs da me, do pai, do irmo, da irm, dos sobrinhos. Por um momento, recordo-
me de ter acariciado o ombro do senhor Milton, de p, bem a minha frente. Calado em seu
sofrimento, ele cedeu a um leve tremor de susto, quem sabe de reconhecimento. Ao me
aproximar do meu lugar, vi, ao lado, a Xuxa. O cerimonial achou por bem botar uma ao lado da
outra. Ela estava muito bonita - bonita como ela sempre . Desde menina, eu a admirava.
Cheguei a me apresentar no programa dela, com o Meia Soquete, anos atrs. Era como se fosse
uma figura familiar para mim.
         No meu torpor, no senti um milmetro de estranheza ao reencontrar ali uma ex-
namorada de Ayrton Senna. Estranhei, isso sim, quando a minha chegada provocou nela o
imediato efeito gangorra. Foi eu sentar, ela se levantou. Buscou lugar do outro lado, num outro
conjunto lateral de cadeiras.
         Reconheo: talvez eu nem me desse conta de nada, absolutamente nada, se a imprensa
no tivesse, nos dias seguintes, insistido na falsa questo da competio. Naquela histria de ela
chegar de helicptero, eu de nibus - ou a verso maluca de que um segurana me impediu de
entrar no carro da famlia, na hora de ir embora. E de ela ter se hospedado com a Viviane, irm
do Ayrton, enquanto a famlia me ignorava. Sabem o que penso? Eu no estava ali para disputar
o papel de viva. Eu estava ali porque a nica coisa que realmente me interessava eu perdera.
Queixas, rancores, cime eram sentimentos que no cabiam no meu corao, onde s
transbordava a melancolia e a dor.
        Quem sou eu para julgar? A correspondncia que desabou sobre mim, nos dias e nas
semanas seguintes, os telefonemas recebidos, as manifestaes espontneas, tudo, ou quase tudo,
parecia trazer, alm da marca do consolo pela perda, o sentido de uma solidariedade explicita -
coisa que eu nem entendia bem, na minha cabea vazia de toda e qualquer noo de realidade.
Detive-me, a princpio, num texto ditado pela prpria mo de Deus e por Sua sabedoria. O salmo
81 veio sublinhado, num papel avulso da Bblia:
        Deus se levanta no conselho divino. Em meio aos deuses, ele julga:

       "At quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos mpios?
       Pretejei o fraco e o rfo,
       Fazei justia ao pobre e ao necessitado.
       Libertai o fraco e o indigente
       Livrai-os da mo dos mpios.
       Eles no sabem, no entendem,
       Vagueiam em trevas:
       Todos os fundamentos da Terra se abalam.
       Eu declarei: Vs sois deuses,
       Todos vs sois filhos do Altssimo.
       Contudo, morrereis como homem qualquer,
       Caireis como qualquer dos prncipes ".
       Levanta-te,  Deus, julga a Terra.
       Pois as naes todas pertencem a ti.

         Salmo 81. Coincidncia? O dele, predileto.
         O ba com os milhares de cartas que me chegaram, pelos caminhos mais transversais do
mundo, so hoje o meu mais genuno tesouro. Algumas nem cartas eram, os recortes de jornais,
com rpidas anotaes sobre fotos minhas e de outras figuras do adeus ao Bco. "Sempre s",
escreveram a meu respeito sobre uma das fotos de jornal. Sobre outra, em que,  frente do Prost,
eu olhava para cima, a mo tapando a boca, rabiscaram: "Linda! O Ayrton te olhar do cu". A
atitude em meu favor dos deserdados de Senna - todo aquele mundo subitamente rfo - me
aliviava. A atitude contra algum, eventualmente, me era indiferente.

       "Silncio para injria.
       Olvido para o mal.
       Perdo s ofensas (...).
       No te voltes contra ningum.
       E assim vencers."

         Poema em forma de orao. Como em outros casos, com amor, mas sem assinatura.
Sinceramente, no entendia por que tantos se preocupavam em falar em perdo e em inimigos.
Eu nunca os tive, nunca os cultivei. Mas havia tambm cartas de pura dor e desespero, como a da
francesinha de 15 anos, Julia, de um lugarejo da Provence, que, num cansativo esforo de se
comunicar em ingls, me dizia que compartilhava comigo o amor por Ayrton Senna e que
naquele 1 de maio tambm teve mpetos de se matar.
         Da Inglaterra, de Portugal, do Japo, da Itlia, da Sua - e especialmente do Brasil, as
pginas que eu ia lendo e catalogando, com pacincia, revelavam s vezes histrias tenebrosas, na
identificao com o meu sofrimento e na v tentativa de dizer que, um dia, isso pode passar. Da
Alemanha, uma linda carta enfeitada com trevos de quatro folhas e palavras de nimo. Dentro de
um envelope, flores secas colhidas dos buqus que, numa romaria que no pra nem h de parar,
os fs depositam no tmulo dele (antes de viajar para Portugal, tentei passar despercebida, bem
cedinho, de manh, com a amiga Isabel, no cemitrio, para lhe prestar uma homenagem
silenciosa, mas  impressionante a peregrinao diria dos fs inconsolveis). Uma mocinha do
Rio insistia no tema de "esquecer as mgoas" (que mgoas, me perguntava?) e "ser superior":
         "PS: que voc seja a eterna primeira-dama da Frmula 1. Como Jacqueline Kennedy  a
eterna primeira-dama dos Estados Unidos".
         Adolescentes, velhos, homens, mulheres, empresrios, amigas que tinham sumido de
vista. Poetas que jamais tinham escrito poesia revelavam uma sbita vocao, como o Sandro, do
Limelight - onde Bco e eu nos conhecemos. Msticos me acenavam com frmulas de alvio
rpido. Um nmero surpreendente de cartas psicografadas, assinadas Ayrton Senna da Silva, ou
at A. S. da Silva, passavam, de algum lugar para outro lugar, a idia de que o destino fora
traado, que o repouso do guerreiro era resultado de vontade superior e quanto ele sentia os
efeitos da separao fsica. Gostaria de acreditar nessa possibilidade da comunicao com ele. De
v-lo, nem que fosse por um segundo.
         Ao amarrar no brao a correntinha mgica que minha amiga carioca Bebel me deu, antes
da viagem para Sintra, eu tinha trs desejos a fazer e este, de v-lo de novo, onde quer que seja,
foi o terceiro, pela ordem, mas o mais importante, o mais aguardado e talvez o mais improvvel
deles.
         Uma dessas cartas que recebi trazia o recorte de jornal anunciando que Senna ia virar
nome de uma estrela. Homenagem de astrnomos da Europa. Estrela para sempre - nada mais
perfeito. Assim ser, remoia eu, recolhida pelos braos sempre estendidos da Luiza e do Braga,
nos dias seguintes ao enterro, na fazenda Guariroba, a poucos quilmetros de Campinas.
         Ayrton Senna da Silva, no h quem duvide, foi o mais valente, o mais genial, o mais
perfeito de todos os pilotos. Isso, a posteridade se encarregar de guardar. Para mim, quero ficar
com a memria do Bco, um campeo da vida. A imagem que me fica, das ltimas semanas, das
conversas s vsperas da despedida, era a de um ser humano integral e completo. Ainda muito
cauteloso no que dizia, ao contrrio da ousadia que ele exibia nas pistas - medindo cada palavra
com fita mtrica, no havia outro jeito. Mas ele se abriu comigo como jamais. Eu mudei, com ele.
Ele mudou, comigo. A carapaa tinha derretido. Ele era um homem, com as virtudes, as
contradies, a firmeza e, me permitam, as dvidas que fazem dessa nossa espcie uma coisa to
especial na ordem da natureza.
         Na nossa ltima viagem a Angra, na semana anterior ao GP do Brasil, ele assistiu, no
telo,  transmisso completa da primeira prova da Frmula Indy - na Austrlia, eu acho. Porque
a diferena de horrio era tremenda e a prova comeava de madrugada no Brasil. Ele via tudo o
que tinha a ver com corrida em quatro rodas - s vezes, tambm em duas. Havia os amigos
brasileiros na briga, Emerson, Raul Boesel e,  claro, Maurcio Gugelmin, com quem ele dividiu
casa quando os dois chegaram, com a cara e a coragem,  Inglaterra, no incio dos anos
80, sonhando com a glria no automobilismo. Mas, no caso dele, acompanhar a Indy era paixo
pura pelo esporte em si - e o risco da velocidade.
         Devastada por um dia de muito calor e esporte, eu me aninhei no colo dele, resignada em
saber que ele ia at o fim, e tentei manter os olhos e os ouvidos abertos enquanto ele me dizia
uma ou outra coisa que, de repente, me fizeram parar e pensar: espera a, isso  uma confidncia.
Ele no diz essas coisas pra ningum. Ainda mais para algum que definitivamente no era do
ramo.
         - Est sendo difcil pra mim - dizia ele.
         - Como?
         - A Williams est sendo difcil pra mim - repetia.
         Desde os primeiros testes oficiais no Estoril, em meados de janeiro, testes que o Braga
acompanhou, j que ele ficou hospedado em Sintra, Ayrton andava se queixando ao travesseiro.
Sentia-o cabisbaixo. Ele havia brigado muito por aquilo. A Williams era uma conquista. .
         - Lutei muito para sentar naquele carro, para estar ao lado do Frank Williams. Mas estou
sentindo que vai me dar trabalho. Ou eu no me adaptei ao carro ou  o carro que no foi com a
minha cara.
         Eu o ouvia: no fundo, ele achou que ia sentar no Williams, encontrar um carro
acertadinho, acelerar e partir para o abrao da galera. Mas vieram as mudanas no regulamento da
FIA, uma tentativa de nivelar por baixo. Eu o ouvia e vinha com minhas opinies de leiga:
         -  uma imbecilidade mudar a regra. A Frmula 1 vai andar para trs.
         Palpite meu: se j existiam os computadores, a eletrnica em cima, o prprio sistema
eletrnico garantindo uma segurana muito maior, controlando a acelerao e a aderncia, por
que voltar  era da manivela? Ele concordava e pegava especialmente num ponto: o
reabastecimento em plena corrida.
         - Quero ver s como vai ser - disse, com uma ponta de ironia e, como se viu depois, uma
sabedoria proftica. Design atualssimo, motores poderosssimos, modernidade absoluta na
questo da aerodinmica - e, do ponto de vista da segurana, muitos passos para trs. Vejam bem:
isso a gente dizia bem antes de tudo acontecer. Naquele primeiro dia que eu vi o Williams,
secretamente, na Inglaterra, achei o carro lindo e ainda brinquei com o Bco:
         - P, de azul voc vai estraalhar coraes.
         Mas, na minha intuio meio bobona, tambm achei a frente do carro fina demais - um
palmo de bico, se tanto, enquanto a McLaren era mais parrudinha. Dava idia de fragilidade. Ele
estava convencido, porm, de que as mudanas na estrutura do veculo seriam compensadas por
pneus mais largos. Comentou comigo. No aconteceu nada daquilo e ele, s vsperas da estria,
se debatia com a dificuldade de um iniciante:
         - Estou praticamente comeando do zero - confessou, enquanto eu cabeceava no colo
dele, esparramada no sof. Ele se dividia entre olhar uma prova em Surfer's Paradise, Austrlia (
o que penso, vagamente) - "olha s esse Mansell", gritava ele, de repente, "devia estar num circo"
- e pensar na corrida que esperava por ele, dali a pouco mais de uma semana.
         (As quatro da madrugada, ele me despertou com um beijo e me levou nos braos at a
cama, ironizando: "Que bela companhia, eu arrumei".)
         Feliz ele estava. Era um desafio. Mas a decepo inicial ele j no escondia.
         - Vou pegar leve.  uma equipe nova, caras novas, quero ir mudando as coisas
gradualmente. Melhor carro, melhor piloto? Sei no - ele me afirmou, com todas as letras, em
Angra.
         Interpretem vocs como quiserem essa frase do Ayrton, o determinado, o fantico, o
obstinado, contestando o que, de boca em boca, s se proclamava nos bastidores do
automobilismo mundial. Vou me dar o direito de interpret-la assim: finalmente, o homem se
colocava num plano superior  mquina. Espiritual e moralmente, ele a sobrepujava. Chamasse
Williams, McLaren, Ferrari, Benetton, no importa o nome - Ayrton descobria que o material que
o fazia ser humano era bem mais consistente do que o dos carros, que lhe davam ttulos, dinheiro
e glria.
         A ltima vez que vi seu rosto, eu tive de repartir esse privilgio com milhes de
espectadores. Vi e revi por uma centena de vezes aquele longo, longussimo momento de
meditao e concentrao no boxe da Williams antes da largada em mola. A tev repisou
insistentemente, eu acionei inmeras vezes o replay, porque em tudo aquilo havia a indisfarvel
expresso de um mistrio. A cena acentuava o sentimento que ele me deixou, por telefone, na
vspera: se pudesse, no corria. Ayrton Senna ia sair na frente, como pela 65 vez em sua carreira
- pole position, sempre motivo de orgulho. Mas aquele choro infantil (me contaram, depois, que
ele se escondeu no boxe, no sbado, para chorar em paz) me acendeu uma luz de alerta. E a veio
a imagem da tev.
         Dia de corrida, para ele, era pura adrenalina. Chegava sempre muito cedo ao boxe, energia
a mil, brincando com os mecnicos. Braga no sentiu muita diferena  chegada, mas, depois do
warm up, depois daquela sumida tradicional no motor home, ele voltou sisudo e circunspecto.
Apoiou, meio desligado, as duas mos no aeroflio traseiro. Ficou muito tempo concentrado,
com o olhar vazando o que havia na frente. A, sim, demorou-se numa lentssima inspeo do
carro. Aquilo me chocou, porque percebia que havia um Ayrton que olhava atentamente e outro
Ayrton que parecia totalmente alheio. Ficou assim, imvel, um tempo intolervel. Idias tinham
tempo suficiente para se suceder em sua cabea. Patrick Head, o diretor tcnico, aproximou-se,
como que para despert-lo daquele momento de absoluta intimidade. S ento ele botou mscara,
capacete e se meteu no cockpit, sem dizer uma s palavra. Apertou o cinto. Pela brecha da
viseira, eu vi meu homem triste.
         O circo no pode parar. As provas prosseguem, outros campees viro, as geraes de
homens de ao se sucedero. Certo dia, aqui em Portugal, enquanto botava em ordem minhas
idias, uma amiga ligou do Brasil contando o encontro dela com uma cigana. Sem mais nem
menos, sem saber de qualquer ligao dela comigo, a cigana desvendou na sua mo uma curiosa
mensagem. Dizia assim:
         - Estranho, estou vendo aqui algum muito parecido com aquela namorada do Ayrton
Senna, aquela loirinha.
         - Adriane, aquela? - ela se fez de desentendida.
         - . Estou vendo ela se casando. Com um outro piloto. Um grandalho.
         Com todo o respeito  secular sabedoria das quiromantes, mas  de gargalhar.
         Estou fora. Depois de depositar flores naquela maldita curva Tamburello, que ele no
concluiu, fao minha despedida. No perteno mais a esse mundo da velocidade e do big
business. A vertigem dos bilhes de dlares pode cegar as pessoas. Aprendi essa lio cedo, ao
ver meu pai morto, aos 54 anos. Sejam dois mil dlares, sejam dois milhes, ou sejam trinta
dinheiros, nada disso ter o valor de uma vida vivida com dignidade e coerncia com voc
mesma.
         Naquele telefonema arrepiante que Bco me deu, no sbado, ainda em Sintra, depois da
morte do Ratzenberger, eu toquei nesse assunto:
         - Mas, Bco, quanto vale continuar com tudo isso? Milhes de dlares? Bilhes de
dlares?
         Eu me referia aos senhores da Frmula 1. Ser que no peito deles no h espao para o
sentimento da compaixo? Eu insistia:
         - Se a prova for adiada por uma semana, tenho certeza de que todo mundo que pagou
ingresso paga de novo. As pessoas ho de entender...
         Tchau Rubinho Barrichello, amigo fraternal. Tchau Christian Fittipaldi. Tchau outros
pilotos que choraram seu amigo Senna. Boa sorte! Que as prximas temporadas no sejam
marcadas, como a de 1994, pelo sombrio estigma da morte. No me peam para botar o p num
autdromo - nunca mais. At na tev, mudei definitivamente de canal.
         Zaza me disse que, naquele ltimo instante do filho no boxe, aquela longa preparao
antes da tragdia, foi uma forma de orao. Ela me disse isso e outras coisas no dia seguinte ao
enterro, quando foi  fazenda do Braga para conversar. Na vspera, depois do ltimo adeus, eu
tambm entrei na fila dos cumprimentos. A famlia enfileirada. Abracei a Viviane, que guardava o
capacete do Bco debaixo do brao. Muitas vezes ela tinha repetido, em voz alta, abraada quele
objeto que tanto lembrava o irmo chorado: "Valeu, Beco! Valeu!" Com o Leonardo, foi um
abrao forte, muito forte, e um beijo. "Nada do que a gente fez foi por acaso" - lembro de ele
me dizer. O pai se retirou, mas Zaza estava firme, beijei-a e ouvi dela: "Quero muito falar com
voc". Respondi: "Eu tambm". Mas no imaginei que no dia seguinte ela j batesse  minha
porta. Depois, achei que nunca mais nos veramos. Estava enganada.
         Quando olhei pela ltima vez para a cova do Bco, eu lhe disse em silncio:
         - Eu o amo, mas voc me deixou, voc me faz falta. Daqui para a frente, minha vida ser
um tormento.
         No dia em que tomei coragem, enfim, de ir a nossa casa, na Rua Paraguai, para retirar as
minhas coisas de l, reencontrei a Zaza. Na fazenda do Braga, em Campinas, recebi o apoio de
muitos amigos, uma longa e afetuosa visita da Betise, a Birgit, muitas amigas inesperadas e minha
me, mas eu estava to sem eixo, sem rumo, havia perdido to completamente o fio da meada
que me abaixei no carro quando fui a So Paulo pela primeira vez, com o motorista do Braga,
depois do enterro. S ver a cidade j me apavorava.
         Fui direto ao apartamento, sem buscar minha me, como eu tinha prometido. Dona
Neide me esperava. Dez dias depois de toda aquela tragdia. Respirei fundo para enfrentar os
fantasmas da memria. Subi de elevador. A porta, entreaberta. Tudo igual - e ao mesmo tempo
tudo to diferente! No havia nem sinal daquela baguncinha que ns dois produzamos ali. Tudo
no lugar. No havia mais vida ali. Sentamos, a me do Bco e eu, no sof e conversamos uns
quarenta minutos. Ela me falou da Bblia e, por coincidncia, do salmo 81 - aquele que o Bco lia
e relia. Ela no se conformava. Senti que ia desabar. Tratei de entrar no quarto. Atirava minhas
coisas na mala de qualquer maneira, para poupar sofrimento. Quatro malas cheias, no final.
Entrei no banheiro, estava do mesmo jeitinho: a escova de dentes dele no mesmo lugar.
         No resisti: pedi a Zaza para guard-la. Beijei-a e guardei.
         O armrio dele, presentes que eu tinha dado, a gaveta com seu pijama predileto, o mais
velhinho, tipo bermuda e camiseta de meia manga, azul-claro. Tinha tudo a ver com a nossa vida.
Fiquei com ele tambm. Mas o carto que eu lhe tinha dado de aniversrio e que ele pregou na
porta, eu fiz questo de dar a dona Neide:
         -  seu, fica com voc - insistiu ela.
         - No,  dele, portanto fica com a senhora.
         Dei as costas a um pedao grande do meu mundo - e sabia que essa despedida seria
tambm para sempre. Dona Neide me levou at a sada do prdio, ns nos abraamos, eu chorei
tanto, ela chorou tanto, uma no ombro da outra, que os dois porteiros que assistiam  cena
tambm se emocionaram. Quis desanuviar:
         - Se me pegarem na estrada, vo achar que sou uma sacoleira - disse eu.
         Ela ainda falou srio:
         - Adriane, obrigada por ter sido mulher dele e t-lo deixado feliz. Ele foi muito feliz com
voc.
         - Eu tambm fui muito feliz com ele.
         - Vou rezar por voc, vou torcer por voc, gosto muito de voc.
         Peguei-lhe pela mo e disse:
         - A senhora ainda vai me ver bem, pode ter certeza disso. De uma forma muito real,
sincera, coerente, vou dar um jeito na minha vida.
         Chovia muito, me recordo. Cada uma de ns entrou no seu carro. At nunca mais. Uma
pgina estava virada em minha vida.
         Mas, que a Zaza me permita, eu conhecia seu filho e sabia quando  que ele tinha seus
momentos de orao. Aquela cena que a tev mostrou, pouco antes do desastre, no foi um
deles. Bco rezava em casa,  noite, longe das pessoas - era dono de uma f recatada e ntima, no
fazia o estardalhao de um militante de plpito.
         Para mim, naquela hora de rosto tenso e mos cravadas no carro, ele apenas pensava. Pela
primeira vez na sua carreira de piloto vitorioso, para quem o triunfo vinha primeiro que tudo,
sentiu a fragilidade da mquina e a fragilidade do ser humano. Um homem tinha morrido  sua
frente. Um amigo se estourara contra um muro. At ento, o piloto Ayrton Senna sentava no
carro e andava no limite.
         De repente, outros sentimentos tinham se intrometido na sua vida: susto, surpresa, medo.
Medo - que palavra cruelmente realista! Em tantos meses de conhecimento ntimo e profundo,
nunca o vi demonstrar qualquer coisa parecida. Ele passou por situaes incrveis, bem diante do
meu nariz. Nunca se inquietou. Ao contrrio, buscava o perigo. Mas eu falo agora com a
sinceridade de quem ouviu, sentiu, viu - e de quem no tem nenhum compromisso a no ser com
aquilo em que verdadeiramente acredita. Hoje, assisto de camarote aos que tentam dar a suas
prprias mentiras um ar piedoso, quase religioso. Teorias e mais teorias, todas atribuindo a
Ayrton coisas que detestava fazer e negando-lhe aquilo que mais buscava, ou seja, a liberdade.
        mola era a prova de fogo dele. O tudo-ou-nada da temporada 1994. Ele sabia que tinha
de ultrapassar todos os limites, a comear pelos de sua mquina frgil e difcil de dominar. A
minha verdade  a de que se viu, enfim, como uma criatura de carne e osso. Os super-heris no
tm medo. As pessoas tm. No dia em que Ayrton Senna pde experimentar o mais humano dos
sentimentos, no dia em que ele definitivamente se completou como ser, a insanidade dos
mercadores do perigo veio golpe-lo na cabea. Meu Bco, amado e inesquecvel, pagou com a
vida a escolha de ser aquilo que ele era.
        Era azul, todo azul, o meu quarto na fazenda Guariroba, para onde a Luiza e o Braga me
levaram, quase pela mo, como se eu fosse uma criancinha desvalida. Azul - a cor preferida dele.
Bateu, de cara, a desesperadora com preenso do que me esperava da para a frente: viver
plenamente Ayrton Senna sem ter Ayrton Senna. Tudo ia me fazer lembrar dele; nada eu iria ter
em troca de sua ausncia.
        Um senhor que no me conhecia havia me colocado, na vspera, depois do enterro, num
gesto de simples generosidade, diante do meu day after. Almovamos - a Betise, Birgit e o
marido, Christian, e eu - no Maksoud, quando esse senhor me reconheceu, levantou-se de sua
mesa e, pedindo mil desculpas, me deu uma coisinha embrulhada num pacotinho.
        - No  nada,  s um smbolo - ele me disse.
        Era um chaveiro em forma de corao, dourado.
        - Voc perdeu isso. Mas voc vai se refazer - despediu-se.
        O coraozinho ingnuo, o quarto azul da fazenda, a cama de casal e os sonhos de todos
os dias - ah, os sonhos! Ele sempre vivo; muitas vezes em lugares que lembravam um quarto de
hotel, malas empilhadas; ou naquela cena tpica dele de falar ao telefone. De repente, ele ia
sumindo e ia ficando difcil alcan-lo. Ou ele se atrasava. Sempre ns dois muito prximos, s
que eu no conseguia nunca tocar nele. Ou ento ns dois numa lagoa linda, com muito peixe,
ele me chamando a ateno para as cores de um, a beleza de outro, e, sem mais nem menos, a
gua virava uma escada, que descia para um poro, onde ele me esperava, encostado nessa escada.
E quando eu, eufrica, corria para mergulhar nos braos dele, despertei.
        Acordava sempre com um travo de frustrao e uma dor de saudade. Mas mesmo um
sonho que eu no podia agarrar, ou parar no tempo, me trazia o consolo de sua imagem e de
lembranas de coisas vividas por ns. O sonho da lagoa, por exemplo, me fez voltar a uma noite
nossa no Algarve. Madrugada alta, desperto com uns gritos dele:
        - Pega o peixe... Olha l... Ali na frente... Pega o peixe!
        Ele estava sentado na cama, berrando, mas com os olhos de um sonmbulo. Tentei
acalm-lo. Abracei-o e disse:
        - T bom, peguei o peixe.
        Sempre de olho fechado, ele relaxou:
        - Ento, guarda o peixe.
        E voltou a dormir.
        Na fazenda, passei a ter medo das noites e dos sonhos. Trouxe minha me para perto de
mim. Queria que ela ficasse acordada a meu lado, vendo um vdeo atrs do outro, at que as
minhas foras cedessem. De dia, voltei a correr. Quarenta e cinco minutos. Falava em voz alta,
enquanto corria:
        - T vendo? Fica aqui do meu lado. Era isso que eu queria mostrar para voc: que podia
correr com voc... Descobri um caminho que eu chamava de trilha das borboletas. Antes de ir
embora, Braga fez um giro por toda a fazenda comigo e fiquei deslumbrada com aquele lugar,
perto de uma cachoeira, muitas rvores serpenteando por um caminho natural e uma quantidade
incrvel de borboletas, de todas as cores, de todos os tamanhos, de desenhos diferentes, tantas
que voc corria e elas vinham de encontro a voc. No caminho das borboletas tinha uma pedra.
        Grande e lisa. No sei por que a escolhi entre tantos lugares to bonitos da fazenda, mas
era passar ali e me vinha  cabea aquela idia do reencontro: "Bco, voc podia vir me ver um
dia, aparecer por aqui".
         Outra coincidncia dava relevo quela pedra. Toda vez que eu entrava no carro, para
uma volta em Campinas ou nas redondezas, tinha alguns CDs  mo. Simone, Phil Collins.
Tambm deles eu tinha pnico - com certeza, iam me remeter para algumas situaes muito
especiais passadas com ele. Mas tinha um Milton Nascimento, velhssimo, ou tipo os melhores
momentos, no sei - s sei que era Milton direto, Milton, no, s aquela msica dele, muito
antiga, que me disseram chamar Travessia, que dizia coisas como "solto a voz nas estradas, eu
no posso parar; meu caminho  de pedra..." Outro trecho impressionante: "Eu no quero mais a
morte". Como aquilo me tocava. No querer a morte era manter a memria dele viva - foi nesse
exato momento que eu decidi deixar para a posteridade as coisas que eu conto agora.
         No dia da despedida da Guariroba, antes de seguir para o Rio e, depois, para Lisboa,
voltei l na pedra. Eram cinco da tarde, mais ou menos, de um dia muito frio; o sol j quase no
se manifestava e eu quis passear, dar um adeus quele lugar que tinha me dado um abrigo to
reconfortante. Com minha Bblia na mo, me encaminhei quase automaticamente em direo 
pedra. Abri o livro sagrado para ler, mas o fechei. Por mais de uma hora, eu falei. Sem parar, em
voz alta - a minha prpria e desesperada orao. Pedia para sair dali purificada de corpo e alma.
Deixar para trs as mgoas, os maus sentimentos, revolta, dor, decepo, injustia. Que a
tempestade me fortalecesse. A, sim, abri a Bblia. Por acaso, juro, no Salmo do Perdo.
         Bco no apareceu naquela pedra. Mas, no sei por qu, eu o sentia perto, muito perto.
Continua pertinho, aqui, do meu lado. E do lado de todos os que o amaram verdadeiramente.
         FIM


                                               POSFCIO
        Ele me chamava de "Emmo" - meu apelido no mundo do automobilismo. Era o seu
jeito meio tmido de mostrar respeito e afeto por mim. De fato, no mnimo uma dcada e vrios
milhares de quilmetros rodados separaram a minha gerao da dele. Quando Ayrton ainda se
sujava com a graxa dos karts, eu j era campeo do mundo. De algum modo, acredito ter ajudado
a inspir-lo a seguir adiante. Digo isso sem a menor pretenso, mesmo porque apenas repito o
que, certa vez, ele prprio me disse. Se assim foi, sinto-me orgulhoso de ter participado de uma
carreira to recheada de pole positions, pdios e vitrias.
        Lembro-me de vrias conversas, longas e proveitosas, com Ayrton. Ele, vivendo
intensamente a Frmula 1; eu, idem, idem, a Indy. Nossas pistas nunca se cruzavam, a no ser
ocasionalmente. Mas nossa amizade vinha de longe. Sinto uma ponta de orgulho ao me lembrar
daquele dia em Zeltweg, antes do GP da Astria de 1981, quando peguei pela mo aquele garoto
que corria no campeonato europeu de Frmula Ford, preliminar da prova de Frmula 1, e o levei
de boxe em boxe. Apresentei-o a um por um dos grandes chefes de escuderia: Ken Tyrell, Ron
Dennis, todos (isso mesmo: fui eu que apresentei Senna a seu futuro patro Dennis). Nunca
havia feito o mesmo com nenhum outro jovem piloto brasileiro - muitos deles igualmente
promissores. Mas eu tinha certeza de estar diante de um piloto excepcional. Apresentei-o assim:
"Este  Ayrton Senna. Ele vai ser campeo do mundo". Conhecendo-me e sabendo do meu estilo
reservado, era compreensvel que aqueles senhores da Frmula 1 fizessem um ar de espanto. Ele,
por sua vez, reagia com um sorriso encabulado.
        No GP de Portugal, em setembro de 1993, tive a felicidade de um convvio de quatro dias
com ele, na casa de nosso amigo Braga. Percebi que Ayrton andava muito tenso, pressionado pela
dvida que iria mudar sua vida: ir ou no ir para a Williams. Era um pesadelo na vida dele. Mas,
com os amigos, se mostrava sempre tranqilo e cordial. Falamos muito sobre isso - concentrao,
preparao mental, relaxamento. Busquei-o, dias depois, no Brasil. No jatinho de nosso amigo
Gito Chammas, seguimos para Miami e, de l, no meu Learjet, para Phoenix, Arizona. A meu
convite, foi testar o carro que meu big boss Roger Penske botou  disposio dele, para o caso de
resolver mudar de turma no automobilismo. Ayrton testou o carro - o meu carro - ao seu estilo:
meticuloso, detalhista. Parou no boxe e mudou a posio do banco. Virou rapidssimo. Voltou
radiante. "Gostou?" - perguntei. Ele nem precisava responder: seus olhos brilhavam como os de
um garotinho que acabou de ganhar um presente.
         Acho que j  hora de contar um segredo que guardamos conosco. Mesmo depois de
acertar os ponteiros com a Williams, Ayrton ligou para o Roger para fazer um agradecimento e
um pedido. Sonhava em correr em Indianpolis na temporada de 1994. O calendrio da Indy e o
da Frmula 1 no iam trombar naquela data. Ayrton queria se juntar a Paul Tracy e a mim na
equipe Penske.
         Nosso ltimo encontro, cara a cara, foi em Interlagos, a um ou dois minutos do incio do
GP do Brasil de 1994. O suficiente para um rpido "Al, tudo bem?" e um "boa sorte", de mim
para ele. No a teve, naquela tarde, na pista. Mas eu sentia que, ao lado de Adriane Galisteu,
Ayrton estava tendo sorte na vida. Havia encontrado sua metade. Sua maturidade como ser
humano era visvel. Conseguia, enfim, conciliar trabalho e sentimento.
         No me considero um homem supersticioso e at estranho, ao reler o pargrafo acima, a
repetio da palavra sorte. Bem, talvez sorte seja, por mais que a reneguemos, um instrumento
indispensvel a quem, como Ayrton, como eu, construiu a vida nos percursos arriscados do
asfalto. Sorte  tambm o que desejo a Adriane, a quem a vida pregou um susto cruel, mas que
ainda tem muito pela frente para superar a insupervel ausncia de seu namorado.
         Emerson Fittipaldi
         So Paulo, 11-10-94



                      Impresso na Diviso Grfica da Editora Abril S.A.
                  Av. Otaviano Alves de Lima, 4400, SP, tel.: (011) 877-1150.
                             Distribudo no Brasil por Dinap S.A.
                    Estrada Velha de Osasco, 132, SP, tel.: (011) 810-5001.
               {Este livro foi digitalizado por Katia Oliveira em Junho de 2002.
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